Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Coreia do Norte e a administração Trump – cenários de crise

Por Carlos Eduardo Valle Rosa*

Em 26 de setembro de 2017, a Universidade Potiguar, em Natal-RN, promoveu a II Semana de Relações Internacionais e Comércio Exterior, na qual esta comunicação foi apresentada na Mesa-Redonda “O que esperar do Governo de Donald Trump?”. O artigo é uma síntese da apresentação e aborda os principais cenários futuros da crise na Península Coreana.

Um importante analista de cenários, Michel Godet, professor por 32 anos no Conservatório Nacional de Artes e Negócios, na França, onde atuou na disciplina de Prospecção Estratégica, afirmou que “Todos os que pretendem predizer ou prever o futuro são impostores, pois o futuro não está escrito em parte alguma, ele está por fazer.” (GODET; ROUBELAT, 1996, p. 164).

A intenção não é realizar um exercício de futurologia, entendida de forma irônica como uma mera especulação acerca do futuro de nossa sociedade, especificamente no que tange à grave situação na península coreana, onde tensões entre o ditador Kim Jong Eun e a administração de Donald Trump assumem características de agressividade verbal e, também, demonstrações de força que seguem na direção de dissuasão, inclusive nuclear. Os acontecimentos são graves, pois fazem ressurgir a possibilidade de um confronto com armas de destruição em massa, que, certamente, levariam a desdobramentos catastróficos para a humanidade. Assim é que um estudo mais detalhado sobre os possíveis cenários de desdobramento dessa crise foi merecedor de um espaço específico no citado evento.

Metodologia

Com a finalidade de dar a esta apreciação um fundamento teórico e científico, o autor buscou seguir uma metodologia que será apresentada sinteticamente a seguir. A análise de conteúdo, conforme aponta Vergara (2005, p. 131), permitiu o “tratamento de dados [visando] identificar o que [estava] sendo dito sobre determinado tema”. Em termos de etapas, a pesquisa foi conduzida da seguinte forma: a) leitura analítica, a fim de “ordenar e sumariar as informações contidas nas fontes”, identificando ideias-chave (GIL, 2002, p. 78); b) leitura interpretativa, relacionando as ideias-chave; c) análise dos dados em três níveis: interpretação (relacionamento das variáveis); explicação, por meio da elaboração dos esquemas explanatórios; e especificação (validade do relacionamento das variáveis) (LAKATOS; MARCONI, 1990, p. 165).

Como se tratam de técnicas e procedimentos interpretativos, tem-se consciência das dificuldades devidas às tendências pessoais e às perspectivas baseadas em experiências passadas, interesses e valores.

A definição de cenário para Godet (apud MARCIAL; GRUMBACH, 2008, p. 47) é a de um “conjunto formado pela descrição coerente de uma situação futura e pelo encaminhamento dos acontecimentos que permitem passar da situação de origem à situação futura.” Também foram utilizados elementos de documentos das Forças Armadas brasileiras para aperfeiçoar essa definição, como o Glossário das Forças Armadas. Nele, cenário prospectivo é um “conjunto formado pela descrição coerente de uma situação futura e pelo encaminhamento dos acontecimentos que permitam passar da situação de origem à situação futura.” (BRASIL, 2015, p. 57). Nesse mesmo glossário, a definição de “hipótese de emprego”, algo que os militares interpretam como cenário, reforça a ideia de indeterminação e imprevisibilidade de um cenário (BRASIL, 2015), algo que é extremamente valioso na análise que ora realizamos.

Nos cenários que foram elaborados para a crise norte-coreana, utilizou-se o formato definido por Grumbach e Marcial (2008, p. 50-52) quanto à composição de seus elementos: a) Título: identificação do cenário; b) Ideia-força: tendência geral do cenário; c) Horizonte temporal: perspectiva de concretização da tendência (curto – até 5 anos; médio – de 5 a 10 anos; e longo prazo – acima de 10 anos); d) Local: continente, região, país; e) Atores: pessoas, países, organizações, coalizões, grupos, movimentos; e f) Variáveis: forças, elementos ou condições que podem interferir na tendência geral.

A coleta de dados para a elaboração dos cenários deu-se em fontes abertas da mídia, tais como as agências de notícias CNN, BBC, Reuters, Yonhap, Arirang e o jornal eletrônico Washington Post. O autor, em função da experiência de ter vivido dois anos na Coréia do Sul, também se valeu de conhecimentos adquiridos nessa oportunidade, contatos pessoais, acesso a literatura sobre a história coreana e mídia social. Nessa fase da pesquisa foi utilizada a técnica da observação direta intensiva, na forma assistemática, conforme Lakatos (1990, p. 170).

Cenário 1 – Catastrófico

A ideia-força é a de que a Coreia do Norte faz uso de artefato nuclear contra um de seus opositores ideológicos. O horizonte temporal é de curto prazo. O local poderá ser: a) península coreana; b) Japão; e/ou c) território norte-americano. Os principais atores seriam: Kim Jong Eun (Ditador da CN); Donald Trump (Presidente dos EUA); Shinzō Abe (1º Ministro japonês); Xi Jinping (Presidente chinês); e a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). As variáveis intervenientes no cenário seriam: a) a CN possui artefatos nucleares e a capacidade técnica para utilizá-los; b) os governos conhecem as consequências de utilização de um artefato nuclear; c) contaminação radioativa; d) catástrofe humanitária; e) impacto econômico em bolsa de valores e crise econômica; f) guerra convencional; g) posturas da China e da Rússia; além de outras.

Cenário 2 – Coerção

A ideia-força desse cenário é a de que os EUA e aliados, com ou sem sanção de organismos internacionais, utilizam preventivamente o poder militar de forma a atingir determinados efeitos, por meio da neutralização da capacidade de resposta nuclear da CN. O horizonte temporal identificado é o de curto prazo. O local da ação é a Coreia do Norte. Os principais atores seriam: Donald Trump (Presidente dos EUA); Assessores próximos ao Presidente (General Jamis Mattis – Secretário de Defesa; General Herbert R. McMaster – Conselheiro de Segurança Nacional; Embaixador Rex Tillerson – Secretário de Estado; General Joseph F. Dunford, Jr. – Chefe da Junta de Chefes de Estado-Maior); OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte); China e Rússia. Nesse aspecto, é importante destacar a presença de vários militares como assessores diretos do presidente dos EUA. As variáveis intervenientes no cenário seriam: a) valorização do princípio da surpresa; b) exploração do diferencial tecnológico quanto às capacidades de C2, “stealth”, “stand-off”, precisão e letalidade, assim como quanto ao conceito de “joint operations”; c) instrumento mais provável seria o Poder Aéreo (drones ou aeronaves tripuladas) e os mísseis TLAM (Tomahawk Land Attack Missile); d) a coerção militar, um dos pressupostos teóricos de Robert Pape, seria direcionada contra a capacidade militar.

Cenário 3 – Revolucionário

A ideia-força do cenário é o surgimento de um movimento interno de grupo de oposição a Kim Jong Eun, com o suporte das potências ocidentais (e possivelmente da China), que tomaria o poder por meio de um golpe de estado, eliminando a figura do ditador e impondo um regime menos fechado na CN. O horizonte temporal é de curto a médio prazo. O local é a Coreia do Norte. Os principais atores seriam: grupo rebelde na CN; movimentos de unificação na Coreia do Sul; CIA (Central Intelligence Agency); Kim Jong Eun (Ditador da CN). As variáveis intervenientes no cenário seriam: a) existência de uma resistência interna ao regime de Kim Jong Eun; b) penetração de ações de espionagem e sabotagem patrocinadas por potências ocidentais; c) capacidade de inteligência do regime da CN; d) exposição à mídia; e) fator CIA.

Cenário 4 – Continuidade

A ideia-força do cenário é a de que a situação conflituosa estabiliza-se como um impasse, que prospera contenciosamente em níveis episódicos de tensão (troca de ameaças), sem, contudo, determinar a eclosão de um conflito de fato. O horizonte temporal identificado é de curto a longo prazo. O local é a Região da península coreana, Japão, EUA, China. Os principais atores seriam: Conselho de Segurança da ONU; Kim Jong Eun (Ditador da CN); Donald Trump (Presidente dos EUA); Shinzō Abe (1º Ministro japonês); Xi Jinping (Presidente chinês); Vladimir Putin (Presidente da Rússia). As variáveis intervenientes no cenário seriam: a) as capacidades militares da CN atingem um grau de desenvolvimento que torna proibitiva qualquer ação militar contra esse país; b) prosperam negociações, embargos, ou tratados entre os principais atores; c) a manutenção no poder do ditador norte coreano depende da situação de contencioso; d) a China atua como fator estabilizador da situação, favorável a não eclosão de conflito na região; e) a Rússia pressiona os EUA contra a possibilidade de ação militar; f) a Coreia do Sul tenta evitar conflito militar que traria consequências catastróficas para a sociedade e a economia do pais; g) mantém-se o cenário de pequenas escaramuças militares, trocas de acusações e de demonstração de força.

Conclusão

O futuro é incerto, porém o exercício de elaboração de cenários é útil para que se possa melhor lidar com as incertezas. Neste artigo, buscou-se aplicar uma metodologia de elaboração de cenários para a situação de crise entre a Coreia do Norte e, principalmente, os Estados Unidos da América. A partir da observação de notícias em periódicos eletrônicos, formou-se um conjunto de ideias que derivaram em quatro cenários para o desdobramento dessa crise. Existe uma grande probabilidade de que cada cenário não aconteça da forma como foi construído, quanto às suas ideias-força, local, horizonte temporal, atores e variáveis. É possível também que elementos dos diferentes cenários se mesclam e um novo cenário seja formulado. A imprevisibilidade e a incerteza são fatores presentes na análise estratégica.

O cenário catastrófico trará consequências sérias não somente para a região e as sociedades locais, mas também para a estabilidade mundial. O cenário de coerção, o de maior probabilidade de ocorrência, sustenta-se na experiência histórica e militar recente dos EUA, assim como em teorias de guerra atuais. O cenário de continuidade, também de elevada probabilidade, tende a ser o de menor impacto econômico e social. Por fim, o cenário revolucionário, apesar de receber pouca relevância na mídia e no discurso oficial, apresenta indícios probabilísticos de ocorrência.


* Bacharel em Ciências Aeronáuticas, Bacharel em História, Especialista em Didática e Pedagogia Empresarial, MBA em Gestão de Defesa, Mestre em Ciências com ênfase em Defesa e Poder Aeroespacial, pela Universidade da Força Aérea, Coronel Aviador da Reserva, autor do livro “Poder Aéreo: guia de estudos”. E-mail: eduvalle80@hotmail.com.


As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autora e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todas as suas colaboradoras.

 

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