Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Ascensão chinesa e o papel dos Estados Unidos: deep engagement ou offshore balancing?

Por Rafael de Moraes Baldrighi*
Vítor Barreto Canoves**

Ao longo dos últimos cem anos, a grande estratégia dos Estados Unidos para conter potências que buscavam hegemonia regional caracterizou-se pela intervenção direta, o deep engagement (MONTGOMERY, 2014). São exemplos os casos da Alemanha de Guilherme II, na Primeira Guerra Mundial, bem como a Alemanha Nazista e o Japão Imperial, durante a Segunda Guerra, e, ainda, contra a União Soviética, na Guerra Fria (MEARSHEIMER, 2001). A situação atual dos Estados Unidos difere-se dos anteriores. Como a grande potência em um mundo unipolar no imediato pós-Guerra Fria, pós-atentados de 11 de setembro, com guerras dispendiosas no oriente médio e com a opinião pública questionando a grande estratégia de deep engagement, os Estados Unidos, agora, assistem ao crescimento chinês, tanto na área econômica quanto militar (MONTGOMERY, 2014; MEARSHEIMER, WALT, 2016). De acordo com Montgomery, há ainda um declínio do poder econômico e da influência internacional estadunidense a partir dos anos 2000.

Outra estratégia adotada pelos Estados Unidos ao longo dos últimos cem anos tem sido o offshore balancing, definido como uma estratégia que nasceu da confiança nos EUA e do reconhecimento de suas vantagens e capacidades: “It exploits the country’s providential geographic position and recognizes the powerful incentives other states have to balance against overly powerful or ambitious neighbors” (MEARSHEIMER, WALT, 2016, p. 83). Ou, em Montgomery (2014, p. 116), “proponents of offshore balancing support a military strategy of delayed defense, which would require the United States to counter foreign threats only if local nations prove unequal to the task”. Portanto, tal estratégia consistiria em delegar a potências menores o papel de conter um possível hegemon regional. Esta estratégia, em oposição ao deep engagement, ganha força com o alto custo de guerras no Iraque e no Afeganistão, com o legado da crise de 2008 e com a ascensão da China, de acordo com Montgomery. O autor reitera que nenhum assunto parece ter maior impacto no futuro das relações internacionais do que as relações entre Estados Unidos e a China. E, para o autor, bem como para Walt e Mearsheimer (2016), a estratégia de offshore balancing parece ser a mais apropriada para os americanos lidarem com o crescimento chinês.

Como já afirmado, durante o século XX, alguns episódios marcaram o deep engagement dos EUA no resto do mundo, começando com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O conflito se desenrolou, majoritariamente, na Europa, opondo grandes potências: de um lado, França, Rússia e Reino Unido, e, do outro, Alemanha, Áustria-Hungria e Itália – com esta última mudando de lado com o início do conflito. Os Estados Unidos entraram na guerra ao lado do primeiro bloco de aliados apenas em abril de 1917, em um momento de saída da Rússia, com a concentração de forças alemãs no fronte oeste, sobrando apenas França e Reino Unido (de grandes potências) para conter os alemães, que buscavam hegemonia regional europeia. Dessa forma, os Estados Unidos apenas participaram da Primeira Guerra Mundial em um contexto onde a Rússia já não estava mais presente; Itália e Áustria-Hungria lutavam entre si; e restavam apenas duas potências combatendo a Alemanha: França e Reino Unido.

Este caso difere-se do atual momento chinês. Primeiro, não há expansão militar chinesa – não ocorre uma guerra no Leste Asiático. Segundo, ainda existem Estados fortes (em termos realistas) e que não foram derrotados em guerra na Ásia (Índia, Rússia e Japão). Além disso, os Estados Unidos possuem sistemas de alianças com países próximos, como o JUST – Tratado de segurança entre Japão e Estados Unidos –, bem como com a Austrália e a Nova Zelândia (PECEQUILO, 2012). Assim, offshore balancing é uma opção mais viável que o deep engagement, uma vez que a China não busca militarmente hegemonia regional e nenhum país da região foi derrotado militarmente, de forma a não poder formar oposição às ambições chinesas.

Duas décadas após o Tratado de Versalhes (1919), iniciou-se a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Este caso apresenta dois desdobramentos, sendo um na Europa e outro na Ásia–Pacífico. No primeiro, os Estados Unidos apresentaram um deep engagement contra a Alemanha Nazista, enquanto, no segundo, estiveram contra o Japão Imperial. De acordo com Mearsheimer (2001), os Estados Unidos mudaram o pensamento em relação à guerra após a derrota francesa (1940). Assim, começaram a ajudar, substancialmente, o Reino Unido, que sobrara sozinho na Europa para enfrentar a Alemanha nazista, entrando definitivamente na guerra apenas no ano seguinte, com os ataques do Japão – aliado da Alemanha – a Pearl Harbor (1941). A essa altura, a Alemanha já havia invadido a União Soviética, trazendo Stalin para a guerra também. Os Estados Unidos apenas entrariam na Europa em 1943, pela Itália. Posteriormente, desembarcariam no norte de França, com o fim da guerra em 1945, em favor dos aliados.

Vemos aqui uma Europa com apenas o Reino Unido – e, posteriormente, a União Soviética – para resistir à busca de hegemonia regional de Hitler. Portanto, boa parte do continente estava ou ocupado, ou aliado à Alemanha. Isso difere-se do caso atual da China, onde todos Estados da região preservam sua soberania; onde não há um conflito ocorrendo e, como citado anteriormente, onde os Estados Unidos possuem aliados. Não há uma situação de domínio iminente de boa parte dos Estados da região, como ocorreu com a Alemanha, na Europa, durante Segunda Guerra Mundial. Em relação ao Japão, com a guerra na Europa, as colônias europeias na Ásia ficaram vulneráveis ao avanço nipônico, que já dominava a península coreana e parte da China. Além disso, a União Soviética estava concentrada no seu front ocidental. O Japão, assim, aparecia como potencial hegemon na área do Leste Asiático – Pacífico, dominando territórios como as Filipinas, Indonésia e Indochina. Com a possibilidade de a União Soviética ser invadida pelos japoneses no Leste – a URSS já lutava no fronte oeste – e com o ataque japonês no Havaí (Pearl Harbor, 1941), os Estados Unidos entraram na guerra. Após várias derrotas no Pacífico e os ataques nucleares americanos, bem como uma ofensiva soviética na área dominada pelo Japão na China, o império japonês se rendeu. Para Mearsheimer (2001), essa ofensiva militar americana sobre o Pacífico se deu para impedir que o Japão conseguisse hegemonia regional. Assim, tal caso difere-se do chinês, uma vez que os territórios dessa região, na primeira metade do século XX, eram mais fragilizados que atualmente, estando a URSS lutando no oeste e com a maioria dos países citados (Filipinas, Indonésia, Indochina) sendo colônias europeias.

Logo após o término da Segunda Guerra, a Guerra Fria se iniciou, estendendo-se até o fim dos anos 1980 e início dos anos 1990. Novamente, este caso possuirá duas subdivisões, uma na Europa e outra no complexo Ásia-Pacífico. Após o fim da Segunda Guerra Mundial (1945), Estados Unidos e União Soviética surgiriam como duas superpotências globais, divergindo ideológica e economicamente (capitalismo e socialismo), o que caracterizou a Guerra Fria. Com várias guerras periféricas (Vietnã, países africanos, descolonização) indiretas, as superpotências nunca se enfrentaram diretamente. Na primeira subdivisão deste caso, os Estados Unidos mantiveram tropas na Europa Ocidental, Grécia e Turquia após a Segunda Guerra Mundial, visto que os países europeus estavam destruídos pela guerra e, provavelmente, não resistiriam aos avanços soviéticos (que possuía amplo domínio sobre o leste europeu). Assim, os EUA incentivaram a reconstrução europeia com o plano Marshall, criaram a OTAN em 1949 e, em 1953, de acordo com Mearsheimer (2001), possuíam quase quinhentos mil soldados no continente. Ao mesmo tempo, a União Soviética constituía o Pacto de Varsóvia com os países do Leste Europeu, mantendo tropas nesta parte do continente também. Vale destacar a supremacia nuclear soviética no início da Guerra Fria, na Europa. Reino Unido e França conseguiriam armamentos nucleares somente mais tarde. Portanto, os Estados Unidos realizaram um deep engagement durante a Guerra Fria, com ajuda econômica (Plano Marshall) e presença militar nos países europeus (OTAN), que eram ameaçados pela União Soviética e o Pacto de Varsóvia. Novamente, a atual situação da China não se compara com a da União Soviética na Europa durante a Guerra Fria. A China não possui alianças militares (como o Pacto de Varsóvia), não possui supremacia atômica na sua região e os Estados em seu entorno não estão recém-destruídos por uma grande guerra.

No complexo Ásia-Pacífico, de acordo com Mearsheimer (2001), a União Soviética poderia obter hegemonia regional. China e Japão estavam em ruínas após a Segunda Guerra. Reino Unido e França também não estavam em condições de proteger suas colônias na região. Assim, os EUA decidiram tentar conter a União Soviética nesta região, envolvendo-se em guerras (Coreia e Vietnã). O aspecto geopolítico da região neste período era de um Japão recuperando-se da guerra e sem exército; Coreia dividida em norte socialista e sul capitalista; China também se recuperando da guerra e passando por uma revolução socialista (1949) – aliando-se inicialmente com a União Soviética e depois aproximando-se dos EUA; Taiwan como a China Nacionalista do Kuomintang e Estados em processo de descolonização (Indochina, Indonésia e Índia). O terreno asiático era fértil para as ambições soviéticas, que eram o único Estado a possuir armas nucleares, até a China consegui-las também. Com exceção do Japão, nenhum desses países apresentava riqueza substancial. Assim, com presença militar, alianças com Japão e guerras na região (Coreia e Vietnã), os Estados Unidos realizaram um deep engagement no complexo Ásia-Pacífico. Mais uma vez, este caso se difere da China atual. Primeiro, os Estados do entorno chinês não estão destruídos por uma guerra recente – alguns até são poderosos econômica e militarmente – e a China não possui supremacia nuclear da região, com Rússia, Coreia do Norte, Índia e Paquistão possuindo armamentos nucleares.

O argumento de Montgomery (2014) e Mearsheimer e Walt (2016) de que o deep engagement não é uma opção viável para os EUA é defendido através dos exemplos históricos. Os casos apresentados diferem em diversos aspectos em relação à atual situação chinesa na região. Por conseguinte, o offshore balancing aparece como melhor opção de estratégia para os EUA na contenção do movimento ascendente chinês.


*Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe. Vinculado ao projeto de pesquisa “O que quer cada país sul-americano com a América do Sul e com os Estados Unidos? Estudo comparativo sobre identidade cooperativa dos países que compõem o Conselho de Defesa Sul-Americano”, com o plano de trabalho “A liderança brasileira no CDS e as relações entre Brasil, Argentina e Venezuela”. Bolsista COPES (IC), sob orientação da professora Érica Cristina Alexandre Winand.
** Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe.

Referências
MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. Nova Iorque: Norton, 2001.


As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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