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Dragões, Estudos Estratégicos e Game of Thrones: Entendendo a Vitória pelo Poder Aéreo

Por Antonio Henrique Lucena Silva*

O seriado Game of Thrones exibido pela HBO tem conquistado cada vez mais adeptos para acompanhar o desenrolar da sua história. Baseada na obra do romancista e roteirista George R.R. Martin “A Song of Ice and Fire” (título original em inglês), o desenrolar da história possui muitas referências ao mundo real. O paredão de gelo defendido pela Patrulha é uma inspiração na Muralha de Adriano, concluída pelos romanos no ano de 126 na Escócia para evitar a entrada dos “bárbaros”. As disputas de poder em Westeros também são baseadas nos conflitos que ocorreram na Idade Média: em 1455 estourou a Guerra das Rosas na Inglaterra. A casa York (simbolizada pela rosa branca) e a Lancaster (simbolizada pela rosa vermelha) duelaram por 30 anos. Até mesmo os nomes das principais casas na ficção Stark (York) e Lannister (Lancaster) são inspiradas na guerra que aconteceu naquela época. A importância do poder terrestre e seu uso adequado foi trabalhada pelo Prof. Augusto Teixeira no seu texto sobre a Batalha dos Bastardos.

Um elemento que atuou como game changer na disputa de poder foram os dragões da Daenarys Targaryen: eles foram fundamentais para a vitória na Batalha de Mereen. Com a sua agenda progressista, que inclui a abolição da escravatura nos seus domínios, a Filha da Tormenta foi responsável por levantar a ira dos Mestres Escravagistas que querem a manutenção do status quo e a queda de Daenerys. Por causa da sua capacidade, os dragões foram fundamentais para aniquilar com a Marinha dos mestres que estava bombardeando a cidade. Atualmente, o poder aéreo (e a sua variante, o poder aeroespacial) tem sido decisivo em conflitos armados fora da ficção.

O poder aeroespacial é um ramo recente do poder militar. Surgiu com o voo do 14 bis de Santos Dumont no início do século XX e foi se desenvolvendo ao longo dos anos. Com as mudanças tecnológicas que foram se processando ao longo do século XX, tornou-se mais difícil dizer o que é poder aeroespacial e o que é propriamente dito relativo ao “aeroespaço”. Uma dessas facetas de mudança foi o surgimento da guerra na “era da informação”. O rápido crescimento de tecnologias e técnicas relativas ao ar e espaço adicionou recentemente maiores capacidades às forças aeroespaciais. Velocidades supersônicas, capacidade de invisibilidade ao radar e rápido deslocamento de forças foram tecnologias incorporadas recentemente no campo de batalha. Os sistemas espaciais também se desenvolveram de forma rápida e melhoraram as comunicações, a previsão do tempo, a navegação, o alerta antecipado, a inteligência e o fornecimento de informações. O poder aeroespacial inclui ar, espaço e a integração do ar e do poder espacial (CHUN, 2001, p. 2). Operações no ar e espaço levaram a muitas discussões sobre os recursos, o valor, as estratégias e as ideias sobre as novas formas de guerra. O poder aeroespacial, apenas complementando o poder aéreo, é definido como:

the exploitation of the environment above Earth’s surface by aerospace vehicles or devices to conduct operations in support of national objectives […] Aerospace power is a unique form of military and commercial power that can help a country achieve numerous national objectives (idem).

 Um dos primeiros teóricos sobre estratégia aérea foi o Gen. Giulio Douhet. Douhet, oficial do exército italiano, foi influenciado pela experiência da Itália nas campanhas de bombardeio durante a Primeira Guerra Mundial. Apesar de não ser piloto, comandou um batalhão aéreo do braço aéreo do exercito italiano em 1912. Em 1921, escreveu o livro “O comando do ar”, que revisou em 1927. A tese central de Douhet é que um bombardeio planejado pode devastar uma nação e possibilitar uma guerra terrestre. O pré-requisito que o autor argumentava é que o “comando do ar” – definido atualmente como “superioridade aérea” – teria que ser atingido. Dessa forma, as aeronaves de uma nação teriam a possibilidade de atacar livremente e ainda negar o uso do espaço aéreo para a nação inimiga, que ficaria impossibilitada de realizar ataques semelhantes. Portanto, a força aérea tem que destruir ou desabilitar a capacidade da força aérea inimiga de voar para que a força aérea atacante tenha acesso livre e relativamente seguro a alvos a serem bombardeados. Para Douhet (idem, p. 39), atacar aeronaves ainda em terra seria a forma de controlar o ar.

As forças navais e terrestres são necessárias para a guerra, porque o território tem que ser ocupado pelo exército, e o mar ou as linhas marítimas têm que ser controladas pela marinha. A primazia das forças terrestres e marítimas começou a modificar quando o poder aéreo tomou forma. De acordo com o Douhet (ibidem), só uma força aérea adequada é capaz de destruir uma força aérea inimiga sem a ajuda dos outros dois ramos das forças armadas. Antes de uma nação conduzir operações, ela precisa ganhar o “comando do ar”. A obtenção dessa fase inicial é enfatizada por Douhet como a primeira linha da defesa nacional. Ao controlar o ar, um Estado pode atacar e bombardear os centros vitais do inimigo como governo, indústria e população (idem, p. 40).

Retardar a habilidade de uma nação empreender a guerra é vital, para isso Douhet não fazia a distinção entre combatentes e não combatentes. Como foi visto na Primeira Guerra Mundial, a mobilização total da população, economia, indústria e sociedade tornaram difícil a discriminação entre um soldado no front, um trabalhador produzindo armas em uma fábrica ou um banqueiro financiando o esforço de guerra. Douhet também fazia uma ligação entre a moral dos civis e a mobilização para a guerra. Por isso é que o primeiro teórico do poder aéreo vai ser o advogado dos bombardeios aos civis. Bombardear civis era enfatizado por Douhet, porque levaria a moral do povo ao declínio e forçaria o seu povo a capitular, podendo ser utilizado para esse fim a utilização de bombas incendiárias, explosivas e de gás (ibidem).

As ideias e concepções de Douhet foram desenvolvidas no âmbito da Primeira Guerra Mundial, quando, em julho de 1916, a Grã-Bretanha perdia 20,000 soldados e outros 40,000 ficariam feridos na Batalha de Somme. A Batalha de Verdun terminaria com 377,000 franceses e 337,000 alemães mortos. Para ele, o bombardeio a cidades com civis, mesmo sendo civis, seria algo mais humano do que a carnificina nas trincheiras.

A teoria do poder aéreo de Douhet pode ser resumida na sua seguinte afirmação: “To conquer the command of the air means victory: to be beaten in the air means defeat and acceptance of whatever terms the enemy may be pleased to impose” (idem, p. 43). O emprego de bombardeio aéreo durante as campanhas da Primeira e Segunda Guerra Mundiais foi utilizado tanto pelos aliados como pelos países do Eixo. A batalha da Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra entre a Royal Air Force e Luftwaffe deixou um saldo de destruição entre a infraestrutura militar e civil do país. O período conhecido como “The Blitz” teve como principal alvo a população civil inglesa. O bombardeio a depósitos de alimentos durante o cerco à cidade de Leningrado, que durou mais de 800 dias, teve como resultado dos bombardeios aéreos e da fome, a morte de 1,500,000 (um milhão e quinhentos mil) civis soviéticos. A RAF lançou 1,182 artefatos com alto poder de explosão, utilizando 796 bombardeiros Lancaster e, no dia seguinte, a USAAF lançou 771 toneladas de bombas e incendiou toda a cidade de Dresden na Alemanha no final da guerra, com um saldo de 50,000 civis mortos[1]. Os americanos, ao realizaram bombardeio incendiário sobre Tóquio, destruíram mais de 70% da cidade e, em uma noite, 100,000 civis morreram[2]. Atualmente, a ideia de bombardear civis é considerada repugnante, mas foi adotado o pensamento de que uma força aérea independente deve atacar alvos de significância nacional.

Ao longo do século XX, as operações aéreas continuaram sendo parte fundamental das Guerras travadas. Atualmente, as operações aéreas continuam sendo fundamentais para as vitórias militares, mas elas têm mudado devido à emergência de novas formas de combate, como guerras assimétricas[3]. A indústria aeroespacial é a que mais recebe recursos para o seu desenvolvimento, não apenas devido à sua importância estratégica, mas também pelos transbordamentos que pode trazer para a economia através de tecnologias duais. Na Guerra Civil Síria, por exemplo, a atuação das Forças Aeroespaciais da Rússia alterou a balança de poder do conflito a favor de Bashar Al-Assad.

Voltando para a ficção, tudo indica que os dragões Viserion, Rhaengal e Drogon terão uma participação importante na sétima temporada. Como eles cresceram ao longo do tempo, a informação que se tem é de que eles terão o tamanho de um Boeing 767, ou seja, 76 metros de comprimento com uma envergadura de 64 metros. Especula-se que os dragões terão uma importância estratégica em uma possível batalha contra os White Walkers já que o seu avanço pode ser freado com fogo. Resta saber se os rumores se confirmarão na nova temporada que começa em 16 de julho de 2017. Dracarys!


* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor de Relações Internacionais da Faculdade Damas da Instrução Cristã. Atua na área de Segurança Internacional, Estudos Estratégicos e Política Internacional. E-mail para contato: antoniohenriquels@gmail.com.

[1] Tal bombardeio foi questionado por Michael Walzer em “Guerras justas e injustas: Uma argumentação moral com exemplos históricos”.
[2] Dados obtidos no documentário “Fog of War: Eleven Lessons from de life of Robert S. McNamara”, 2003.
[3] A Guerra Assimétrica é aquela em que um oponente se encontra muito inferiorizado em termos de forças. É uma forma de violência devido ao desbalanceamento de forças.

Referências
CHUN, Clayton K. S. Aerospace Power in the Twenty-First Century: A Basic Primer. Colorado, Alabama: Air University Press, 2001.


As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autora e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todas as suas colaboradoras.

One Comment

  • Monica Costa

    Obrigado pelo post, muito bom. Ninguém pode negar definitivamente o sucesso do GOT HBO , estou surpreso toda a produção por trás da série. No começo eu não estava convencido de que ela, mas como a história progrediu, eu realmente se tornou um fã. Ancho que esta nova temporada é muito emocionante. Sucesso está assegurado. Eu amo o elenco.

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