Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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A Geopolítica do Conflito Sírio: interesses conflitantes e guerra assimétrica por procuração

Por Elton Gomes dos Reis*
Maria Carneiro de Albuquerque Franca**

Guerra Civil na Síria e Fragmentação interna
Em guerra civil desde 2011, quando, no contexto da Primavera Árabe, milhares foram às ruas de Daa’ra protestar contra a prisão de quinze estudantes por picharem frases anti-regime no muro de uma escola, a Síria tem vivido nos últimos seis anos um dos conflitos mais sangrentos da história recente.

A situação no país, contudo, evoluiu e deixou de limitar-se apenas às suas fronteiras. A medida que o conflito foi se prolongando sem um vencedor, novos atores com variados interesses e poder de combate foram sendo adicionados ao cenário da guerra. Às forças do governo e aos rebeldes (personagens originais da contenda), somaram-se grupos paramilitares, grupos terroristas e atores Estatais internacionais.

Internamente, a expansão da participação popular ampliou a base social da violência da guerra, fazendo surgir diversos grupos autônomos com composição e motivações distintas que podem ser classificadas em subgrupos, entre os quais estão, principalmente, os chamados rebeldes reais (compostos por civis e desertores das forças armadas, que lutam pela queda do regime atual e instauração de uma nova administração eleita pelo povo), “jihadistas globais” (voluntários estrangeiros ideologicamente motivados pelo estabelecimento de um califado islâmico) e “Nacionalistas Curdos”[1]. A divergência de interesses dos grupamentos rebeldes contribui para a fragmentação da oposição síria e impede a formação de uma entidade estável e forte o suficiente, que sirva como possível alternativa viável ao governo do atual presidente, Bashar al Assad.

Internacionalização Do Conflito e Interesses em Rota de Colisão
No cenário internacional, a Guerra da Síria atraiu a atenção desde o começo, seja pela importância geoestratégica do país, seja pelos atores envolvidos a favor e contra o governo. Abordando um tom oficial mais diplomático de início, os opositores de Assad já agiam indiretamente no conflito, ao financiar e apoiar (muitos, veladamente) grupos rebeldes.

No entanto, a partir de 2013, a internacionalização do conflito foi intensificada após a utilização de armas químicas pelo regime de Al Assad durante ataques aéreos contra rebeldes nos arredores de Damasco. A partir deste ponto, a comunidade internacional adotou um tom mais firme em relação ao conflito e o país tornou-se abertamente um campo de batalhas composto de influências de potências regionais e globais; onde os opositores do regime tentam promover ações mais assertivas (como intervenções estrangeiras e sanções mais severas) que levem a desestabilização e possível deposição de Assad, enquanto que seus aliados tentam, sistematicamente, vetar decisões que sejam prejudiciais à administração atual no âmbito das Nações Unidas.

Encabeçando os opositores estatais do governo encontram-se a Arábia Saudita, a Turquia, a União Europeia e os Estados Unidos. No cenário regional, os sauditas são os principais opositores regionais de Assad. Seu posicionamento é o resultado da mistura entre questões históricas de rivalidades geopolíticas, religiosas, de segurança regional (principalmente com o Irã – um dos principais aliados de Assad) e de seu interesse em ampliar a própria influência na região. A queda do governo sírio para os saudita representaria não apenas a redução do poder regional Iraniano, mas também a possibilidade de o governo atual ser substituído por um novo governo sunita.

Outro tenaz opositor do regime Assad é a Turquia, com quem a Síria compartilha uma larga fronteira que se estende por todo o Norte de seu território. Durante um primeiro momento da Primavera Árabe, Ancara posicionou-se oficialmente em favor de Assad, tendo em vista a política de reaproximação entre os dois países iniciada na administração do atual primeiro ministro turco, Edorgan. Em seu apoio a Damasco, Ancara tentou influenciar Assad a tomar atitudes que refreassem a crise política que começava no país. No entanto, a partir de setembro de 2011, após ficar claro que Assad não contemplaria os interesses de Ancara, a Turquia rompeu oficialmente as relações com a Síria e passou a apoiar diretamente os rebeldes, na expectativa de que a queda da administração atual abrisse espaço para um novo governo islâmico que seguisse os moldes da atual administração turca.

Não obstante, a oposição oficial ao governo Assad, a questão dos curdos que habitam o norte da Síria, produz a clara ambiguidade do posicionamento turco no que tange ao conflito. Enquanto apoia a mudança de governo em Damasco, Ancara abomina o ganho de espaço por parte dos curdos sírios, considerados terroristas pelo governo Edorgan.

A hostilidade entre Turquia e os curdos revolucionários impacta negativamente na coalizão turco-americana, tendo em vista que os rebeldes curdos na Síria são apoiados pelos Estados Unidos, e que, agindo em detrimento da coalizão anti-Assad composta pela tríade Turquia, Arábia Saudita e Ocidente, os países aliados divergem sobre o apoio dos distintos grupos insurgentes.

No Ocidente, a oposição ao regime sírio é encabeçada pela União Europeia e Estados Unidos. Para esses países, a deposição de Assad abriria caminho para a conquista de alguns pontos de grande interesse (principalmente para os EUA), como a ascensão de uma nova administração pró-ocidente, a diminuição da influência regional do Irã e da Rússia – e o consequente enfraquecimento do Hamas, Hezbollah e outros grupos considerados terroristas pelas potências ocidentais, além de representar uma possibilidade de resolução, ou de alívio, para a crise de refugiados.

Apesar do poder político e do arsenal bélico que a oposição Ocidental dispõe, sua atuação no conflito é majoritariamente indireta, tendo em vista os entraves entre seus próprios membros sobre as ações que devem ser tomadas (como o caso do dissenso entre os países da União Europeia sobre a aprovação de ações mais efetivas). Soma-se a isso a política de vetos russos e chineses no Conselho de Segurança da ONU, que buscam impedir decisões prejudiciais à Assad. Assim, o principal curso de ação dos países ocidentais tem sido a imposição de sanções econômicas, congelamento de bens do governo Sírio e apoio a grupos rebeldes (que ocorre de forma limitada, tendo em vista o receio de que o material bélico e provisões enviadas a esses grupos serem extraviados e utilizados contra os próprios ocidentais).

No caso americano, o governo do democrata Barack focou na diminuição do envolvimento americano em questões securitárias no Oriente Médio e na priorização do multilateralismo. Para os Estados Unidos, as complicações de uma intervenção militar na Síria, mesmo após o ataque químico de 2013, não pareceram interessantes, especialmente ao se considerar os elevados custos militares, a crise diplomática (em especial com a Rússia), a supressão de grupos extremistas da região e a execução de um plano de retirada responsável e seguro das forças armadas e investimentos para a reconstrução da estabilidade política do país e a iniciação de uma nova administração pró-ocidente[2].

Não obstante as alfinetadas, durante sua campanha eleitoral, à administração Obama, Donald Trump, iniciou seu governo, em 2017, sem grandes alterações na condução da política externa iniciada por seu predecessor no que diz respeito a Guerra na Síria. No entanto, após novo ataque químico a rebeldes atribuído ao governo de al Assad, o atual presidente americano autorizou o ataque com mísseis de cruzeiro a uma base aérea síria, o que provocou acirramento de tensões com o Kremlin.

A Rússia é o principal aliado de Assad, dando-lhe suporte nas Nações Unidas, sendo seu principal fornecedor de armas e lhe emprestando contingente militar e apoio aério para proteção do regime. O suporte russo se dá por motivos geopolíticos, domésticos e econômicos. A Rússia possui uma base aérea na cidade de Latakia (no noroeste sírio) e, em Tartus (no oeste do país), está localizada sua última estação naval no Oriente Médio e único acesso russo ao leste do mar Mediterrâneo. Ademais, a aliança com o governo sírio garante um ponto de influência russo em detrimento do controle ocidental na região (cuja expansão significa a disseminação de movimentos que visam mudanças de regimes – fato que pode trazer sérias consequências dentro do território russo, composto por vários grupos étnicos que estão em constante tensão com o governo, buscando independência); e a manutenção do conflito favorece Moscou, pois significa a preservação de um comprador de armamentos russos e contribui para a elevação do preço do petróleo, o que aumenta a dependência energética europeia da Rússia.

Outra potência que tem se valido constantemente de seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU é a China. Esse gigante asiático conhecido no cenário diplomático internacional por historicamente adotar uma política externa anti-intervencionista, tem se posicionado ao lado do regime Assad e bloqueado, juntamente com a Rússia, ações prejudiciais à Damasco através ONU. A resistência chinesa à interferência internacional resulta de seu receio em fomentar a tendência dos Estados Unidos e Europa de se envolver em questões internas de nações soberanas. Os chineses temem que seu apoio nutra ainda mais esse perfil ocidental, abrindo precedente para que o intervencionismo possa ser de alguma maneira, exercido contra a própria China.

O principal aliado sírio no Oriente Médio é o Irã. Apesar de inusitada (tendo em vista o governo religioso do Irã frente ao regime laico e social dos Assad, na Síria), a aliança entre iranianos e sírios foi se aprofundando desde a Revolução Iraniana de 1979, em consequência, principalmente, do combate a inimigos em comum. Em 2006, ambos os países assinaram seu primeiro pacto de defesa mútua bilateral e desde 2011 o Irã tem demonstrado apoio incondicional à Assad. Entre os principais motivos para o posicionamento de Teerã está o fato de que a queda de Damasco abre a possibilidade da ascensão de um próximo governo sunita – apoiado pelas petromonarquias do Golfo e o Ocidente – que rompa as relações entre do Eixo de Resistência e, consequentemente, ocasione o isolamento regional do Irã.

Considerações Finais
A análise dos interesses e motivações de todos os atores envolvidos é possível concluir, portanto, que a Síria se transformou em um tabuleiro onde se enfrentavam não apenas os atores originais representados pela oposição e pelo regime sírio, mas também rivais regionais e internacionais que fizeram do conflito, uma vendeira “guerra assimétrica (link para atrigo sobre terrorismo e guerra assimétrica) por procuração”, sobre questões domésticas e tensões envolvendo entre os outros atores do Oriente médio e potências extra regionais. Esse quadro de interesses divergentes produziu uma trágica estagnação: nenhum lado aparenta ser capaz de se sobrepor ao outro, pondo termo ao violento conflito.


*Doutor em Ciência Política (UFPE). Membro do Núcleo de Estudos Sobre Política Comparada e Política Internacional (NEPI-UFPE). Professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: análise de política externa, política externa brasileira, integração regional e organizações políticas internacionais.
**Bacharel em Relações Internacionais-Faculdade Damas da Instrução Cristã (FADIC).

[1] Aproximadamente 15% da população síria, visam a criação de um Estado autônomo – o Curdistão; e tornaram-se a força mais efetiva na luta contra o Estado Islâmico.
[2] O que representa uma dificuldade na solução do impasse sírio, visto que não há, atualmente, na Síria um grupo opositor coeso e forte suficiente para assumir o governo transitório de forma que previna o caos, após a queda de Assad.


As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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