Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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A evolução dos sistemas defesas antimísseis: um desafio a ser ultrapassado

Por Marco Tulio Delgobbo Freitas*
Renato Prado Kloss**

Com os recentes avanços do programa norte-coreano nuclear e a ameaça de seu líder Kim Jong-un, o mundo revive os dias de tensão da Crise de Mísseis de Cuba em 1962. A possibilidade de um ataque nuclear por meio de mísseis balísticos ainda é duvidosa, mas, no campo da ameaça – dissuasão – a guerra já começou. Mas, não há desespero, não devemos apertar os cintos, pois o piloto não sumiu. Hoje, estamos em uma etapa que mais parece um jogo complexo de xadrez, em que ambos lados, mostram suas armas. De um lado o míssil de Kim e de outro, um sistema de defesa que não é recente e tem uma longa trajetória.

Como Sistema Antimísseis Balísticos funciona?
Mísseis balísticos podem ser lançados a partir de uma variedade de plataformas, incluindo silos, caminhões, trens, submarinos e navios de guerra. Existem quatro classificações gerais baseadas na distância máxima que o míssil pode realizar:

  • Curto alcance (menos de 1.000 quilômetros);
  • Médio alcance (1.000-3.000 km);
  • Intermediário (3.000-5.500 quilômetros);
  • Intercontinental (mais de 5.500 quilômetros).

 

Normalmente os mísseis balísticos têm três estágios de vôo:

  • Fase de impulso, que começa no lançamento e dura até foguete;
  • Fase do meio-curso -o estágio mais longo – quando o projétil está em seu caminho parabólico;
  • Fase terminal, quando a ogiva destacada reentra a atmosfera, frequentemente viajando menos de um minuto para impactar.

 

Já os mísseis de cruzeiro, em contraste, são com motor à jato e são armas que voam baixo e em alguns casos, ao nível do chão para evitar o radar inimigo, antes de atingir seu alvo.

Derrotar um míssil balístico envolve quatro funções:

  • Detecção
  • Discriminação (separação do míssil de todo o vetor)
  • Controle de fogo (determinando exatamente onde interceptar)
  • E matando (batendo o míssil com algum tipo de interceptor).


Uma curta história sobre o Sistema Antimísseis
Em meados da década de 50, os Estados Unidos, através do Pentágono, lançaram um grande esforço para combater a ameaça dos mísseis balísticos intercontinentais soviéticos (ICBMs) impulsionados por basicamente dois motivos: primeiro, os russos tinham a sua própria bomba nuclear e segundo, em 1956 os mesmos já tinham introduzido um artefato nuclear no R-5M Podeda.  Mas foi no dentro do princípio do MAD (Mutually Assured Destruction) em 1972, que os dois países assinaram o Tratado Mútuo Antibalístico (ABM) permitindo no máximo dois, o número de defesa de mísseis que cada uma poderia ter.

O grande sobressalto seria dado alguns anos após, quando Ronald Reagan no ápice da “Segunda Guerra Fria” tem a iniciativa de provocar uma corrida tecnológica contra a antiga URSS e a sua “cartada” foi o IDE (Iniciativa de Defesa Estratégica) apelidado de Star Wars (Guerra nas Estrelas). No entanto, a tecnologia da época provara ser ainda incapaz de assumir tamanha responsabilidade contra os já R-36M2 Voevoda (SS-18 Mod 5) dos soviéticos.

Mesmo longe dos holofotes do final da Guerra Fria, os sistemas táticos ou defesa de mísseis de teatro, continuaram a se desenvolver. As baterias de mísseis Patriot dos EUA originalmente projetado para interceptar os mísseis balísticos soviéticos de alcance intermediários, no entanto, o seu “batismo de fogo” foi no Oriente Médio durante a Guerra do Golfo Pérsico.

Ineficazes na defesa dos contra-ataques Scuds – lançados por iraquianos em direção à Israel e Arábia Saudita em retaliação aos ataques da coalizão liderada pelos EUA, o conceito atraiu a atenção, principalmente na última parte da década de 90. Seus defensores, pressionaram para o estabelecimento de uma defesa nacional antimísseis, alegando ameaças oriundas da Coréia do Norte, Irã e Iraque.  Sendo assim, a administração George W. Bush planejou uma defesa integrada e em camadas capazes de derrotar mísseis inimigos em uma escala global. No início de seu primeiro mandato, Bush retirou o Estados Unidos do Tratado ABM e encarregou o Pentágono de “prosseguir com o lançamento de um conjunto inicial de mísseis voltados para a capacidade de defesa “. A primeira base interceptora de mísseis foi instalada no Alasca em 2004.

Configuração do Programa norte-americano antimísseis
Atualmente são quatro, os vetores que visam proteger os EUA e seus aliados de ataques lançados por mísseis, desenvolvidos pela Agência Norte-Americana de Defesa de Mísseis (ADM):

  1. Bases fixas no território dos EUA. O sistema antimísseis mais complexo e caro dos EUA. O sistema de defesa foi projetado para destruir misseis balísticos de longo alcance. Em 2014, 26 interceptores foram dispostos em Fort Greely, no Alasca e 44 na base aérea de Vanderberg na Califórnia. Em um teste em junho de 2014, um misse lançado a partir das Ilhas Marshall foi abatido por um interceptor desta base. No entanto, é preciso salientar que a tecnologia ainda precisa de mais testes e um terceiro lugar – no lado oriental da costa- está sendo cogitado pela ADM.
  2. Defesa de Mísseis Balísticos Aegis (AMB/ABMD). É considerado o componente mais confiável da defesa de mísseis. Este sistema é instalado em contratorpedeiros (classe Arleigh Burke) e cruzadores (classe Ticonderoga) é projetado para interceptar mísseis balísticos de médio alcance. O plano da marinha norte-americana é aumentar em até 43 o número de navios de guerra com sistema Aegis até 2019. Em junho de 2014, o Pentágono afirmou que o sistema havia sido bem-sucedido em 34 testes realizados.
  3. Terminal de Alta Altitude de Defesa Aérea (THAAD). O THAAD é terminal composto por uma bateria de mísseis montado em um caminhão isso lhe dá agilidade, flexibilidade e rapidez. O sistema é capaz de interceptar mísseis balísticos de médio alcance, dentro e for da atmosfera. Desde 2014, três sistemas THAAD estavam operacionais, no entanto, com o desenrolar do teatro do Pacífico uma bateria foi deslocada para Guam e outra para Coréia do Sul.
  4. Patriot Advanced Capability–3. É o sucessor dos sistemas implantados durante a Guerra do Golfo. Com tecnologia mais madura e rapidamente implantável, o sistema é o mais testado dentre outros no arsenal de defesa de mísseis dos EUA e emprega sensores para rastrear e interceptar mísseis quando adentram em sua última fase, em altitudes inferiores ao sistema THAAD. O PAC3 foi utilizado durante as missões de combate no Iraque em 2003 com sucesso e já foi desdobrado para outras nações, tais como, Turquia, Coréia do Sul e Afeganistão.


Os teatros da Ásia e Pacífico
Os recentes testes com mísseis balísticos conduzidos pela Coréia do Norte ascenderam o sinal de alerta não só nos países asiáticos, mas também nos Estados Unidos. Esta ameaça vem acelerando a implantação do sistema antimíssil americano THAAD (Terminal High-Altitude Area Defense) na Coréia do Sul, o que vem causando constantes reclamações de Pequim e Moscou acerca das reais intenções americanas e sul-coreanas (BBC, 2017).

É importante notar o papel de destaque que os Estados Unidos possuí no teatro do Pacífico e Ásia quando se trata de defesas antimísseis. Washington, honrando seus tratados e compromissos, estende sua deterrência a seus aliados, criando um ‘guarda-chuva nuclear’ na região. Isso significa que os americanos estão engajados na defesa de seus aliados na região e, se sua deterrência falhar, eles irão usar seus meios para derrotar a ameaça. O Congresso Americano reconheceu esta postura quando afirmou o seguinte:  “Os Estados Unidos tem a obrigação de cumprir com seus compromissos de segurança com seus aliados, incluindo os compromissos de defesa em relação a mísseis balísticos” (U.S. Government Office, 2013).

Para a proteção de seus aliados, os Estados Unidos possui na região uma defesa em camadas, tendo como linha de frente interceptadores SM-3 a bordo de destroieres equipados com o sistema AEGIS, que possuí como sistema central o AN/SPY-1, um radar de alta potência capaz de detectar mais de 100 alvos simultaneamente. Mais adiante, os Estados Unidos possui baterias PAC-3 em suas bases militares na região com radares em terra, como o AN/TPY-2 e no mar, com radares X-Band. O Sistema THAAD Americano está presente em Guam e em um futuro próximo, na Coréia do Sul, o que integra ainda mais o sistema antimísseis americano na região. Este sistema móvel tem a capacidade de interceptar alvos dentro e fora da atmosfera através de uma série de dispositivos, como radares, centros de comando e controle para comunicações e lançadores móveis (LOCKHEED MARTIN, 2016).

Outros países na região também apostam em defesas antimísseis. O Japão por exemplo, que possui uma defesa coordenada com os americanos, operam quatro destróieres da classe-Kongo com o sistema AEGIS e interceptadores SM-3 Block IA. O país também possuí 17 baterias PAC-3 para proteção de importantes áreas como a capital Tóquio. Outro país que vem apostando em defesas antimísseis é a China, que começou a desenvolver ainda nos anos 90 um sistema de defesa com o míssil interceptador KT-1 de longo alcance. Em 2013, o Exército de Liberação Popular interceptou com sucesso um míssil de médio alcance no meio de sua trajetória através do sistema de defesa antimíssil Dong Ning-2 e um míssil interceptador KT-2 (conhecido no ocidente como SP-19). Atualmente, Pequim conta com o sistema de defesa antimíssil S-300PMU – uma variante do S-300 russo – e o sistema antimíssil HQ-9, que é produzido localmente. Em adição a estes sistemas, a China também possuí uma versão do sistema AEGIS americano, baseado no sistema francês Thomson-CSF TAVITA.

Teatro Europeu – OTAN e Rússia
A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos trouxe uma série de incertezas a respeito do comprometimento e manutenção das alianças americanas no cenário internacional. Parte desta incerteza é em relação a OTAN e consequentemente, sobre o projeto de um escudo antibalístico em solo europeu, que já vem sendo implementado desde o mandato de George Bush (2001-2009) (THE BULLETIN, 2017). De acordo com suas diretrizes, a aliança tem a ‘responsabilidade de proteger suas populações, território e forças a luz da crescente proliferação de mísseis balísticos e contra ameaças provenientes de fora da área euro-atlântica’ (NATO, 2016). Para este fim, foi decidido em 2010 na Cúpula de Lisboa, que a aliança iria aperfeiçoar seu sistema de defesa antibalístico para conter as ameaças de mísseis de alcance curto, médio e intermediários que cobririam todo o território Europeu.

Um sistema já em vigor naquele tempo foi expandido, o ALTBMD (Defesa Antibalística Ativa em Camadas em português) que serviria daquela data em diante como uma rede de comando, controle e comunicações para dar suporte as novas capacidades do sistema de defesa. A contribuição americana para este novo sistema, sob os auspícios do Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte, foi através do PAA (Abordagem Adaptativa em Fases em português), um sistema que substitui alguns elementos da defesa antimísseis proposta pela administração Bush, como por exemplo a substituição dos radares de Banda X na República Checa e dez interceptadores baseados em terra localizados na Polônia por quatro destroieres da classe Arleigh Burke com o sistema Aegis, que possuem mísseis SM-3 além de novos radares, como o SPY-1 baseado no Mar Mediterrâneo que é funcional e capaz de busca, detecção automática, transição, rastreamento de alvos aéreos e de superfície e suporte a interceptação de mísseis em rota. Outro radar implementado pelos Estados Unidos é o AN/TPY-2 localizado na Turquia, um radar de Banda-X e com capacidade de rastreamento detalhada de alvos (GALDORISI, 2017). Mais adiante, em Maio de 2016, A OTAN instalou na Romênia uma base de defesa com o sistema Aegis – a primeira baseada em terra – dotada de radares e dezenas de mísseis SM-3 para interceptação (LAGRONE, 2016). Importante notar que o sistema de defesa antibalístico da OTAN irá aumentar ainda mais suas capacidades. Em 2018, mais baterias de defesa antibalística serão instaladas na Polônia, cobrindo ainda mais o território Europeu (THE BULLETIN, 2017).

Outro país na Europa que se sobressai em termos de defesas antimísseis é a Rússia. Na época da Guerra-Fria, União Soviética e Estados Unidos tiveram uma corrida armamentista particular em termos destes sistemas de defesa. Os soviéticos começaram a desenvolver pesquisas em torno de mísseis balísticos já em 1948 através do Instituto NII-4 e em 1959, foi desenvolvido o Sistema-A, um projeto de defesa antibalístico controlado via radio e com um radar específico para a tarefa, o DUNAI-2, que identificava os alvos através de sua trajetória e tinha como dispositivo interceptador o míssil V-1000 Fakel. O sucesso desse sistema levou os soviéticos a desenvolverem na década de 60 o Sistema-A-35, que se tornou operacional em 1964 protegendo a capital Moscou. Hoje em dia, os russos contam com um sistema defesa antimísseis que é distribuído em camadas, onde a primeira consiste de radares que monitoram possíveis ataques de mísseis de potenciais adversários, detectando lançamentos através de satélites que registram os lançamentos através do calor emitido pela turbina destes dispositivos e computadores que processam os dados do lançamento, calculando a trajetória e tempo de reação. A segunda camada da defesa antimísseis possuí diversos sistemas baseados em terra. Atualmente, se destacam o atual sistema de defesa antimíssil sobre Moscou e região central, o A-135, com radares Don-2N e mísseis i53T6 que podem interceptar alvos a 80 quilômetros de distância e a 30 quilômetros de altura. Outro sistema é o de misseis antiaéreo S-400. Desenvolvido pela Almaz Central Design Bureau, ele tem a vantagem de ser móvel, o que influencia a favor de sua sobrevivência. Porém a evolução é contínua e os russos pretendem aperfeiçoar suas defesas integrando uma série de sistemas baseados em terra, como por exemplo os sistemas de curto alcance Tunguska, Tor-M2 e Pantsir-S1, os de médio alcance como o S-300 e o Vityaz e os de longo alcance S-400 e S-500. Em 2011, o General Nikolai Makarov afirmou que estes sistemas atuariam como um “guarda-chuva” cobrindo todo território russo (SPUTINIK, 2016).


Marco Túlio Delgobbo Freitas é Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense, professor do Instituto Nacional de Pós-Graduação e pesquisador do GEESI (UFPB).

** Renato do Prado Kloss é Mestre em Strategic Studies pela University of Reading e Bacharel em Relações Internacionais pelo IBMEC-MG.


As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autora e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todas as suas colaboradoras.

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