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Política Externa Americana e Segurança Internacional (Parte II) : contenção da China


O Cenário Asiático: uma delicada relação com a China
Em período mais recente a imagem dos EUA na Ásia tem passado por um grande desgaste diante da ascensão da China. O país hegemônico é acusado de não se fazer presente em termos militares na região para garantir importantes aliados como  o Japão, a Coréia do Sul e Taiwan contra os perigos representados pelas ambições chinesas e pelo programa nuclear norte-coreano. Até mesmo países historicamente alinhados com os EUA como as Filipinas mostram um incomum anti-americanismo. Contudo, antes de pensar em lidar com as Filipinas, o novo presidente precisará  definir as linhas diretivas da política externa americana para a China.

Trump precisa promover uma cuidadosa avaliação (assumindo que alguém com tal personalidade possa de fato fazer algo cuidadosamente) e estabelecer a postura dos EUA para o melindroso sistema asiático. Qualquer ação estratégica na área do comércio internacional e principalmente no campo da segurança  com Japão, Taiwan, as Filipinas, Indonésia (maior pais muçulmano do mundo central para o combate ao neo terrorismo islâmico), Coreia do Sul ou qualquer outro país da região precisaram ser pensados dentro de um complexo xadrez estratégico que passa necessariamente pelos interesses da China como potência global emergente. O gigante confucionista entende tem essa parte do mundo como o espaço natural para a projeção de seu poder e influência.

 Comercializando com a China e Contendo o Gigante Asiático
Pequim é o maior credor de Washington e, em meados de 2015, somava 1,47 bilhões de dólares (1,30 bilhões de euros) em títulos do tesouro norte-americano. Esse é um dado importante da economia globalizada. Mais do que isso, as múltiplas conexões que existem entre as duas maiores economias do mundo colocam impeditivos severos para o exercício irrestrito do unilateralismo. Seria bastante razoável esperar que, no que tange à China, o populismo do magnata não resista aos benefícios do comércio bilateral e que a etiqueta “Made in China” continue  onipresente. Desprezar a dimensão do comércio sino-americano é simplesmente impossível. Os mercados dos EUA e da China dependem fortemente um do outro. Um grande abalo nas trocas comerciais entre os dois países seria uma catástrofe para economia internacional. A China tinha um grande superávit comercial com os Estados Unidos, totalizando US$ 30 bilhões por mês em 2016, segundo dados americanos. Porém, a China também atravessa um processo de transição econômica, reduzindo seu crescimento. Uma queda das exportações para os EUA aumentaria a vulnerabilidade do dragão asiático. Destarte,  os fatos se impõe a qualquer ideologia e Pequim é bastante pragmática nesse sentido.

Todavia, conforme ensina a experiência histórica, vínculos comerciais não são apenas um fator de concordância. São também o nascedouro de profundas divergências. Assim,  a eclosão de conflitos entre os dois países não pode ser descartada. O  nacionalismo econômico do novo governo americano tenderá a ser uma potencial fonte de divergência entre os dois países, já que Trump procurará concretizar as suas propostas de reativação da produção americana. Muito embora as relações sino-americanas sejam muito institucionalizadas, o governo Trump tenderá a promover um misto de preservação do comércio e estratégia de contenção com a China.

Em conferência recentemente proferida na Rússia, John Mearsheimer explicou didaticamente as razões pelas quais os EUA enquanto potência hegemônica não pode se dar ao luxo de permitir que a China exporte seu poder em larga escala para muito além do extremo Oriente. De modo semelhante a Reagan, que evitou comprometer os EUA diretamente em maiores conflitos enquanto fortaleceu seus aliados, Trump poderá pluralizar a segurança na Ásia Pacífico, fazendo com que a China precise se ocupar sempre com a região e não exporte suas capacidades  maciçamente para outros teatros geopolíticos, tais como a África e o Oriente Médio.

Trump, o secretário Tillerson e seus assessores tenderão a se mover rapidamente para esclarecer sua abordagem na  Ásia-Pacífico. Sendo um outsider, Trump não tem um histórico de como ele vê os interesses dos EUA na região. Observadores estrangeiros seguiram naturalmente a retórica de sua campanha de perto para esclarecer os insights sobre que tipos de política ele poderia seguir agora que está no cargo. Ao passo que é impossível deixar de contar com o expressivo comércio entre os dois países, isso não impede que Trump forneça suporte ao Japão, a Taiwan e a Coreia do Sul para contrabalancear as forças em presença da Ásia.

Coréia do Norte, Taiwan e Japão
Um bom indicativo do que poderá acontecer será conhecido assim que o novo governo deixar mais clara qual será sua postura com relação ao caso coreano e a Taiwan. Trump encontra uma Coreia do Norte a caminho de se tornar uma potência nuclear capaz de atacar com mísseis atômicos. Atualmente, a política dos EUA para o país comunista é uma mescla de sanções e promessas de negociações caso Pyongyang  abandone seu programa nuclear. Esta política, entretanto, não surtiu efeito e não deve funcionar. Pressionar o regime para abandonar suas armas nucleares é uma causa praticamente perdida. A Coreea do Norte não abrirá mão de seu único meio de barganha. Assim, é bastante razoável acreditar que o melhor que os EUA poderiam esperar sob Trump, seria uma restrição do potencial nuclear da Coréia do Norte.

Trump sugeriu uma abordagem mais agressiva. O republicano quer que a China exerça “controle total” sobre a Coreia do Norte, ou fará com que “as negociações comerciais fiquem  muito difíceis para Pequim”, caso os problemas não sejam resolvidos.

Quebrando décadas de protocolo, depois de eleito, Trump ligou diretamente para a presidente de Taiwan Tsai Ing-wen e reafirmou as relações bilaterais entre os dois países. A delegação da ilha, considerada uma província rebelde pela China, esteve presente na posse de Trump, mostrando que o novo governo não só continuará a reconhecer a autonomia taiwanesa, como também tenderá a apoiar esse parceiro economicamente e no campo da defesa, “prendendo” mais a China à região para evitar, como disse Mearsheimer,  que “ela possa andar livremente por aí”.

Por fim, mas não menos importante, Trump afirmou ainda que estaria “totalmente aberto” a um eventual programa atômico militar do Japão, provocando temores de uma proliferação nuclear ou a intensificação de uma corrida armamentista no leste asiático. O primeiro ministro  japonês Shinzo Abi será o segundo líder aliado a visitar a Casa Branca depois da posse de Trump (a primeira foi a britânica Theresa May). O novo governo parece muito mais receptivo  à necessidade do parceiro  de se precaver contra a China de modo mais efetivo. O que implicaria em última instância, se não em um reforço da presença militar dos EUA no Mar do Japão, ao menos em um redimensionamento da cooperação em defesa entre os dois países. Um Japão armado nuclearmente (contrariando as restrições impostas depois da II Guerra Mundial), ou mesmo o rearmamento convencional nipônico opõe-se fortemente aos interesses da China, que não gostaria de ver seu histórico inimigo dotado de tamanho poderio militar. Em todo caso, o objetivo americano deverá ser o mesmo: conter a china enquanto comercializa com ela, em um equilíbrio tenso que parece dizer: “negócios,  negócios, hegemonia à parte”. Esse processo mal começou. Trump tem menos de um mês de governo. Ainda há muito por vir. Por tudo que o mundo testemunhou atônito em 2016, seria demasiado arriscado dizer que alguém sabe exatamente o que esperar.

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* Doutor em Ciência Política (UFPE). Membro do Núcleo de Estudos Sobre Política Comparada e Política Internacional (NEPI-UFPE). Professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: análise de política externa, política externa brasileira, integração regional e organizações políticas internacionais.

Referências

MEARSHEIMER, John J. The tragedy of great power politics. New York:  WW Norton & Company, 2001.

WALTZ, Kenneth N. Theory of international politics. Long Grove: Waveland Press, 2010.

ZHAO, Suisheng et al. Chinese foreign policy: Pragmatism and strategic behavior. New York: Routledge, 2016.

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