Publicação mensal sobre Relações Internacionais

O acordo Kim-Trump de desnuclearização da península coreana: as possibilidades de um tit-for-tat

Por Antonio Henrique Lucena Silva*

Desde a Guerra da Coreia na década de 1950 as relações entre Estados Unidos e Coreia do Norte foram tensas. Ao longo do tempo, Pyongyang buscou desenvolver armas nucleares como forma de atender às suas necessidades de segurança. Algumas tentativas de governos americanos anteriores de trazer o regime comunista para arcabouço do Tratado de Não-Proliferação Nuclear fracassaram. Razões de cunho interno ou externo que ajudam a compreender os insucessos de coibir a aquisição de tecnologia nuclear por parte dos norte coreanos, mas o principal fator é a política de deterrence do país.

Kim Jong-un afirmou que a política nuclear é um dos pilares das estratégias do regime, declarando que: “nossa força nuclear é uma dissuasão bélica confiável, e uma garantia de proteger nossa soberania” e que “está na base de um forte poderio nuclear que a paz e a prosperidade possam existir, e também a felicidade da vida das pessoas”. Entende-se a opção da Coreia do Norte pela dissuasão nuclear: diferentemente de 1950, o país não possui superioridade militar com relação ao Sul. A única superioridade da Coreia do Norte é no número de soldados, o que não significa muita coisa nos dias atuais porque a maior parte dos ganhos em uma guerra são obtidos através da tecnologia, principalmente através de bombardeios mais eficientes, no qual há a minimização dos gastos e a maximização das baixas inimigas.

As ameaças da Coreia do Norte se baseiam na clássica concepção de dissuasão nuclear. Autores da dissuasão, como Bernard Brodie (The Absolute Weapon: Atomic Power and World Order, 1946), analisam a arma nuclear através da ótica da política internacional em que esses artefatos podem servir de instrumento para prevenir um oponente a ter uma ação indesejada. Nesse sentido, a bombas atômicas seriam um forte inibidor de uma possível agressão. A utilização da dissuasão é baseada na ameaça de retaliação. A efetividade da dissuasão ocorre quando o adversário se convence que você tem a vontade e a capacidade (poder) de infligir danos consideráveis ao outro. De acordo com Robert Art (To What Ends Military Power? International Security, 1980), as armas nucleares podem garantir a segurança de um Estado porque são relativamente mais baratas do que um exército convencional. Efetivamente, como foi colocado acima, a dissuasão ocorrerá se o Estado ameaçador possuir capacidade de grande destruição do adversário, o que não seria o caso da Coreia do Norte[1].

No último dia 12 de junho de 2018, o líder da Coreia do Norte, Kim Jon-Un e o presidente americano Donald Trump assinaram um acordo para a desnuclearização da península coreana. Tal movimento causou um misto de surpresa e questionamentos sobre as possibilidades do acordo e a “flexibilidade” de Kim em buscar celebrá-lo. Essa surpresa se deve ao fato de que a política nuclear coreana é centrada na dissuasão e há um entendimento de que possuir armas nucleares é o único meio de se evitar uma possível invasão estrangeira, principalmente dos Estados Unidos.

Credita-se ao Presidente Moon, da Coreia do Sul, a iniciativa de aproximação entre os países, que gerou uma abertura para que o encontro com Kim-Trump se tornasse possível. O texto do acordo entre o norte coreano e o estadunidense é bastante vago. Devido ao histórico de malogros dos EUA e da Coreia do Norte nos acordos anteriores, boa parte da população da Coreia do Sul é cética em relação a uma desnuclearização da península. Convém lembrar que a maioria dos descumprimentos dos acordos anteriores foi realizada por seu pai, Kim Jong-il. Pela primeira vez Jong-Un está à frente de uma tratativa dessa natureza.

Tanto o Presidente quando o 3º líder supremo estão “jogando para a mídia”. Apesar das críticas de que Trump estaria dando legitimidade para Kim, e de já ter se retirado do acordo nuclear com o Irã, há uma possibilidade de um tit-for-tat cooperativo entre as duas nações. A ideia básica do tit-for-tat de Axelrod é que um agente usando essa estratégia primeiro cooperará e, em seguida, replicará a ação anterior de um oponente. Se o oponente anteriormente foi cooperativo, o agente é cooperativo. Se não, o agente não é.

É importante ressaltar que em acordos dessa natureza, o texto do tratado em si possui pouca relevância. Os atores políticos que detêm baixo nível de confiança um no outro apenas se mantêm nessa instituição caso o comportamento seja cooperativo nas rodadas seguintes. Portanto, os próximos passos dos movimentos tanto da Coreia do Norte quando dos Estados Unidos é que verdadeiramente dirão se a desnuclearização da península irá se concretizar.


*Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense. Professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Pesquisador Associado do GEESI – UFPB e do Instituto de Estudos da Ásia (IEASIA) da UFPE (antoniohenriquels@gmail.com).

[1] Para uma análise prévia sobre a questão, ver: http://www.dadospoliticos.com/2013/


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