Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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O Multiculturalismo e a fragmentação social no Mundo Pós-Moderno

Por Matheus Leite do Nascimento*

Ao fazermos uma delimitação cronológica, o Pós-Modernismo nasce já no final do século XX, sendo fruto de uma série de movimentos sociais e ramificações do âmbito político, tendo forte caráter identitário e sendo percursor de mobilizações em prol da igualdade. A pós-modernidade surge como alternativa de supressão ao período conhecido como “Modernismo”, negando suas noções idealistas de progresso pautadas na Razão Iluminista e incorporando premissas mais específicas de diferentes grupos sociais. Movimentos que preconizam a igualdade de gênero, como o feminista, além de outros étnicos, como o negro, surgem nesse contexto visando promover reformas importantes para a concretização de uma sociedade mais plena, em que essas minorias conquistariam maiores graus de igualdade.

O mundo pós-moderno, ao ser concebido num contexto fluido e de constantes mudanças, acaba se diferenciando do Modernismo por se encontrar em um processo de contínuas mutações. O status quo que caracteriza a pós-modernidade é o de transformações ininterruptas. Vemos, então, como essas mobilizações têm se adequado aos diferentes contextos aos quais estão inseridas, visando melhor atender aos múltiplos interesses de grupos distintos. Contudo, ao se tentar contemplar as demandas cada vez mais específicas de algumas dessas minorias, podemos observar um efeito ocasionado pelas diferentes vertentes pós-modernas: o reforço de um subjetivismo oriundo da defesa do multiculturalismo, além do crescimento de agrupamentos dispersos que se distinguem pela pluralidade das prerrogativas representativas. É evidente como esses fatores têm contribuído para um quadro de crescentes tensões e fragmentação da sociedade, onde lutas identitárias cada vez mais fraturadas ganham espaço em paralelo à manutenção do sistema atual.

Ao analisarmos questões pertinentes que se encontram no centro dos debates pós-modernos, obrigatoriamente nos remetemos ao seguinte tópico: as acepções de civilidade e os impasses relativos às discussões sobre o multiculturalismo. Segundo Zizek (2011), muitos daqueles que se autoproclamam esquerdistas liberais tendem a abominar a visão conservadora da sociedade, na qual os indivíduos que incorporam valores de outros povos deveriam respeitar princípios culturais “hegemônicos” de uma comunidade majoritária. Por conta disso, aqueles que levantam a bandeira do multiculturalismo propõem uma abertura mais ampla a outras formas de cultura não ocidentais, já que classificariam a visão ocidental como não sendo verdadeiramente neutra, pois privilegiaria valores imperativos de uma cultura dominante.

Até aqui podemos entender a validade desses argumentos sustentados pela defesa da coexistência cultural, uma vez que vivemos num mundo globalizado e choques culturais são cada vez mais corriqueiros. Contudo, essa visão suscita uma outra questão que discutiremos a seguir: o reforço de um crescente subjetivismo dentro da perspectiva pós-moderna. Como consequência, movimentos com esse caráter se defrontam com dilemas que têm enfraquecido prerrogativas defendidas pelos mesmos. Mais uma vez citando Zizek (2011), este chama atenção para a ambiguidade que tem afetado as bases da sociedade que se classifica como “permissiva” e “tolerante”: é a partir dessa tolerância forçada que dubiedades acabam sendo construídas.

Um exemplo que esclarece bem essa questão é abordado por Okin (2010). A autora cita o apoio às demandas multiculturalistas no contexto da França – dentre as quais podemos citar o respeito à diversidade e a tolerância religiosa –, acusando aqueles que se opõem a essas de racistas ou imperialistas culturais. Todavia, alguns dos que defenderam essa ideia não foram capazes de prever outras consequências maiores que viriam a ser enfrentadas por mulheres imigrantes arábico-francesas e africanas: a poligamia. Ainda segundo Okin (2010), quando questionadas sobre essa situação, essas mulheres demonstraram veemente aversão, considerando tal prática instituída como algo escassamente suportável, apesar de estarem condicionadas àquilo em seus países de origem. Uma vez alojadas no território francês e sob suas normas institucionais, aspiravam através do amparo de valores liberais uma melhoria em suas condições de vida, considerando tais práticas intoleráveis dentro daquele contexto.

É dessa forma que a acomodação das práticas poligâmicas promovidas pela França traduz elementos de tensão entre uma vertente dos movimentos pós-modernos – nesse caso, o feminismo – e a garantia do multiculturalismo, ao buscar essa promoção da diversidade cultural. Ainda em sua descrição sobre esse caso em particular, Okin (2010) faz a seguinte ponderação: “Penso que nós – especialmente aqueles dentre nós que se consideram politicamente progressistas e se opõem a todas as formas de opressão – fomos demasiado apressados em assumir que feminismo e multiculturalismo são ambas coisas boas e facilmente harmonizáveis” (OKIN, p. 357, 2010).

Apesar desse caso parecer algo episódico, podemos observar como ocorrências similares têm sido cada vez mais comuns. Os indivíduos que defendem a visão de mundo multiculturalista têm, contraditoriamente, valores liberais como basilares e absolutos. No entanto, quando se deparam com questões desse tipo, encontram-se numa condição de dubiedade: a despeito de defenderem esses preceitos liberais como irrevogáveis, veem-se numa situação na qual a relativização dos mesmos seria necessária para que valores culturais pudessem ser conservados. Por outro lado, aqueles que exigem a universalização desses princípios – como Direitos Humanos, liberdade e igualdade – precisam também levar em conta outra faceta decorrente da implementação destes em sociedades que não partilham dos mesmos valores: o emprego da violência para sua aplicação e a prática do imperialismo cultural, fortemente repudiada pelos mesmos que advogam a favor da difusão desses princípios. Posto isso, Zizek (2008), em sua obra “Elogia da Intolerância”, argumenta que os multiculturalistas liberais teriam como via para evitar esse tipo de situação binária a tolerância das violações mais brutais dos Direitos Humanos, não condenando essas práticas por temerem impor seus próprios valores.

Tal visão do autor nos permite enxergar a incompatibilidade de conciliar as concepções paradoxais dos multiculturalistas. São nesses casos que a perspectiva pós-moderna é posta em xeque, mostrando como o reforço da ótica subjetivista da sociedade pode ser debilitada em situações contraditórias como essas e fazendo com que novas tensões sejam fomentadas. Não obstante, vejamos a seguir como essa ideia de legitimação de grupos se dá em paralelo ao aprofundamento de uma desintegração entre vários segmentos sociais.

Ao falar da rejeição por parte dos movimentos pós-modernos de valores universalistas, Wood (1999) assinala que a ênfase na diferença entre identidades singulares – como gênero, raça, etnicidade, sexualidade e outras lutas separadas – serviria como forma de fortalecer a ideia de natureza fragmentado do indivíduo. Estando nossas identidades frágeis e incertas, seria difícil promover uma consciência coletiva capaz de alicerçar bases para a construção de ações coletivas em prol de uma identidade social em comum (WOOD, 1999). Ao corroborarmos essa visão da autora, vemos como a ascensão dos mais diversos movimentos sociais tem impulsionado essa profunda fragmentação entre grupos, reforçando a lógica de uma sociedade cada vez mais subjetiva e calcada em impasses relativos à defesa de demandas consensuais.

Outro fator a ser analisado como parte dessa problemática é a perda de autonomia por parte do indivíduo. Ao buscar algo valorativo para sua vida através da inserção num grupo, o senso de coletividade passa a se sobrepor à individualidade, fazendo com que os anseios coletivos tenham maior importância em detrimento das vontades individuais (TODOROV, 1999). Todorov (1999) salienta ainda que o grupo não só passa a decidir pelo indivíduo, como também lhe é imposto. Percebemos como alguns movimentos nesse sentido têm se utilizado da coação – legitimada a partir de uma coesão identitária – como instrumento agregador de sua causa. Pertencendo a uma determinada etnicidade, religião ou gênero, pessoas acabam sendo compelidas a integrarem esses movimentos por conta de traços em comum. Esse senso de obrigatoriedade para com as mobilizações faz com que indivíduos se alienem de outras aspirações políticas, o que os distancia de lutas de outras naturezas.

Nesse contexto, observa-se a interrupção de lutas contestatórias ao próprio sistema vigente. A política acaba por perder sua essência tradicional, no que se refere a lutas de poder entre classes ou Estados, dando lugar a antagonismos liderados por uma agenda dos próprios grupos identitários (WOOD, 1999). Ao tentar pôr fim aos problemas que permeiam a sociedade a partir da desconstrução de padrões sociais e sem tentar romper com as estruturas do sistema que lhe é imposto, as frustrações pós-modernas passam a ser contínuas. A própria dinâmica da sociedade contemporânea, a qual podemos chamar de “grupal-individualista”, contribui para a reprodução de um sistema que se retroalimenta. As evoluções tecnológicas e dinâmicas de mercado que estimulam o consumo se tornam cômodas nesse contexto, uma vez que lutas anticapitalistas passam a ser consideradas excessivamente “totalizantes”, não se encaixando nos discursos pós-modernos. Dessa forma, Rancière (2014) afirma haver na democracia pós-moderna o declínio da política, dando lugar a uma sociedade governada pelo individualismo consumista. Nas palavras de Wood: “Há poucos fenômenos culturais na história humana cujas fundações materiais sejam mais vivamente óbvias que o próprio pós-modernismo. Não há, com efeito, melhor confirmação do materialismo histórico que o vínculo entre cultura pós-moderna e um capitalismo global segmentado, consumista e móvel” (WOOD, p. 125, 1999).

O Pós-Modernismo, apesar da validez de suas lutas e identificando perspicazmente certas deturpações sociais, tem ocasionado fraturas. O multiculturalismo provoca impasses surtidos a partir da própria defesa de um mundo culturalmente heterogêneo e cosmopolita; o crescimento de grupos com demandas cada vez mais específicas tem resultado numa desintegração social palpável. Assim, a dificuldade em impor coerência e harmonizar suas demandas coloca os pós-modernos em situações de dificuldade, o que observamos como uma forma de fortalecimento do status quo do sistema vigente. Visualizar alterações de paradigma nesse cenário se torna ainda mais difícil quando os percalços discorridos são crescentes.


*Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe, membro do Centro de Estudos sobre a União Europeia (CEURO/UFS).

Referências:
OKIN, Susan Moller. O multiculturalismo é ruim para as mulheres? Revista Brasileira de Ciência Política, n.4, 2010, pp.355-374.
RANCÈRE, Jacques. O ódio à democracia. São Paulo, Boitempo, 2014. Cap.1: Da democracia vitoriosa à democracia criminosa.
TODOROV, Tzvetan. O homem desenraizado. Rio de Janeiro, Record, 1999. Cap.12: O declínio da autonomia.
WOOD, Ellen Meiksins. O que é a agenda “pós-moderna”? In: WOOD, Ellen Meiksins e FOSTER, John Bellamy. Em defesa da história: marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro, Zahar, 1999.
ZIZEK, Slavoj. Em defesa das causas perdidas. São Paulo, Boitempo, 2011. Cap.1: Felicidade e tortura no mundo atonal.
ZIZEK, Slavoj. En defensa de la intolerancia. Madrid, Sequitur, 2008. Cap.: La tolerancia represiva del multiculturalismo.


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