Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Política Externa Americana e Segurança Internacional (Parte I): balança de poder Com a Rússia?

Por Elton Gomes dos Reis*

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Contrariando todas as pesquisas o magnata Donald Trump chegou à Casa Branca. A postura do novo governo americano com relação à segurança na Europa e na Ásia é alvo de profundo interesse e preocupação da comunidade internacional.  A política de projeção de poder da Rússia de Putin e o chamado pivô asiático se colocam como temas da mais alta relevância para Washington.

Depois de iniciada a gestão, os analistas afirmam que é bastante razoável acreditar que boa parte das promessas de campanha de Trump não possam ser efetivamente cumpridas por não serem factíveis em termos políticos e econômicos[1]. Apesar disso, por tudo o que pôde ser visto durante o tenso processo eleitoral, em nenhuma outra área Donald Trump teve uma opinião tão diferente da política dos Estados Unidos nas últimas décadas como no seu posicionamento a respeito de parcerias estratégicas e da segurança internacional.

A Pluralização da Arquitetura de Segurança Para Europa e a Formação de uma Nova Detente
No que diz respeito a situação da segurança europeia, o republicano teceu duras críticas à OTAN,  afirmando que aliança militar do ocidente criada  1948, é uma “relíquia da Guerra Fria” ultrapassada e obsoleta. O bilionário também taxou de aliados “ingratos” alguns países membros da organização que, segundo ele, tiram proveito da “grandeza” americana, agindo como free riders no guarda chuva de proteção militar fornecido pela superpotência. O novo presidente  diz que os Estados Unidos não podem mais arcar com os custos da proteção de países da Europa – e da Ásia como se discutirá no próximo texto – sem que os EUA recebam uma compensação adequada. Trump chegou mesmo a afirmar que retiraria as tropas americanas da organização a menos que as outras nações aumentassem sua contribuição em termos econômicos e militares.

Isso parece indicar que a política externa de Trump deverá buscar amortizar os elevados custos associados à manutenção da segurança europeia e adotar um tom mais conciliatório com a Rússia, enquanto se concentra em seu projeto político doméstico destinado a  reativar a economia nacional e gerar empregos para “Fazer a América Grande Outra Vez”. Nesse caso, França, Alemanha e o Reino Unido, mesmo fora do bloco após o BREXIT, seriam levados a dar uma maior parcela de contribuição para preservar a segurança no continente, desenvolvendo mais políticas de defesa comum e provendo mais recursos em tropas e equipamento para OTAN, reduzindo a dependência que a organização tem da logística dos EUA. Todo esse quadro ao invés de sugerir um conflito inexorável reaviva aquilo que os realistas afirmam a sete décadas: que a formação de balanças de poder é algo que se impõe na arena internacional mesmo diante da existência de um ator hegemônico.

Essa situação pode ser vista como a possibilidade de se estabelecer “uma nova detente” em face das tensões envolvendo o esforço do Kremlin de impedir que os países do Leste sejam atraídos para a esfera de influência da União Europeia. Nesse cenário hipotético, os EUA e a Rússia dividiriam a Europa em zonas de influência mais ou menos claras, tal como fizeram durante o período da bipolaridade, seguindo a lógica realista das balanças de poder. Evidentemente, há muitas diferenças entre a geopolítica dos tempos da Guerra Fria e o cenário contemporâneo, contudo, apesar do colapso do bloco soviético, os dois superpoderosos nuclearmente armados continuam sendo guiados pela implacável lógica do poder que se coloca através do dilema de segurança.  Assim, caso Trump acene para a retomada do diálogo securitário com Putin, se abriria caminho para pensar no estabelecimento de um status quo minimante razoável para as duas potências militares. A própria escolha de Rex Tillerson, um empresário do setor petrolífero com muitas ligações na Rússia, para a pasta das relações exteriores reforça essa tendência.

O estabelecimento dessa entente seria visto por Washington e por Moscou como o patamar possibilitador para que as duas potências pudessem colaborar efetivamente no combate ao neo terrorismo islâmico no Oriente Médio e fora dele.

Dividindo a Europa em Zonas de Influência Geoestratégicas: making balance  of power again
Dentro da perspectiva acima esboçada para a restruturação de uma balança de poder entre os dois países, a Rússia ficaria distante da Europa Ocidental, aliada e parceira dos EUA,  e guardaria uma  distância  segura também de alguns e Estados do leste sensíveis para a geopolítica dos países europeus, como a Polônia. Já os EUA, por sua vez,  evitariam se imiscuir em assuntos envolvendo territórios da Europa Oriental como a Ucrânia, os países bálticos e a Chechênia vistos como zona de influência geoestratégica russa desde o período czarista. Durante sua campanha o republicano afirmou que, no atual modelo da aliança, sustentado quase totalmente pelos EUA,  membros da OTAN vistos como low profile, tais como os Estados bálticos, não poderiam contar com apoio militar norte-americano caso fossem atacados pela Rússia. Isso parece mostrar que o magnata estaria, por assim dizer, empregando o senso empresarial para pensar a segurança na região. Trump parece desejar  que seus sócios  arquem com uma parte maior do investimento em segurança e procura estabelecer um acordo com aquele que pode ser visto como o seu principal concorrente na região.

Trump e Putin Garantindo a Estabilidade?
Com isso o espalhafatoso presidente americano denota que, mesmo não sendo simpático aos russos e a Putin[2], reconhece a sua força, conferindo-lhe o devido valor estratégico. Tal cenário se coloca como uma realidade objetiva estabelecida a partir do equilíbrio de forças entre duas potências dotadas de elevadíssimo grau de poder militar convencional e detentoras de arsenais de destruição em massa que jamais deixou de existir completamente, mesmo com o fim da cortina de ferro. Existiria, por assim dizer, uma certa distribuição no mercado de poder e influência no cenário internacional como tão bem explicou Kenneth Waltz ao falar das chamadas capacidades em “Theory of International Politics”. Esse equilíbrio deveria ser preservado para que ambos os poderosos continuassem “lucrando” com a manutenção dos sistemas estáveis de manutenção do poder que Mearsheimer (2000) chama de hegemonia regional, ao invés de arriscar um enorme prejuízo com a eclosão de um conflito que ameaçaria a própria continuidade da raça humana sobre a Terra.

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* Doutor em Ciência Política (UFPE). Membro doNúcleo de Estudos em Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI-UFPE). Professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: análise de política externa, política externa brasileira, integração regional e organizações políticas internacionais.

[1] Apesar do polêmico decreto contra o recebimento de refugiados suspenso pela justiça federal americana e da reafirmação da promessa de construção de um muro na fronteira com o México ( o que ,aliás, em grande medida já existe),  a alardeada intenção de promover uma política de deportação em massa de imigrantes ilegais e outros elementos considerados nocivos, ou potenciamente perigosos como a população islâmica. Deportar 11 milhões de pessoas exigiria uma fenomenal quantidade de recursos e a instituição de um verdadeiro  Estado policial capaz de mobilizar níveis nunca vistos de violência organizada para dar caça a um população da qual depende boa parte o mercado  de serviço americano. Isso provavelmente teria um custo político e econômico insustentável para qualquer governo democrático.

[2] Mesmo tendo elogiado o líder russo publicamente em mais de uma ocasião, o republicano parece intrigado com a disposição de Putin de se impor no xadrez geoestratégico de um modo que, na sua visão, caberia aos EUA.

Referências

MEARSHEIMER, John J. The tragedy of great power politics. New York:  WW Norton & Company, 2001.

WALTZ, Kenneth N. Theory of international politics. Long Grove: Waveland Press, 2010.

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