Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Prostituição internacional e migração: visões divergentes*

Prostituição internacional e migração: visões divergentes*

Laura Melo Araújo
Por Laura Melo Araújo** Com o fim das guerras mundiais e a reconstrução da Europa Ocidental, essa parte do continente se tornou um polo de atração para quem busca trabalho e uma vida melhor, em especial para aqueles que vivem nas ex-colônias europeias. A França, por exemplo, exerce um grande poder de atração para os tunisianos, malianos e senegaleses, assim como a Inglaterra  em relação aos indianos. A temática da migração, entretanto, possui várias nuances. Ao levar em conta a questão de gênero, o artigo Migrants in the Mistress’s House: Other Voices in the “Trafficking” Debate (Agustín 2010) discute o fluxo migratório ligado à prostituição, em que  mulheres de países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento migram para países onde podem melhorar a qualidade de vida de suas famílias e d
O superpresidencialismo na Rússia de Putin

O superpresidencialismo na Rússia de Putin

Antonio Henrique Lucena Silva, Maria Eduarda Buonafina Franco Dourado
Por Maria Eduarda Buonafina Franco Dourado* Antonio Henrique Lucena Silva**    Introdução O modelo de governo autoritário do atual presidente Vladimir Putin em um sistema que, em teoria, é classificado como democrático, tem se apoiado na Constituição Russa de 1993. Sua principal característica é a hierarquização do poder, sendo o executivo como principal detentor do nível mais alto. O presidente, através dos seus poderes, tem criado mecanismos que o permite obter controle das instituições democráticas do país. O país russo vêm enfrentando uma crise democrática após a entrada de Putin no poder, em que os mecanismos democráticos estão sendo constantemente controlados no seu interior pelo poder executivo. Observando as últimas eleições desde a entrada de Putin no governo até as eleições
A mulher nas missões de paz da ONU

A mulher nas missões de paz da ONU

Rodrigo Pedrosa
*Por Rodrigo Pedrosa Entre os vários âmbitos da vida internacional em que as questões de gênero têm gerado reflexões e mudanças, especialmente a partir da década de 1990, as missões de paz das Nações Unidas revelaram-se terreno fértil para pesquisadores abordarem as relações masculinidade/feminilidade. Tradicionalmente, as forças armadas são observadas e conduzidas como uma instituição masculina. Assim, enquadram-se nas chamadas gendered organizations, expressão que explicita a predominância de um gênero na estrutura e hierarquia da organização enfocada. Outra acepção do termo, mais profunda e completa, permite perceber que os discursos, valores e práticas de uma organização caracterizada como gendered estão lastreados, simbólica e ideologicamente, em determinado gênero. No contexto d
Direitos humanos de mulheres refugiadas*

Direitos humanos de mulheres refugiadas*

Janeide Maria de Moura
Por Janeide Maria de Moura** De acordo com a Convenção das Nações Unidas Relativa ao Estatuto dos Refugiados (conhecida como Convenção de 1951) e seu respetivo Protocolo, que entrou em vigor em 1967, os refugiados são indivíduos que, ameaçados e perseguidos por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, precisam deixar seu local de origem ou residência habitual para encontrarem abrigo e morada em outros países. Entretanto, além dessa definição de refugiados omitir a categoria e a perseguição com base em gênero não é reconhecida pela convenção. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), o número de pessoas deslocadas mundialmente é o maior da história. Desses, cerca de 50% são do sexo feminino – um total de 10 mil
Os Direitos das Mulheres Também Seriam Direitos Humanos?

Os Direitos das Mulheres Também Seriam Direitos Humanos?

Maria Alice Venâncio Albuquerque
Por Maria Alice Venâncio Albuquerque* Quando se fala em violações aos direitos humanos, logo se pensa em violência física e crimes como tortura, inanição, terrorismo e mutilação, cometidos durante períodos de conflitos e guerra. Outra associação, comumente realizada, é a de se confiar à comunidade internacional – mais especificamente às organizações internacionais – a responsabilidade de identificar, socorrer e proteger àqueles que sofrem tais violações. Porém, também há muitos crimes graves que até recentemente não eram considerados, propriamente, violações aos direitos humanos (e cujo status, nesse sentido, ainda é discutido): humilhações, abuso sexual, escravidão sexual feminina, mortes por dote, violência doméstica/matrimonial, supressão de direitos reprodutivos e de liberdade sexual
Mobilizações Separatistas e o Nacionalismo na Catalunha

Mobilizações Separatistas e o Nacionalismo na Catalunha

Matheus Leite do Nascimento
Por Matheus Leite do Nascimento* Em textos anteriores do Vox Magister, foram discutidos o movimento separatista escocês – assim como o revigoramento do processo de integração europeu, que tem funcionado como força motriz para o mesmo – além de questões legais por trás de um processo de secessão dentro da União Europeia. No presente artigo, será abordado o caso de separatismo da Catalunha, explanando fatores históricos, políticos e culturais presentes na mobilização por independência da região espanhola. Antes de ser anexada ao território espanhol, a Catalunha foi durante um longo período uma região independente da Península Ibérica, constituída por uma língua, leis e costumes próprios. Com a ascensão do Rei Filipe V ao trono espanhol, uma série de conflitos internos durante a Guerra de
Novas Guerras: o confronto urbano entre as gangues Barriga e Sujeirinha

Novas Guerras: o confronto urbano entre as gangues Barriga e Sujeirinha

Ian Rebouças Batista, Marcos Américo Vieira
Por Ian Rebouças Batista Marcos Américo Vieira** Em comparação aos tempos de Clausewitz, as guerras já não são mais travadas da mesma forma. Na contemporaneidade, novos atores e novas formas de embate são identificadas, em parte, graças à modificação da estrutura do Estado. O modelo de Estado-nação, importado da Europa para suas colônias, mostra-se o embrião dos conflitos modernos. Segundo Kalevi Holsti (1991), podemos entender as causas das guerras contemporâneas ao analisarmos o nascimento dos Estados e a forma como estes passaram a ser governados. Consequentemente, grande parte dos conflitos contemporâneos é decorrente da inabilidade do Estado em manter a ordem interna e, para além disso, o monopólio da violência (KALDOR, 2013). Dessa forma, os campos de estudo da Segurança Interna
A Década da Mulher na prática*

A Década da Mulher na prática*

Natália Diniz Schwether
Por Natália Diniz Schwether** Fonte: https://www.engender.org.uk/content/projects-cedaw/ É inquestionável que as mulheres estão ativas e organizadas na cena internacional há muitos anos. Foram grandes os esforços para que as demandas transcendessem as fronteiras nacionais e se conjugassem em uma voz comum. Entre os movimentos de maior destaque está o movimento sufragista que, ao pretender ampliar os direitos políticos através do voto feminino, contou com uma rede global de disseminação de ideias, fomentada por reuniões, viagens, veículos de informação impressa e mídias alternativas. Algumas décadas mais tarde, entre 1970 e 1980, o campo da saúde propiciou uma nova ação integrada das mulheres. Eram aquelas que buscavam nos anticoncepcionais uma maneira de garantir o planejamento famili
A Masculinidade como Variável Explicativa da Guerra nas Relações Internacionais

A Masculinidade como Variável Explicativa da Guerra nas Relações Internacionais

Wemblley Lucena de Araújo
Por Wemblley Lucena de Araújo* Fonte: http://www.pubquiz.pl/_upload/min_pytania53125199079e08.27583189.jpg Tanto a masculinidade quanto a guerra são tratadas como categorias analíticas em algumas vertentes teóricas das Relações Internacionais. Ao relacionar as duas dimensões, é possível questionar como a masculinidade pode ser considerada uma variável explicativa para o entendimento da guerra. De fato, identificar a relação entre masculinidade e guerra favorece a ressignificação de diversos conceitos e pressupostos teóricos centrais às Relações Internacionais. De modo geral, as abordagens de gênero nas Relações Internacionais habitam um subcampo das teorias consideradas pós-positivistas; assim, costumam estar distantes dos estudos tradicionais de guerra, que não têm utilizado o gênero c
O estupro como arma de guerra

O estupro como arma de guerra

Elder Paes Barreto Bringel
Por Elder Paes Barreto Bringel* Fonte: http://gbvkr.org/gender-based-violence-under-khmer-rouge/facts-and-figures/rape-during-the-khmer-rouge/   Um relatório da ONU, publicado em março de 2014, listou 21 países na Europa, Ásia, África, América do Sul e Oriente Médio onde o estupro é usado como arma de guerra. O relatório identificou 34 organizações armadas — entre milícias, grupos rebeldes e forças de segurança governamentais — suspeitas de estupros e outras formas de violência sexual em situações de conflito, em países como a República Centro-Africana, Costa do Marfim, República Democrática do Congo, Mali, Sudão do Sul e Síria. Um mês depois da publicação desse relatório da ONU, no vilarejo de Chibok, nordeste da Nigéria, 276 mulheres foram sequestradas pelo grupo extremista Boko