Publicação mensal sobre Relações Internacionais

A política externa e a política de defesa da Rússia: assertividade, geopolítica e instrumentos coercitivos

Por Antonio Henrique Lucena Silva*
Heviane Santana de Lima**

A Rússia está passando por um processo de busca de reafirmação do seu poder, principalmente na Eurásia. Com o fim da União Soviética em 1991, o país perdeu o controle imperial sobre o resto da região. A área formada pelos Estados satélites, como os componentes da sua esfera de influência durante a Guerra Fria, mudou imediatamente para um complexo europeu, assim como os três Estados bálticos da Estônia, Lituânia e Letônia. A Federação Russa, ao longo dos anos 1990, era um dos países mais fortes dos restantes 12 novos independentes Estados soviéticos, embora com um forte declínio durante esse período.

As estratégias que a Rússia atual promove buscando a restauração e seu equilíbrio no sistema internacional é estruturada geograficamente. Objetiva, assim, firmar sua influência em diferentes territórios através da obtenção e demonstração de seu poder:

Na frente ocidental, contrastar e conter duramente os EUA/OTAN em suas políticas de expansão/contenção em direção ao leste e, no limite, manter ou reconquistar para a sua órbita de influência direta a Ucrânia, as três ex-Repúblicas Soviéticas do Báltico (Lituânia, Letônia e Estônia), a Moldávia, parte do Cáucaso (Geórgia e Armênia) e o Ártico com suas cobiçadas jazidas de petróleo e gás e as novas rotas interoceânicas. Na sua projeção para o Leste, esse ativismo russo se expressa, sobretudo, por um acentuado esforço de aproximação com a China, país com o qual tem história marcada pela alternância entre períodos de cooperação (como o fundamental apoio russo à revolução chinesa entre 1946 e 1949) e rivalidades, neste caso envolvendo graves disputas fronteiriças nos anos 1960. Na sua estratégia na frente ocidental, a Rússia projeta manter ou retomar sua presença combinando diplomacia, dissuasão e ação militar em suas antigas áreas de influência, isto é, a Europa Oriental e o Báltico e, ao sul, o Cáucaso no qual utilizou a força militar com a invasão da Geórgia em 2008 seguida da incorporação de facto das suas províncias da Ossétia do Sul e Abkházia. Dentre esses movimentos recentes, entretanto, o que melhor ilustra a determinação do país de seguir o caminho traçado para retomar sua posição de grande potência – e o que mais tem despertado a atenção da comunidade internacional – é a sua sistemática ingerência na política interna da Ucrânia e nesse caso em explícita confrontação com o Ocidente, a cooptação e o apoio militar aos insurgentes de ascendência russa das províncias orientais do país e, finalmente, a integração (do seu ponto de vista) ou a anexação (do ponto de vista ocidental) da Criméia, em março de 2014 (COSTA, 2015).

Em novembro de 2015, o Presidente da Rússia Vladmir Putin assinou um documento do “Novo Plano Estatal de Defesa” para o período de 2016-2020. O texto coloca ênfase nas forças nucleares estratégicas e provê alguns detalhes das forças alocadas no Distrito Militar Ocidental (ISS, 2017). Outras prioridades foram encontradas no report feito por Putin para o Ministério da Defesa em dezembro de 2015: 1) embora o plano de defesa já estivesse sido estabelecido, o Ministério da Defesa deveria estar atento as rápidas mudanças no plano global e submeter mudanças no plano, caso fosse necessário; 2) o reequipamento e a modernização das forças armadas deveriam continuar de acordo com o planejado e dentro do que havia sido definido em termos orçamentários; 3) as forças nucleares e espaciais devem ser fortalecidas; 4) melhoria no treinamento devem ser feitas e a defesa russa precisa se preparar para o “transporte de tropas a longas distâncias”, defesa aérea, mísseis antiaéreos e componentes de rádio e, por último; 5) aperfeiçoar a cooperação com aliados (ISS, 2017, p.188).

O programa mais recente modernização em defesa da Rússia, a Novy Oblik, começou em 2008 com o objetivo de redesenhar as Forças Armadas Russas depois das deficiências encontradas em agosto do mesmo ano na guerra contra a Geórgia. Novas estruturas foram adotadas, testadas e, posteriormente, ajustadas: a Rússia ao invés de contar o antigo modelo de mobilização de massa, passou a ter formações para emprego rápido. Um plano ambicioso para a Força Aérea inclui o uso misto da tradicional concepção de grandes bases aéreas e pequenos aeródromos satélites; para exército, os russos adotaram uma estratégia de mudanças estruturais, deixando de lado a forma comum de “brigadização” para grupos menores. Além dessas questões, a Novy Oblik possui como foco o fortalecimento das forças da Rússia na fronteira com a Ucrânia (ISS, 2017, p. 184). Um exemplo desse movimento pode ser ilustrado pela mudança do 20º CAA (Combined-Arms Army) da região de Nizhny Novgorod para Voronezh, evidenciando que a Rússia deseja manter uma presença de longo prazo na fronteira ucraniana. A construção de quartéis, hangares, locais de treinamento e esportes torna mais cristalina essa ideia.

Oficialmente, a Rússia anunciou em março de 2016 que as operações na Síria estavam terminadas, mesmo com ataques por terra e ar acontecendo. A participação  direta das forças armadas russas em combate (em terra) decresceu de forma sensível, a campanha aérea de bombardeio continua de forma ininterrupta. Elas foram fundamentais para a perda de território do Estado Islâmico, assim como alterar a balança de poder favoravelmente ao presidente sírio Bashar Al-Assad. O teatro de operações da Síria também foi utilizado como campo para teste de armas. O Ministro de Defesa da Rússia, Serguei Shoigu, afirmou que mais de 160 modelos de armas avançadas foram empregadas na Guerra da Síria (SPUTNIK NEWS, 2016). De fato, algumas conclusões importantes foram extraídas do conflito como a necessidade da Rússia de ter mais veículos aéreos não-tripulados (UAVs), os bombardeios de longa distância que são feitos com aeronaves Tupolev tanto da Rússia como do Irã são importantes, especialmente os com bombas de queda livre, por serem menos custosas que as inteligentes. No entanto, o uso de bombas guiadas por satélite KAB-500 devem ser empregadas com mais frequência. A efetividade dos bombardeios das aeronaves Su-34 Fullback, a principal plataforma da Força Aérea Russa para ataques com armas de precisão, foram bem avaliadas pelo Kremlin. A aquisição de mais 150-200 aviões deste tipo é um indicativo que ele deve reforçar o arsenal russo e, provavelmente, será usado em operações com mais regularidade.

O reforço militar que a Rússia está dando ao Ártico é digno de observação. Novas infraestruturas nas ilhas de Novaya Zemlya, Kotelny e Alexandra Land demonstram o interesse por essa região. A frota do norte também recebeu mísseis S-300, um número pequeno de baterias Pantsir e uma bateria adicional de mísseis antinavio Rubezh SS-C-3 Styx. Para Moscou, essas três ilhas propiciam uma capacidade melhorada de vigilância ar-mar na região. A Marinha Russa realizou expedições nas ilhas Kuril. Matua e Paramushir com o intuito de avaliar novas localidades para bases e reforçar o 68º regimento do Exército. A região do Cáucaso também foi relevante para se entender a política externa e defesa da Rússia. O fortalecimento das relações com a Abkházia, através da assinatura de um acordo militar, no fim de 2015, exalta esse movimento. A instalação de novas forças russas na Armênia, depois das disputas que esse último país teve com o Azerbaijão na área de Nagorno-Karabakh, em abril de 2016, pode ser interpretado como um comprometimento maior do Kremlin com seus aliados.

De forma geral, podemos detectar que a Rússia tem sido mais assertiva no plano internacional. Os desenvolvimentos das operações militares na Síria, no campo da política de defesa, reforça a visão que Moscou está preparada para usar a força militar como um elemento importante para evitar perdas geopolíticas. A força militar também é usada no caso da Ucrânia, e também contra o alargamento das operações da OTAN, como um instrumento coercitivo que o Kremlin usa para atingir objetivos políticos.


*Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense. Professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Pesquisador Associado do GEESI – UFPB e do Instituto de Estudos da Ásia (IEASIA) da UFPE (antoniohenriquels@gmail.com).

**Estudante de graduação de Relações Internacionais pela Faculdade Estácio do Recife. Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) (hevianelima@hotmail.com).

Referências
COSTA, Wanderley Messias da. O reerguimento da Rússia, os EUA/OTAN e a crise da Ucrânia: a Geopolítica da nova Ordem Mundial. Confins. Revue franco-brésilienne de géographie/Revista franco-brasileira de geografia, n. 25, 2015.

INTERNATIONAL INSTITUTE OF STRATEGIC STUDIES. The Military Balance 2017. Londres: Routledge, 2017.


As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autora e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todas as suas colaboradoras.

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