Publicação mensal sobre Relações Internacionais

Author: admin

Os Direitos das Mulheres Também Seriam Direitos Humanos?

Os Direitos das Mulheres Também Seriam Direitos Humanos?

Maria Alice Venâncio Albuquerque
Por Maria Alice Venâncio Albuquerque* Quando se fala em violações aos direitos humanos, logo se pensa em violência física e crimes como tortura, inanição, terrorismo e mutilação, cometidos durante períodos de conflitos e guerra. Outra associação, comumente realizada, é a de se confiar à comunidade internacional – mais especificamente às organizações internacionais – a responsabilidade de identificar, socorrer e proteger àqueles que sofrem tais violações. Porém, também há muitos crimes graves que até recentemente não eram considerados, propriamente, violações aos direitos humanos (e cujo status, nesse sentido, ainda é discutido): humilhações, abuso sexual, escravidão sexual feminina, mortes por dote, violência doméstica/matrimonial, supressão de direitos reprodutivos e de liberdade sexual
Mobilizações Separatistas e o Nacionalismo na Catalunha

Mobilizações Separatistas e o Nacionalismo na Catalunha

Matheus Leite do Nascimento
Por Matheus Leite do Nascimento* Em textos anteriores do Vox Magister, foram discutidos o movimento separatista escocês – assim como o revigoramento do processo de integração europeu, que tem funcionado como força motriz para o mesmo – além de questões legais por trás de um processo de secessão dentro da União Europeia. No presente artigo, será abordado o caso de separatismo da Catalunha, explanando fatores históricos, políticos e culturais presentes na mobilização por independência da região espanhola. Antes de ser anexada ao território espanhol, a Catalunha foi durante um longo período uma região independente da Península Ibérica, constituída por uma língua, leis e costumes próprios. Com a ascensão do Rei Filipe V ao trono espanhol, uma série de conflitos internos durante a Guerra de
Novas Guerras: o confronto urbano entre as gangues Barriga e Sujeirinha

Novas Guerras: o confronto urbano entre as gangues Barriga e Sujeirinha

Ian Rebouças Batista, Marcos Américo Vieira
Por Ian Rebouças Batista Marcos Américo Vieira** Em comparação aos tempos de Clausewitz, as guerras já não são mais travadas da mesma forma. Na contemporaneidade, novos atores e novas formas de embate são identificadas, em parte, graças à modificação da estrutura do Estado. O modelo de Estado-nação, importado da Europa para suas colônias, mostra-se o embrião dos conflitos modernos. Segundo Kalevi Holsti (1991), podemos entender as causas das guerras contemporâneas ao analisarmos o nascimento dos Estados e a forma como estes passaram a ser governados. Consequentemente, grande parte dos conflitos contemporâneos é decorrente da inabilidade do Estado em manter a ordem interna e, para além disso, o monopólio da violência (KALDOR, 2013). Dessa forma, os campos de estudo da Segurança Interna
A Década da Mulher na prática*

A Década da Mulher na prática*

Natália Diniz Schwether
Por Natália Diniz Schwether** Fonte: https://www.engender.org.uk/content/projects-cedaw/ É inquestionável que as mulheres estão ativas e organizadas na cena internacional há muitos anos. Foram grandes os esforços para que as demandas transcendessem as fronteiras nacionais e se conjugassem em uma voz comum. Entre os movimentos de maior destaque está o movimento sufragista que, ao pretender ampliar os direitos políticos através do voto feminino, contou com uma rede global de disseminação de ideias, fomentada por reuniões, viagens, veículos de informação impressa e mídias alternativas. Algumas décadas mais tarde, entre 1970 e 1980, o campo da saúde propiciou uma nova ação integrada das mulheres. Eram aquelas que buscavam nos anticoncepcionais uma maneira de garantir o planejamento famili
A Masculinidade como Variável Explicativa da Guerra nas Relações Internacionais

A Masculinidade como Variável Explicativa da Guerra nas Relações Internacionais

Wemblley Lucena de Araújo
Por Wemblley Lucena de Araújo* Fonte: http://www.pubquiz.pl/_upload/min_pytania53125199079e08.27583189.jpg Tanto a masculinidade quanto a guerra são tratadas como categorias analíticas em algumas vertentes teóricas das Relações Internacionais. Ao relacionar as duas dimensões, é possível questionar como a masculinidade pode ser considerada uma variável explicativa para o entendimento da guerra. De fato, identificar a relação entre masculinidade e guerra favorece a ressignificação de diversos conceitos e pressupostos teóricos centrais às Relações Internacionais. De modo geral, as abordagens de gênero nas Relações Internacionais habitam um subcampo das teorias consideradas pós-positivistas; assim, costumam estar distantes dos estudos tradicionais de guerra, que não têm utilizado o gênero c
O estupro como arma de guerra

O estupro como arma de guerra

Elder Paes Barreto Bringel
Por Elder Paes Barreto Bringel* Fonte: http://gbvkr.org/gender-based-violence-under-khmer-rouge/facts-and-figures/rape-during-the-khmer-rouge/   Um relatório da ONU, publicado em março de 2014, listou 21 países na Europa, Ásia, África, América do Sul e Oriente Médio onde o estupro é usado como arma de guerra. O relatório identificou 34 organizações armadas — entre milícias, grupos rebeldes e forças de segurança governamentais — suspeitas de estupros e outras formas de violência sexual em situações de conflito, em países como a República Centro-Africana, Costa do Marfim, República Democrática do Congo, Mali, Sudão do Sul e Síria. Um mês depois da publicação desse relatório da ONU, no vilarejo de Chibok, nordeste da Nigéria, 276 mulheres foram sequestradas pelo grupo extremista Boko
“The Sound of the Trumpet” – Razões e significados da vitória de Donald Trump

“The Sound of the Trumpet” – Razões e significados da vitória de Donald Trump

Antonio Henrique Lucena Silva
Por Antonio Henrique Lucena Silva* Desde quando começaram as disputas pelas primárias nos Estados Unidos, muitos analistas viam com certo desdém a candidatura do bilionário americano Donald Trump. Na medida em que a corrida para a nomeação foi avançando, os rivais do empresário não conseguiam romper com a onda que se formou em torno da sua candidatura. Políticos experientes do Partido Republicano, como Ted Cruz, não conseguiram se estabelecer. A retórica agressiva de Trump ficou evidente e, ao contrário do que muitos acreditavam, o ataque aos adversários não fragilizaram a sua campanha. Mesmo com um discurso muitas vezes misógino e racista, Donald Trump foi conquistando adeptos. Do lado Democrata, Hillary Clinton se surpreendeu com um candidato que corria por fora, bastante crítico das
A violência sexual como arma de guerra

A violência sexual como arma de guerra

Mariana Vieira de Mello Costa
Por Mariana Vieira de Mello Costa* A violência contra a mulher, forma de violação aos direitos humanos decorrente da desigualdade nas relações de gênero, é classificada por Portella (2005) concomitantemente como produto e como elemento estrutural na subordinação das mulheres. Podem ser consideradas “violência contra a mulher” as diversas modalidades de violações aos direitos humanos, tais como a violência de gênero, a violência sexual, a violência física, a violência doméstica, entre outras. A violência sexual, por sua vez, é classificada pela Organização Mundial de Saúde (2002) como qualquer ato sexual ou tentativa de obtenção de ato sexual por violência ou coerção, comentários ou investidas sexuais indesejados, atividades como o tráfico humano ou diretamente contra a sexualidade de u
O Presidente Trump

O Presidente Trump

Thales Castro
Por Thales Castro* A poucos dias das eleições americanas, é necessário que separemos bem as análises frias e objetivas da ciência política dos desejos subjetivos pessoais para esse pleito eleitoral (wishful thinking). Agora não poderia ser diferente. É momento de reflexão pontiaguda diante do cenário acirrado e complexo que se desenha nos EUA. O título deste ensaio já é bastante provocador e revela a preocupante tendência que se consolida diante do eleitor médio daquele país. De acordo com fatos recentes, observamos que há sim a possibilidade (bastante plausível) de os EUA terem Trump como presidente, com sua ultrapassagem de Hillary materializada na arrancada na reta final desta agressiva campanha. Vejamos cinco razões explicativas para tais evidências: 1. Em termos históricos e antr
Res. 1325 do Conselho de Segurança da ONU: relevância e controvérsias na concretização da igualdade de gênero

Res. 1325 do Conselho de Segurança da ONU: relevância e controvérsias na concretização da igualdade de gênero

Maria Ivanúcia Mariz Erminio
Por Maria Ivanúcia Mariz Erminio* Foto de Christopher Herwig As primeiras operações de paz da ONU durante a Guerra Fria eram compostas predominantemente por homens. Porém, a não diminuição da violência fez com que a organização passasse a buscar maneiras de realizar missões que levassem em conta a complexidade da situação enfocada. Assim, buscou-se transformar o perfil do soldado de paz para que este valorizasse a conciliação e o pacifismo, enquanto as mulheres (que já participavam, com pouquíssima expressividade, desde a década de 1950) eram alocadas em funções ligadas às unidades de saúde. Esforços de defensores dos direitos da mulher, tanto das Nações Unidas quanto de ONGs, foram promovendo a modificação das missões de paz na década de 1990. Como consequência, foram revistas as restr