Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Israel Roberto Barnabé

Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. Membro do “Regional Integration Research Group” (Institute of Latin American Studies, Stockholm University). Líder do grupo de pesquisa no CNPq “Política Internacional e Processos de Integração”. Professor Adjunto IV do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe e pesquisador do CEI/UFS e do NEPI/UFPE.

Venezuela: da aproximação regional à punição no Mercosul

Venezuela: da aproximação regional à punição no Mercosul

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé*   O caminho da Venezuela pela região sul-americana é marcado por desencontros. Na década de 1950, sob a ditadura de Pérez Jiménez (1953-1958), o país alcançou um papel de destaque na região graças aos dividendos do petróleo. Jiménez foi deposto em 1958 e, com a eleição de Rómulo Betancourt (1959-1964), o país retornou ao regime democrático – justamente no período em que diversos países sul-americanos enfrentavam golpes de Estado que resultariam em grandes períodos de ditadura militar. Este “desencontro histórico” da Venezuela com os demais países da região redundou, conforme aponta Cervo, em algumas consequências importantes, a saber: i) a relutância do país em incorporar-se à Associação Latino-Americana de Livre Comércio - ALALC, ii) a oposição a projetos de
Globalização, Estado-Nação e Integração Regional

Globalização, Estado-Nação e Integração Regional

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé* Dentre os principais elementos do processo de globalização que ganha corpo a partir da década de 1990, os debates em torno do Estado-Nação se destacam. A crise sistêmica aprofundada na década anterior, a consolidação de um mercado mundial altamente competitivo e a propalada cartilha neoliberal do Consenso de Washington fizeram aflorar uma série de estudos que indicavam uma crise do Estado, tendo em vista a incapacidade desta instituição secular em lidar, com protagonismo, com as principais questões dos cenários doméstico e internacional. No âmbito doméstico, o avanço da democracia nos países ocidentais - especialmente na América Latina num momento em que vários países encerravam longos processos de regime ditatorial - propiciava, como consequência natural, o
Os novos desafios da Diplomacia

Os novos desafios da Diplomacia

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé* Tradicionalmente a diplomacia é exercida com exclusividade pelos membros dos Ministérios das Relações Exteriores dos países. Embaixadores, Autoridades Consulares, Ministros e Secretários formam um corpo político especial, altamente qualificado (na maioria dos casos) que tem sido o responsável único pela implementação da política externa dos países. Importante salientar a diferença entre política externa e diplomacia. Conforme afirma Moita, a política externa é o conjunto de opções de um país no que toca à sua colocação no mundo e às suas relações com os outros, enquanto a diplomacia é uma atividade através da qual se aplica a política externa. A diplomacia é instrumental face à política externa. Designamos então ‘diplomacia’ aquele conjunto de pessoas, de ins
Chile, México e a questão da liderança na Aliança do Pacífico*

Chile, México e a questão da liderança na Aliança do Pacífico*

Ian Rebouças Batista, Israel Roberto Barnabé
Por Ian Rebouças Batista** Israel Roberto Barnabé*** Oficialmente criada em 6 de janeiro de 2012, na IV Cúpula, a Aliança do Pacífico propõe um processo de integração pautado na circulação de bens, serviços, capitais e pessoas e permite também um pacto de projeção global, especialmente com o Sudeste asiático. Os países-membros são: Chile, México, Peru e Colômbia. Os países observadores (alguns já candidatos a membros plenos do bloco) chegam a trinta: Alemanha, Austrália, Canadá, China, Cingapura, Coréia do Sul, Costa Rica, Equador, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Guatemala, Honduras, Holanda, Índia, Israel, Itália, Japão, Marrocos, Nova Zelândia, Panamá, Portugal, Paraguai, República Dominicana, Reino Unido, Turquia, El Salvador, Suíça e Uruguai. A participação do México n
Idealismo e Realismo nas Relações Internacionais Contemporâneas: uma proposta de análise – Parte 2

Idealismo e Realismo nas Relações Internacionais Contemporâneas: uma proposta de análise – Parte 2

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé* Inspirados na obra de Carr, E.H., apresentamos, na primeira parte deste texto, uma proposta de discussão sobre a nova roupagem utópico-idealista presente nos discursos acadêmicos e políticos atuais e que se expressa, fundamentalmente, a partir das premissas da democracia neoliberal que marcou o final do século XX e os primeiros anos do XXI. Nesta segunda parte, analisamos, brevemente, a manutenção das premissas realistas que buscam reafirmar a imutabilidade estrutural das relações internacionais, pautadas, essencialmente, na securitização do mundo a partir das chamadas novas ameaças. Tal análise remonta à Maquiavel (2000) - ao mostrar que o interesse primeiro do Estado é a sua própria segurança e preservação - e se ancora também numa visão hobbesiana do esta
Idealismo e Realismo nas Relações Internacionais Contemporâneas: uma proposta de análise (1)

Idealismo e Realismo nas Relações Internacionais Contemporâneas: uma proposta de análise (1)

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé* Dentre as várias possíveis análises sobre o cenário internacional atual, este texto busca provocar, em duas partes, uma discussão sobre as novas roupagens das correntes idealista e realista. Aquela buscando restaurar as premissas da democracia neoliberal que marcou o final do século XX e o início do XXI; esta pautada, fundamentalmente, na securitização do mundo a partir das chamadas novas ameaças. Pensando na primeira proposição, tal como no período entreguerras analisado por Carr, há, nos discursos acadêmicos e políticos atuais, uma abordagem utópica/idealista presa aos preceitos neoliberais anunciados pelo chamado Consenso de Washington da década de 1980. Esta corrente parte do pressuposto de que a crise mundial iniciada em 2008 é algo passageiro, um contr
Relações Internacionais: teorias para quê?

Relações Internacionais: teorias para quê?

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé* Teorias para quê? À primeira vista, a pergunta parece simplória, desnecessária, gerando, aparentemente, respostas óbvias e certeiras. Entretanto, esta indagação tem acompanhado as pesquisas em diversas áreas das Ciências Humanas e, mais especificamente, os estudos dos fenômenos internacionais. Conforme afirma Bedin (2000, p.62), uma teoria das relações internacionais é “uma visão, uma interpretação, uma perspectiva dos fenômenos internacionais ou mundiais, amparada em algum método, cuja pretensão é explicar e dar sentido para os fatos que estão se desenrolando no cenário internacional.” De um modo geral, podemos demonstrar a importância da teoria a partir de três pontos, a saber: o necessário ordenamento racional da realidade, a análise do objeto para além d
Os limites da contribuição hobbesiana à análise das relações internacionais*

Os limites da contribuição hobbesiana à análise das relações internacionais*

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé** Adotar a teoria do estado de natureza quer dizer introduzir uma distinção fundamental entre a política interna e externa, mas também significa privilegiar o papel do Estado como ator das relações internacionais. É sobre esses dois pontos que se pode travar a discussão.[1] A influência de Hobbes na teoria realista das relações internacionais é pautada, principalmente, pela separação que o autor faz entre o estado de natureza e o estado político que, na teoria realista, se manifesta pela desvinculação entre as esferas doméstica e internacional. De acordo com a teoria clássica, no âmbito doméstico, o Estado-Nação, legislador e portador do monopólio da força, se coloca soberano, acima dos indíviduos, regrando a vida social e coagindo os indivíduos a agirem de
Hegemonia e Pós-Hegemonia na Integração Regional Latino-Americana Parte 2 – O modelo pós-hegemônico

Hegemonia e Pós-Hegemonia na Integração Regional Latino-Americana Parte 2 – O modelo pós-hegemônico

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé* Dando continuidade ao texto anterior, apresento aqui uma breve discussão sobre a superação do modelo único de integração regional (hegemônico/liberal), analisando os movimentos integracionistas mais recentes da região. A subida ao poder de lideranças de centro-esquerda em diversos países da região no início do século XXI ampliou o questionamento às premissas neoliberais que caracterizaram as políticas nacionais e regionais desses países nos anos anteriores e recolocou a questão sobre os processos de integração – o que possibilitou a constituição de experiências integracionistas diferentes do padrão hegemônico que vigorara na região até então. Os avanços institucionais do Mercosul procurando superar o perfil comercial/econômico que marcou sua origem, as discu
A Integração Regional Latino-Americana: o Modelo Hegemônico

A Integração Regional Latino-Americana: o Modelo Hegemônico

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé* O objetivo deste texto é apresentar uma breve análise acerca dos processos de integração regional na América Latina a partir das noções de hegemonia e pós-hegemonia. Por razões de espaço, neste primeiro momento, discute-se a implementação do modelo hegemônico de integração que caracteriza a região a partir das duas últimas décadas do século XX, reservando-se a discussão sobre o modelo pós-hegemônico para uma próxima postagem. Os acontecimentos das décadas de 1980 e 1990 imprimiram importantes mudanças aos países latino-americanos. Depois de cerca de sessenta anos de políticas desenvolvimentistas, a região rompeu o percurso e optou pela adesão ao neoliberalismo, representado pelo Consenso de Washington. A crença nas possibilidades da “mão invisível” do mercad