Publicação mensal sobre Relações Internacionais

“Corra!”: a arte como ferramenta de conscientização sobre a questão racial

Por Artur Melo*

Em tempos de recrudescimento dos movimentos supremacistas ao redor do mundo – nos EUA sob as asas da alt-right e dos discursos “apaziguadores” por parte da atual administração -, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deu espaço este ano ao diretor estreante Jordan Peele e seu trabalho indicado a quatro Oscars (incluindo Melhor Filme), “Corra!” (Get Out!, 2017) – muito merecidamente, diga-se de passagem.

A questão racial nos EUA tem sido abordada no cinema Hollywoodiano há décadas. Comumente ambientados no Mississipi (desde clássicos como “No Calor da Noite”, “Mississipi em Chamas” e “Tempo de Matar” até outros mais recentes, como “Mudbound”), os filmes sobre a segregação racial costumam retratar a violência nos conflitos entre negros e brancos de maneira dramática, muitas vezes envolvendo batalhas judiciais, tramas policiais e tragédias familiares. Alguns deles adotaram abordagens até cômicas, apesar de controversas, como Spike Lee em “A Hora do Show” e “Faça a Coisa Certa”; mas o gênero terror ainda não tinha sido tão bem explorado quanto agora.

Com um roteiro que arrebatou o Oscar de Melhor Roteiro Original (escrito pelo próprio diretor), “Corra!” é capaz de colocar o espectador na pele do protagonista negro que vai conhecer a família da namorada branca, escancarando a essência do racismo e revelando a face dissimulada de ideologias supremacistas que ultimamente têm sido toleradas como um mero “contraponto” ao movimento negro, tanto nos EUA quanto em outros lugares do mundo.

Em agosto do ano passado, um incidente durante uma passeata do movimento “Unite the Right” deixou uma mulher morta e vários feridos quando um homem atropelou manifestantes antifascistas e apoiadores do “Black Lives Matter” em Charlottesville, no Estado da Virginia (EUA). Em seu pronunciamento a respeito do caso, o presidente Trump condenou a violência que partira de “muitos lados”, clamando por mais tolerância das partes envolvidas, dando a entender que todos estavam certos em suas reivindicações e errados em sua maneira de se manifestar.

O que a opinião pública frequentemente peca em perceber é a assimetria entre a defesa dos direitos e das vidas negras do movimento “Black Lives Matter” e o discurso supremacista (apoiado por neonazistas e membros do Ku Klux Klan) do “Unite the Right”.

Muito além de questões meramente técnicas, “Corra!” é bem-sucedido na abordagem dessa assimetria ao revelar o que os supremacistas realmente pensam sobre aqueles que consideram inferiores: o filme remete aos não tão longínquos tempos de escravidão da população negra na América, retratando a vileza da crença de que os brancos são uma raça superior – crença defendida, cada vez mais abertamente e com a legitimação de poderes estabelecidos, pelos movimentos de extrema direita, em vários lugares do ocidente.

O terror no filme de Jordan Peele está sobretudo no comportamento dissimulado dos supremacistas, mostrando que qualquer pessoa branca pode adotar discursos condescendentes e ao mesmo tempo ser racista e cruel. Essa perspectiva do íntimo do pensamento supremacista permite que uma pessoa que não sofre cotidianamente com o preconceito compreenda o significado das reivindicações do movimento negro e repudie (daí a importância do gênero terror) o comportamento e as ideias dos vilões do filme – que são um retrato em “zoom” da extrema-direita americana.

Peele também é didático no roteiro ao chamar atenção para o desconforto gerado nas relações pessoais entre negros e brancos quando se tenta provar o tempo inteiro que não se é racista. Comentários aparentemente inócuos podem revelar um esforço exagerado de esconder não somente desprezo, mas intenções macabras. São lições que quem não se identifica como racista precisa aprender para lidar melhor com esse tema.

Se há algum pequeno problema digno de observação no filme é a oportunidade perdida no final de levar o debate para o nível institucional: o racismo se estende para muito além do foro íntimo e da vida social. Quando o indivíduo é racista e detém algum tipo de poder, a instituição da qual ele faz parte se corrompe, elevando o problema para um nível estrutural; como, por exemplo, a polícia, que poderia ter sido retratada de forma mais verossímil se chegasse à cena dos crimes e concluísse de antemão que as vítimas na verdade eram as pessoas brancas alvejadas, trazendo a crítica para mais perto da realidade.

“Corra!” traz uma perspectiva do racismo que pode influenciar positivamente a opinião pública diante dos debates sobre a questão racial no EUA e no mundo. É um filme de grande importância para o momento delicado pelo qual as democracias estão passando enquanto se tem dúvidas sobre o direito de grupos supremacistas se manifestarem com a mesma legitimidade dos grupos que defendem os direitos e as vidas das minorias sociais.


*Artur Melo é um escritor sergipano, autor de O Gigante, músico, professor e amante de cinema.


As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autora e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todas as suas colaboradoras.

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