Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Tag: Ensino e Pesquisa

Lattes dos Fracassos: uma aula motivacional

Ian Rebouças Batista, Oleg Komlik
Uma regra fundamental na escrita de um currículo baseia-se no postulado não dito de que se deve omitir qualquer coisa que não saiu como planejada ou que realmente não deu certo. Esse princípio é duplamente válido e relevante quando elaboramos o nosso currículo Lattes. Cada Currículo Lattes é uma festiva celebração e uma lista onde se destacam vitórias e realizações pessoais! Ora, nossa jornada profissional é realmente um caminho feito apenas de sucessos? Ou em alguns momentos e locais houve fracassos e perdas? Sim, claro! Apenas não existem rastros desses momentos ruins no Lattes. Um Professor Assistente de Psicologia e Relações Públicas, na Universidade de Princeton, EUA, Johannes Haushofer, decidiu mostrar que nossas falhas e tropeços “invisíveis” são partes importantes de um caminho s
Feminismos e Relações Internacionais: uma generificação conceitual*

Feminismos e Relações Internacionais: uma generificação conceitual*

Murilo Mesquita
Por Murilo Mesquita** As teorias feministas, no campo de estudo em Relações Internacionais, se expandem desde 1990, de modo que se tornam cada vez mais evidentes. Essa proliferação se dá a partir da tentativa de romper com noções masculinizadas de conceitos centrais a esse campo de estudo, tais como Estado, segurança e guerra. Essas abordagens buscam introduzir a noção de gênero como chave-explicativa para entender as relações de poder da cena internacional (TRUE, 2005). Com esta tomada de posição, as teorias feministas, junto às abordagens pós-modernas, construtivistas e da teoria crítica, contestam o poder e a produção de conhecimento das escolas que fazem parte do mainstream teórico das Relações Internacionais (RI). Esse mainstream teórico, ou como denominam as abordagens feministas
O que o seu orientador gostaria que você fizesse*

O que o seu orientador gostaria que você fizesse*

Antonio Henrique Lucena Silva
Por Antonio Henrique Lucena Silva** Durante a elaboração de trabalhos de conclusão de curso (TCC), ou até mesmo na pós-graduação com o mestrado ou doutorado, a relação entre orientadores e orientandos pode (e deve) ser frutífera. Em muitos casos elas se tornam associações de longa duração porque eles tendem a trabalhar conjuntamente na escrita de artigos, textos, projetos, caso o orientando resolva seguir a carreira acadêmica, seja “partial” ou “full time”, e a construção da relação com o professor seja profícua. É comum que os alunos reclamem da orientação que eles recebem. As razões são as mais variadas: ausência do orientador, e-mails não respondidos ou respondidos depois de alguns dias, o não respeito do professor pelas opções teóricas ou metodológicas que o aluno(a)/orientando(a) t
Relações Internacionais, política internacional, política externa e política estrangeira: quais as diferenças de nomenclatura?

Relações Internacionais, política internacional, política externa e política estrangeira: quais as diferenças de nomenclatura?

Thales Castro
Por Thales Castro* No contexto de sala de aula e mesmo em foros específicos mais aprofundados, é comum, especialmente quando estamos ministrando uma disciplina teórico-introdutória da ciência das Relações Internacionais, deparamo-nos com as nomenclaturas básicas que são objetivo do título desta nossa reflexão. Neste sentido, o objetivo primordial de nossas considerações hoje é no sentido de diferenciar e esclarecer tais pontos, revelando, por seu turno, importantes análises sobre essas bases fundamentais do estudo temático da área internacional. Os termos “Relações Internacionais” e “política internacional”, muitas vezes com letras maiúsculas indicando nomes próprios ou não, são usados de maneira indiscriminadamente como sinônimos – e são efetivamente? A resposta é não. Primeiramente,
Idealismo e Realismo nas Relações Internacionais Contemporâneas: uma proposta de análise – Parte 2

Idealismo e Realismo nas Relações Internacionais Contemporâneas: uma proposta de análise – Parte 2

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé* Inspirados na obra de Carr, E.H., apresentamos, na primeira parte deste texto, uma proposta de discussão sobre a nova roupagem utópico-idealista presente nos discursos acadêmicos e políticos atuais e que se expressa, fundamentalmente, a partir das premissas da democracia neoliberal que marcou o final do século XX e os primeiros anos do XXI. Nesta segunda parte, analisamos, brevemente, a manutenção das premissas realistas que buscam reafirmar a imutabilidade estrutural das relações internacionais, pautadas, essencialmente, na securitização do mundo a partir das chamadas novas ameaças. Tal análise remonta à Maquiavel (2000) - ao mostrar que o interesse primeiro do Estado é a sua própria segurança e preservação - e se ancora também numa visão hobbesiana do esta
Na busca de um neoiluminismo nas relações internacionais contemporâneas

Na busca de um neoiluminismo nas relações internacionais contemporâneas

Thales Castro
Por Thales Castro* O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar. Procuro despir-me do que aprendi,  procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram [...] Trago ao Universo um novo Universo porque trago ao Universo ele-próprio. Alberto Caeiro, O guardador de rebanho (1911-1912). A coisa mais perfeita que podemos experimentar é o misterioso. É a fonte de toda arte e de toda ciência verdadeira Albert Einstein As palavras de profundo alcance de Alberto Caeiro, um dos pseudônimos de Fernando Pessoa, e de Albert Einstein estão unidas de uma forma muito particular: o mistério do universo é que nos move; sua grandiosidade é que nos impulsiona. Inexoravelmente, o mistério fascinante das Relações Internacionais foi
Pesquisa Qualitativa, Estudos de caso e Process-tracing na Análise de Política Externa Contemporânea

Pesquisa Qualitativa, Estudos de caso e Process-tracing na Análise de Política Externa Contemporânea

Elton Gomes dos Reis
Por Elton Gomes dos Reis* Estudos de Caso e Análise de Política Externa Desde os seus primórdios  ainda nos anos 1950 e 1960 , a Análise de Política Externa (APE)  tem reservado um espaço importante para a aplicação dos estudos de caso na compreensão dos fenômenos de poder  que se desenvolvem em função da busca das metas dos Estados na arena política internacional. Enquanto subcampo da Ciência Política e das Relações Internacionais, a  APE possui historicamente um foco particular  no exame da formação das preferências dos atores e nos processo decisório como uma forma de análise causal. O estudo de casos  tidos como “exemplares” encontrados no “baú de exemplos” da história das relações internacionais  figura de modo destacado em considerável parcela dos trabalhos sobre política extern
TRIP – Around the World: A Prática da Pesquisa nas Relações Internacionais*

TRIP – Around the World: A Prática da Pesquisa nas Relações Internacionais*

Cinthia Campos
Por Cinthia Campos** No artigo de abertura deste blog, abordei os desafios e os problemas inerentes da pesquisa na área de Relações Internacionais, estimando as dificuldades de definição conceitual, de mensuração e de modelagem. No entanto, para além desses dilemas, sempre é relevante perceber como essas questões afetam na prática o pesquisador na área. Um bom termômetro tem sido o TRIP Around the World: Teaching, Research, and Policy Views of International Relations Faculty in 20 Countries[1], realizado em 2012[2] e no qual inclui o Brasil em um dos seus casos, é possível identificar algumas nuances do ensino e da pesquisa das RIs no país. De uma amostra de 270 profissionais selecionados no Brasil, 193 (71,5%) responderam às questões, que buscaram avaliar o perfil do docente de Relaçõ
Relações Internacionais: teorias para quê?

Relações Internacionais: teorias para quê?

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé* Teorias para quê? À primeira vista, a pergunta parece simplória, desnecessária, gerando, aparentemente, respostas óbvias e certeiras. Entretanto, esta indagação tem acompanhado as pesquisas em diversas áreas das Ciências Humanas e, mais especificamente, os estudos dos fenômenos internacionais. Conforme afirma Bedin (2000, p.62), uma teoria das relações internacionais é “uma visão, uma interpretação, uma perspectiva dos fenômenos internacionais ou mundiais, amparada em algum método, cuja pretensão é explicar e dar sentido para os fatos que estão se desenrolando no cenário internacional.” De um modo geral, podemos demonstrar a importância da teoria a partir de três pontos, a saber: o necessário ordenamento racional da realidade, a análise do objeto para além d
A estatocentricidade das relações internacionais: um paradigma ainda persistente. Até quando?

A estatocentricidade das relações internacionais: um paradigma ainda persistente. Até quando?

Thales Castro
  Por Thales Castro* O Estado é o principal componente do amplo fenômeno personificado da interação internacional. Como peça-chave na relação sujeito-objeto internacional, o Estado tem centralidade e prerrogativas unívocas que o distingue, de forma pontual, de outros atores internacionais.[1] Não se pode conceber o estudo do Estado (estatologia) sem sua relação direta com o poder (cratologia) que será analisado no próximo capítulo. Na verdade, Estado e poder se confundem em uma lógica própria e intrínseca de cientificidade política internacional.[2] O Estado nacional é criação, relativamente, recente no amplo dínamo histórico da humanidade. O Estado foi forjado na violência e, como tal, representa a priori a lógica de manifestação e materialização das forças sociais de profundo e