Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Em busca de segurança: o pleito da Turquia para entrar no guarda-chuva securitário dos EUA entre 1945 e 1952

Por Vlademir Monteiro*

As necessidades securitárias da Turquia constituíram um aspecto central de sua relação com o Ocidente, no cenário posterior a 1945, tendo, inclusive, influenciado decisivamente seu alinhamento com o bloco no contexto da Guerra Fria. De acordo com Kösebalaban (2011), sua política externa, nesse período, manifesta a continuidade da prática de se valer de esquemas defensivos com alguma potência ocidental no intuito de fazer frente às hostilidades de outros Estados – e esse expediente era, com frequência, adotado pelo Império Otomano (o antecessor da República Turca) para contrabalancear a Rússia czarista.

O principal fator desencadeador da aproximação da Turquia com o bloco Ocidental foi a ameaça soviética sobre seu território, mais precisamente, a intenção de Stálin de tomar o controle dos Estreitos do Bósforo e de Dardanelos. Tão logo as autoridades tomaram ciência das pretensões de Moscou, ficou-lhes evidente a necessidade de dispor de uma força contrabaleceadora ao comportamento agressivo dos soviéticos. Segundo Hale (2013), resistir às pressões da URSS pela via diplomática só renderia resultados se abordagem contasse com a ameaça do uso da força. Ao final da Segunda Guerra, nenhum outro país poderia oferecer isso senão os Estados Unidos, dado que a Grã-Bretanha, desgastada pelo conflito, carecia de capacidades materiais para assumir esse ônus, embora estivesse comprometida com a segurança turca através de um tratado de 1932. Diante da situação, os oficiais turcos pautariam sua política externa em três pontos:

[1] garantir que os EUA e as outras potências ocidentais não apoiassem as demandas soviéticas; [2], obter apoio financeiro ocidental que permitisse manter a mobilização do exército; e, [3] se possível construir uma aliança efetiva […] com o Ocidente, como um meio a longo prazo de garantir a segurança contra o poder soviético (HALE, 2013, p. 81, tradução nossa)

Não seria equivocado afirmar que elas conseguiram o primeiro item, dado que, segundo apontam Atmaca (2014) e Yilmaz (2012), as autoridades estadunidenses e, também inglesas, endossaram, em comunicações diplomáticos e discursos públicos, a soberania turca sobre os estreitos. Por exemplo, o chefe do Foreign Office britânico, Ernest Bevin, declarou, em dezembro de 1945:  “governo de Sua Majestade não podia ser indiferente a uma ameaça russa à Turquia e ficaria ao seu lado. Não poderíamos concordar com o pedido soviético de uma base no Estreito” (apud ATMACA, 2014, p. 21, tradução nossa).

Apesar de bem-vindo, o apoio moral não atendia as reivindicações, por completo, pois, ainda que as pretensões de Stálin abrandassem ou ele simplesmente desistisse de exigir concessões, a ameaça soviética à integridade turca persistiria. Por essa razão, era tão vital obter um comprometimento por parte de Washington com sua segurança, conforme evidenciam os dois últimos pontos da passagem de Hale (2013). A favor dos turcos, crescia a percepção, dentro do establishment estadunidense, a respeito do comportamento hostil da União Soviética. Um elemento decisivo na construção dessa leitura foi o famoso Longo Telegrama, escrito por George Kennan. Nas palavras dele, [Moscou] “é uma força política comprometida com a crença de que com os Estados Unidos não pode haver qualquer modus vivendi permanente” (apud LEFFLER, 2010, p. 73, tradução nossa). Na prática, isso resultou na elaboração de uma grande estratégia cuja diretriz principal era conter o expansionismo do poderio soviético.

Uma das primeiras execuções dessa estratégia ocorreu justamente com a assistência provida à Turquia pela Doutrina Truman, a qual lhe destinou US$ 100 milhões com o propósito de fortalecer suas capacidades militares, através da modernização de seu arsenal bélico. Hale (2013, p. 83, tradução nossa) salienta que o programa proporcionou uma das garantias para sua segurança, pois provou que “[os americanos] estavam preparados para fazer uma contribuição material em vez de simbólica na defesa da Turquia”. Nas palavras de Necmeddin Sadak, ministro de relações (1949, tradução nossa), o auxílio significou “um grande conforto ao povo turco, pois eles sentiram que não estavam mais isolados. Perceberam que uma grande nação, a mais poderosa no mundo, estava interessada em sua independência e integridade”.

Entretanto, a ajuda tinha muito mais a ver com a salvaguarda dos interesses euro-atlânticos no Mediterrâneo e no Oriente Médio do que com a proteção da Turquia em si (YILMAZ, 2012). Com base em Smith (2000), observa-se, por trás desse tipo de política, a instrumentalização de Estados com uma projeção de poder expressiva no palco regional, para o alcance de objetivos militares e econômicos. Dito de outro modo, o aporte de recursos almejava vinculá-los “à órbita dos EUA a fim de assegurar que eles cooperassem estrategicamente em tempo de guerra e permitir que as empresas ocidentais desenvolvessem e controlassem seus recursos petrolíferos em tempo de paz” (SMITH, 2000, p. 68, tradução nossa).

Nessa mesma linha de pensamento, Atmaca (2014), ao analisar o tema sob o viés da geopolítica, afirma que a Turquia adquiriu relevância à segurança estadunidense, porque se percebeu o quão estrategicamente proveitosa poderia ser a localização de seu território aos planos de impedir a influência comunista de se disseminar pelo Oriente Médio. Dessa forma, as autoridades em Washington passaram a considera-la a uma peça essencial na concretização de seus projetos geopolíticos, de maneira que seus discursos lhe atribuíam o papel de barreira natural ao expansionismo da URSS ou dissuasor a um ataque soviético.

Embora tenha possibilitado a modernização de suas forças armadas, a Doutrina Truman não encerrou o pleito turco, porque o governo tinha em perspectiva a formalização em algum arranjo. Por isso, quando os norte-americanos e europeus começaram, em 1947, a esboçar, no âmbito das WET (Washington Exploratory Talks on Security) o estabelecimento de uma aliança defensiva, Ancara expressou seu desejo de participar desse esquema. No entanto, um ano mais tarde, ela não seria convidada a fundar a OTAN (SMITH, 2000; HALE, 2013; GÖKAY, 2006). Justificou-se a exclusão sob o argumento de que a entidade recém-criada se dedicaria exclusivamente a proteção da Europa, portanto, não havia espaço nela para uma nação localizada na área do Mediterrâneo. Essa mesma alegação sustentaria, nos anos seguintes, a resistência de alguns membros, às sucessivas candidaturas de Ancara. Para eles, ter um país mulçumano dentro da organização enfraqueceria sua unidade, assim como iria implicar o ônus de se comprometer com a proteção de um Estado numa região tão remonta quanto o Oriente Médio (SMITH, 2000; YILMAZ, 2012; ARMSTRONG, 1951).

A Guerra da Coreia (1950) se revelou um fator decisivo na busca de Ancara para integrar a comunidade euro-atlântica, pois, segundo Leffler (1985), o conflito tornou ainda mais urgente fortalecer o esquema defensivo da Europa contra um eventual ataque da superpotência comunista. Essa preocupação foi expressa no conceito bottleneck, desenvolvido pelo general Eisenhower. A metáfora concebia a Europa como uma garrafa, cuja parte larga corresponderia à URSS, e o pescoço seria à região Central do continente. Em caso de um avanço soviético pelo gargalo, dever-se-ia detê-lo pelos lados, empregando capacidades áreas e navais. Considerando sua localização, a Turquia, junto com a Grécia, desempenharia, portanto, uma função crucial em um contra-ataque. Contudo, havia poucas chances de ela assumir tal papel se não fosse aceita na OTAN (HALE, 2013; SMITH, 2000).

Nota-se que, além de uma peça chave na política de contenção, a Turquia passou a ser também valiosa aos planos ofensivos e defensivos dos EUA. Aos olhos dos estrategistas deste, não se podia prescindir de seu potencial logístico e operacional caso irrompesse um embate direito com a URSS, no palco europeu, pois, Leffler (1985, p. 824, tradução nossa) explica, “as instalações turcas e suas capacidades humanas [possibilitariam] neutralizar a ameaça submarina no Mediterrâneo, distrair tropas e lançar ataques aéreos contra recursos petrolíferos dos soviéticos”. E uma postura neutra por parte de Ancara comprometeria o bloco ocidental, porque este não conseguiria “fechar os estreitos à passagem dos submarinos soviéticos, proteger as linhas de comunicação da OTAN no Mediterrâneo e destruir o transporte marítimo soviético no Mar Negro” (LEFFLER, 1985, p. 823, tradução nossa). Em face disso, Ancara foi convida a entrar a OTAN no final de 1951 e seu ingresso foi oficializado em fevereiro de 1952.

Como se pôde observar, a política externa da Turquia, nos anos pós-guerra, se devotou quase exclusivamente a inseri-la debaixo do guarda-chuva securitário dos Estados Unidos. Na visão das autoridades turcas, uma aliança com a superpotência atlântica era a resposta mais adequadas às pressões geradas pela ordem bipolar. No entanto, conforme se notou, houve dificuldades na busca de Ancara por segurança. Apenas com mudanças nas estratégias norte-americanas de combate à URSS, a Turquia finalmente conseguiu garantais dos EUA com defesa dela.


*Graduado em Relações Internacionais (DRI/UFS). Email: vlademir.monteiro@hotmail.com

Referências
ARMSTRONG, H. Eisenhower’s Right Flank. Foreign Affairs, v. 29 n. 04, jul. 1951 pp. 651-663.
ATMACA, A. The Geopolitical Origins of Turkish-American Relations: Revising the Cold War Years. All Azimuth, v. 03 , n. 01, jan. 2014, pp. 19-34.
BOZDAGLIOGLU, Y. Turkish Foreign Policy and Turkish Identity: a Constructive Approach. New York: Routledge, 2003.
COHEN, M. Strategy and Politics in the Middle East 1954-1960. Oxon: Frank Cass, 2005.
GÖKAY, B. Sovient Eastern Policy and Turkey, 1920-1991. Oxon: Routledge, 2006.
HALE, W. Turkish Foreign Policy since 1774. Oxon: Routledge, 2013.
KÖSEBALABAN, H. Turkish Foreign Policy: Islam, Nationalism and Globalization. New York: Palgrave Mcmillan, 2011.
LEFFLER, M. Strategy, Diplomacy, and the Cold War: The United States, Turkey, and NATO, 1945-1952. Journal of American History, v. 71, n. 04, mar. 1985, pp. 807-825.
LEFFLER, M. The Emergence of an American Grand Strategy, 1945-1952. In: LEFFLER, M;  WESTAD, O. (eds.). The Cambridge History of the Cold War. New York: Cambridge University Press, 2010.
SMITH, M. NATO Enlargement during the Cold War: Strategy and System in the Western Alliance. New York: Palgrave, 2000.
WALKER, J.. Turkey and Israel’s Relationship in the Middle East. Mediterranean Quartely, v. 17, n. 04, 2006, pp. 60-90.
YESILBURSA, B. The Baghdad Pact: Anglo-American Defence Policy in the Middle East, 1950-1959. Oxon: Frank Cass, 2005.
YILMAZ, S. . Turkey’s Quest for NATO Membership: the Institutionalization of the Turkish-American Alliance. Southeast European and Black Sea Studies, v. 12, dez, 2012 pp. 481-495.


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