Publicação mensal sobre Relações Internacionais

Página inicial do VOX MAGISTER

Países em desenvolvimento como origem dos fluxos de investimento estrangeiro direto

Por Rafael Lima Santos*

François Chesnais (1996) adverte que o fenômeno dos investimentos externos não deve ser interpretado como recente: teóricos do imperialismo, ao analisarem a economia mundial como conjunto de relações moldadas pelo capital, já no início do século XX, consideravam a exportação de capitais em suas análises. Segundo o autor, a partir da Segunda Guerra Mundial, com o aumento quantitativo dos investimentos – como é possível observar no gráfico abaixo –ocorre uma tomada de consciência sobre a necessidade de se estudar o fenômeno e suas consequências. Baseando-se nesta afirmação, adota-se os anos 1950 como ponto de partida para um panorama histórico do Investimento Estrangeiro Direto (IED) em escala mundial, destacando o papel dos países em desenvolvimento como origem dos fluxos mundiais de investimentos.

Robert Gilpin (2002) aponta que os Estados Unidos foram a principal origem dos investimentos externos mundiais entre a década de 1950 até meados da década de 1970, suas empresas multinacionais atuando principalmente nos setores automobilístico, químico e eletrônico em economias avançadas. A partir da crise energética em 1973 o cenário favorável à exportação de capitais nos Estados Unidos passa a ser alterado: o declínio da indústria dos EUA; os crescentes déficits comerciais; a elevação do desemprego e as dificuldades com o balanço de pagamentos aumentaram a crença na exportação de empregos pelas multinacionais estadunidenses, com a necessidade de estimular os investimentos neste mercado pelas indústrias nacionais e estrangeiras.

Fonte: Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento – UNCTAD.

Paralela a reversão do quadro favorável a exportação de capitais nos Estados Unidos, a década de 1970 também significou a retomada do crescimento das economias europeias e japonesa, estes países desafiando os Estados Unidos como origem dos fluxos de IED. O crescimento das barreiras comerciais significou a necessidade de instalação de subsidiárias e/ou formação de joint ventures para penetração dos mercados internos. A instabilidade política nos países em desenvolvimento, somada aos estímulos acima citados, direcionaram os investimentos externos à economia estadunidense. Dessa forma, a década de 1980 é marcada pelo cruzamento de investimentos entre as economias avançadas: a tríade, na definição de Chesnais (1996), é tanto a origem como principal destino dos investimentos.

Ainda que o cenário seja dominado pelas empresas multinacionais de origem europeia, japonesas e estadunidenses, a partir da década de 1980 já é possível observar a elevação da importância de alguns dos NICs – Novos Países Industrializados – como origem dos investimentos externos, em especial os países asiáticos. Como é possível observar no Gráfico abaixo, países como Singapura, Malásia, Coréia do Sul e Índia aumentam significativamente seu estoque de Investimento Estrangeiro Direto no exterior ao longo da década.

Fonte: Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento – UNCTAD.

­Por fim, as décadas de 1990 e 2000 são marcadas pela acentuação desta tendência, destacando-se, aqui, o crescimento das empresas multinacionais de origem latino-americana. Segundo Cuervo-Cazurra (2010), a partir da década de 1990, o fluxo de saída de Investimento Estrangeiro Direto na América Latina alcançou números significativos, resultado da crise das dívidas na década de 1980, que conduziram às reformas pró-mercado na região: para o autor, o processo de substituição de importações e a intervenção governamental no período precedente limitaram o desenvolvimento das capacidades competitivas das empresas, ao protegê-las da competição externa e doméstica. A abertura das economias, desse modo,

“[…] forçou as empresas a se reestruturarem, redefinindo os níveis de negócio, reduzindo os níveis de dívida e melhorando as capacidades competitivas mediante a compra de tecnologia e aliança com empresas estrangeiras” (CUERVO-CAZURRA, 2010, p. 24, tradução livre).

Nesse contexto, Brasil e México destacam-se pelo dinamismo dos seus investimentos nas primeiras décadas do século XXI: em 2000, o stock de Investimento Estrangeiro Direto brasileiro no exterior somava US$ 51,94 bilhões, chegando a aproximadamente US$ 181,44 bilhões em 2015; o México, por sua vez, possuía um stock de US$ 8,27 bilhões em 2000, alcançando a cifra de US$ em 151,92 bilhões em 2015. No subcontinente, o Chile é classificado como segundo maior exportador de capitais sul-americano, com um stock de IED no exterior de aproximadamente US$ 11,15 bilhões em 2000 e US$ 87,41 bilhões em 2015, segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento – UNCTAD.

Desse modo, é possível questionar as previsões pessimistas de Chesnais (1996), ao afirmar a marginalização e crescente exclusão dos países menos desenvolvidos do cenário de investimentos externos. Como é possível observar no Gráfico a seguir, ao longo das últimas duas décadas, é crescente a participação dos países em desenvolvimento como origem dos fluxos de Investimento Estrangeiro Direto.

Fonte: Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento – UNCTAD.

Tais mudanças no cenário chamam a atenção para o tema da internacionalização de empresas em países em desenvolvimento: dado que são as firmas os atores diretamente relacionados à dimensão mercado, surgem estudos buscando investigar as motivações, vantagens competitivas específicas que permitiram a internacionalização e as principais estratégias de entrada em mercados externos adotadas por empresas oriundas destas economias (URRUTIA, 2014; BIANCHI, 2014). Entretanto, da mesma forma que ao colocar em pauta o Estado enquanto receptor do investimento externo discute-se a cooperação entre Estados e firmas a partir das políticas ativas de atração de IED adotadas pelo primeiro (STRANGE, 1992; STRANGE, 2002), a cooperação entre estes atores, a partir da análise dos fatores no país de origem que influenciam a internacionalização de suas empresas, também deve ser incorporada para melhor compreensão do fenômeno aqui discutido.


*Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Contato: rafael.lsantos03@gmail.com

Referências
CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996.
GILPIN, Robert. A Economia Política das Relações Internacionais. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.
STRANGE, Susan. States and Markets. Second Edition. London; New York: Continuum, 2002.


As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autora e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todas as suas colaboradoras.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *