Publicação mensal sobre Relações Internacionais

Guerras, amor, política e superação: o mundo no Oscar 2018

Por Antonio Henrique Lucena Silva*

Cena de Zhenya em “Sem Amor”, da Rússia (reprodução).

Na premiação do Oscar de 2018 que ocorrerá no próximo dia 4 de março, vários filmes disputam a estatueta do maior prêmio do cinema mundial. As relações internacionais e questões políticas permeiam os temas que são tratados nos filmes das mais diversas formas. Muitas vezes eles tratam das relações humanas como alegorias do mundo real e dos conflitos que nos cercam. Inclusive dos seus países de origem. Abordaremos as películas dos indicados desse ano, passando desde a categoria de melhor filme para melhor filme estrangeiro.

Os indicados para melhor filme são quase todos, sem exceção, obras-primas. Estrelado por Daniel Kaluuya e Allison Williams, “Corra!” trata de forma interessante o racismo nos Estados Unidos e questões associadas a isso. O filme de Luca Guadagnino, “Me Chame Pelo Seu Nome”, foca no romance de Oliver (Armir Hammer) com Elio (Timothée Chalamet), durante as férias da família Pearlman, na Riviera italiana. Em “Lady Bird: A Hora de Voar”, o drama/comédia aborda o ritual de passagem da aluna Christine McPherson, interpretada por Saoirse Ronan, cuja personalidade é muito forte, que está no último ano de um colégio católico e deseja sair da sua cidade natal. O próprio apelido da personagem, Lady Bird, é uma referência à aspiração de querer alçar voos mais altos, apesar da resistência da sua mãe, Marion, que está preocupada com os custos das despesas universitárias da filha e enfatiza, muitas vezes, as dificuldades financeiras da família. Outro concorrente, “Trama Fantasma“, é um filme muito bem escrito (mas que talvez o público ache enfadonho), que se passa nos anos 1950 e conta a história de Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), renomado estilista, que trabalha com sua irmã Cyril (Lesley Manville) para vestir os principais membros da elite e da sociedade britânica. Tudo muda quando ele conhece Alma (Vicky Krieps), uma garçonete que se transforma em sua musa inspiradora e passa a ter grande influência na sua vida.

Com 115 min de duração, “Três Anúncios Para um Crime”, apesar de não ser um filme que se propõe a tratar sobre política, é, na verdade, uma alegoria do mundo contemporâneo. O longa protagonizado pela fortíssima candidata ao Oscar Frances McDormand, no papel de Mildred Hayes, é quase um apelo à saída da inércia e do imobilismo que as sociedades atualmente vivem. Descontente com a ineficiência da polícia de Ebbing para encontrar o assassino da sua filha, Hayes decide alugar três outdoors em uma estrada pouco movimentada para chamar a atenção do caso e exigir uma ação do xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson). A iniciativa repercute na cidade e ganha proporções grandes para a pequena cidade do Missouri.

Os monstros de Guilhermo Del Toro estão de volta em “A Forma da Água”. O diretor mexicano é conhecido por usar animais fantásticos para passar mensagens em seus filmes. Outra obra cinematográfica bastante conhecida dele é “O Labirinto do Fauno”. Passado em 1944, na época da Espanha de Franco, a pequena Ofélia (Ivana Baquero) e sua mãe doente e grávida chegam para o novo posto do sádico Capitão Vidal (Sergi López), atual marido de Carmen (Ariadna Gil), em que o oficial espanhol busca reprimir a guerrilha. O diálogo final da película é emblemático: quando Ofélia se nega a cumprir a sua última tarefa, que é derramar o sangue do seu meio-irmão recém-nascido, o Fauno se irrita com ela pela proteção dada. Após a sua morte pelo Capitão Vidal, Ofélia entra no seu reino mágico e o seu pai, orgulhoso, a parabeniza: “Você derramou o seu próprio sangue ao de um inocente”. E continua: “Essa era a última prova, e a mais importante”. Nesse momento, o Fauno reaparece e conclui: “E você escolheu bem, majestade”.  Após o pedido de sua mãe para ela sentasse ao lado do seu pai, Ofélia é aplaudida pelo seu reino. O verdadeiro império passa a ser da justiça e da igualdade, sendo a “monarca” amada pelo seu povo por séculos. O nexo do “Labirinto do Fauno” com “A Forma da Água” é a característica de Del Toro da sua aversão ao autoritarismo. O “novo” capitão Vidal é o militar americano Strickland (Michael Shannon) que gere com mão de ferro a instalação de pesquisa secreta na era da Guerra Fria. Elisa (Sally Hawkins) é uma zeladora muda, que possui apenas como amigos uma mulher negra, a Zelda (Octavia Spencer) e um gay que ainda não saiu do armário, o Giles (Richard Jenkins). O amor entre os “diferentes”, que é o mote da película de Del Toro, permeia o longa e se materializa quando Elisa se apaixona pela criatura aquática que vive presa e maltratada no laboratório. Com ajuda dos amigos ela elabora um plano para retirar o homem anfíbio do seu cárcere.

As obras “The Post – A Guerra Secreta”, “O Destino de Uma Nação” e “Dunkirk” abordam temas históricos das relações internacionais. O primeiro filme estrelado pelos consagrados Tom Hanks e Meryl Streep foca na publicação dos chamados Pentagon Papers. Os atores vivenciam o dilema dos editores Katherine Graham e Ben Bradlee, do The Washington Post, da difusão dos documentos secretos que colocavam em xeque a Guerra do Vietnã e a política de quatro presidentes americanos ao longo de três décadas de governo. No entanto, verdade seja dita: quem “bancou” os custos políticos e as retaliações do governo Nixon sobre a questão foi o jornal The New York Times, o primeiro a fazer a disseminação das informações. O processo judicial que uniu os grandes jornais dos Estados Unidos evidencia o debate entre liberdade de expressão versus questões de segurança nacional. Antes de assistir The Post, recomendamos ver primeiro o documentário “Sob a Névoa da Guerra”, a respeito da vida de Robert McNamara. Ele ajuda o espectador a entender a dinâmica da Guerra Fria e da Guerra do Vietnã na política externa americana.

Os outros dois filmes focam no contexto da Segunda Guerra Mundial durante os anos iniciais da expansão da Alemanha Nazista pela Europa. Forte candidato a vencer o Oscar de melhor ator, Gary Oldman interpreta o premiê inglês Winston Churchill em O Destino de Uma Nação. A excelente interpretação de Oldman notabiliza um momento muito delicado da história da Grã-Bretanha. Recomendado para todos os estudantes de Relações Internacionais, o filme evidencia a disputa de poder dentro da Inglaterra entre Churchill e Halifax sobre a pressão para se fazer um acordo com Hitler. Após a rendição dos franceses, o Exército Britânico fica sobre pressão e encurralado na cidade de Dunquerque na França. Os alemães, sendo liderados pelos comandantes Gerd von Rundstedt e Ewald von Kleist, realizam ataques constantes contra os exércitos aliados, deixando as nações em uma posição política difícil. A película mostra a liderança de Churchill e o início da realização da Operação Dínamo. Esta operação será abordada no excelente filme de guerra dirigido por Christopher Nolan: Dunkirk. A essência da obra está na evacuação das forças britânicas e todo o sentimento de possível derrota que se avizinha. Ajudado pela trilha sonora, Dunkirk coloca o espectador em um constante momento de tensão. Os ataques das aeronaves Stuka alemãs e seu som de sirene ao fazer o mergulho na hora de lançar as bombas transmitem a sensação de angústia vivenciado pelos soldados. O diretor tem o mérito de transformar uma derrota militar em um empreendimento de grande superação.

Ainda sobre o tema da Segunda Guerra Mundial, mas com foco nas questões raciais, temos “Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi“. Na realidade, o longa se passa após o conflito e aborda muitos temas, como a relação de etnias, gêneros e classes sociais entre as famílias McAllan e os Jackson. Ainda abordando sobre temas étnicos, a obra estrelada por Denzel Washington no papel de “Roman J. Israel, Esq.”, cujo título é mesmo nome do personagem mais um título auto imposto. Roman Israel é um advogado e ativista do movimento dos direitos civis, com valores morais e éticos bem rígidos. No entanto, ele sofre ao ver o sucesso dos outros e que o mesmo não acontece com ele. Quando ele resolve quebrar o “próprio” código de conduta, na tentativa de resolver problemas pessoais, entra em choque com um membro da gangue de quem ele deveria advogar e isso acarreta uma série de acontecimentos que geram efeitos que o membro ativo da comunidade negra tenta resolver.

Um conjunto de filmes que devem ser vistos: os concorrentes a Oscar de melhor filme estrangeiro. Com exceção do filme “O Insulto”, do Líbano, que trata da desavença entre um cristão e um palestino, os outros não possuem focos religiosos na trama. “The Square – A Arte da Discórdia”, filme sueco e um dos fortes concorrentes a levar a estatueta, busca desconstruir a sociedade sueca como “perfeita”. Através de uma propaganda considerada “politicamente incorreta”, a explosão de uma criança, Christian (Claes Bang) busca promover o seu museu e termina gerando uma quantidade de eventos imprevistos quando também opta por quebrar algumas regras depois de ter seu celular furtado. O destaque especial fica para a atuação de Terry Notary, no papel de Oleg. O ator consegue deixar quem assiste o filme angustiado na cena em que ele encena um macaco para o jantar do museu. Os outros filmes “Sem Amor”, da Rússia; “Corpo e Alma“, da Hungria; e “Uma Mulher Fantástica”, do Chile, possuem como principal temática o amor. Ou a falta dele, no caso do filme russo. Do mesmo diretor da obra Leviatã, Andrey Zvyagintsev, Sem Amor trata do divórcio entre Zhenya (Maryana Spivak) e Boris (Alexey Rozin). A situação fica mais difícil quando o filho dos dois desaparece e eles são obrigados a cooperar para tentar achar a criança. A falta de amor entre os personagens tem raiz na relação de Zhenya com a sua mãe, chamada por Boris de “uma Stálin de saias”. O interessante a ser notado é que Zvyagintsev busca criar uma alegoria da Rússia contemporânea com essa história, algo que já tinha sido feito no seu filme anterior. A película tem muitas cenas no frio, pessoas mexendo constantemente no smartphone, selfies e notícias sobre a Crimeia, sendo os indivíduos indiferentes ao que se passa na TV. Numa perspectiva diferente, Uma Mulher Fantástica aborda o drama de Marina (Daniela Vega), uma mulher transexual, com o seu amante, Orlando (Francisco Morandé) quando esse sofre um infarto. A relação com a antiga família de Orlando é explorada na trama. A sua ausência, após o seu falecimento, e o luto permeiam a vida de Marina. A difícil tentativa de aceitação da partida da pessoa amada, que deu o valor merecido, apesar de todos os preconceitos vivenciados por sua condição de gênero, tornam a batalha mais árdua. É justamente essa guerra interna que a transforma em uma mulher fantástica.

Por último, Corpo e Alma, da Hungria, é uma história sobre Endre (Géza Morcsányi) e Mária (Alexandra Bóbely), dois colegas de trabalho em um matadouro que se apaixonam. A camisa opaca de Endre é um reflexo da vida burocrática e sem brilho como diretor de finanças da empresa. Tudo muda quando ele conhece a metódica Mária, que possui uma memória incrível. A atração entre os dois aumenta quando eles descobrem que nas noites de sono sonham a mesma coisa. Corpo e Alma é sobre nossa humanidade, muitas vezes dicotômica, de como precisamos do corpo para a alma e uma alma para nosso corpo. Na categoria de melhor documentário, o principal favorito é o filme sírio “Os Últimos Homens de Aleppo“, que retrata a difícil rotina dos membros da Defesa Civil da Síria, conhecidos como Capacetes Brancos.

Não podemos deixar de fazer uma menção especial a dois filmes que estão concorrendo para melhor animação: “O Touro Ferdinando” e “Viva – A Vida é Uma Festa”. Os dois tratam elementos culturais da Espanha e do México; obra para crianças que emocionam adultos. Bom Oscar!


*Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense. Professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Pesquisador Associado do GEESI – UFPB e do Instituto de Estudos da Ásia (IEASIA) da UFPE (antoniohenriquels@gmail.com).


As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autora e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todas as suas colaboradoras.

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