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O arrow 3 e seus impactos na política dissuasória israelense

Por Marco Tulio Delgobbo Freitas*
Renato Prado Kloss**

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No dia 18 de janeiro de 2017, a força aérea israelense declarou que entrou em operação o seu mais novo sistema de interceptação antimísseis: o Arrow 3. Este novo sistema, propicia uma melhor performance em sua rede de defesa, baseada em multicamadas, contra mísseis balísticos.

Projetado para voar o dobro do alcance e com metade do peso do Arrow 2, este novo sistema permite a Israel a consolidação de seu sistema de defesa antimísseis, já testados e aprovados durante a Operação Iron Dome, principalmente contra os mísseis balísticos que possuem a mesma tecnologia do míssil norte-coreano BM-25 Musudan, como é o caso dos mísseis classe Shahab-3 do Irã (DAILY MAIL, 2016).

O sistema antimísseis elaborado por Israel é uma resposta para uma realidade que o Estado enfrenta desde 1991. Durante a Operação Tempestade no Deserto, forças iraquianas dispararam contra Israel 91 foguetes Scuds em direção à Tel Aviv e Haifa, e as baterias Patriots – disponibilizadas pelos Estados Unidos- não foram capazes de defender a população israelense.

O fato é que para os políticos e militares israelenses, a ameaça cotidiana de serem alvos de foguetes lançados por seus inimigos, sejam eles convencionais ou não, impulsiona a busca por um sistema de defesa mais preciso, o que pode consolidar uma perspectiva mais defensiva de sua segurança e também pode trazer impactos na política de dissuasão israelense.

Tradicionalmente, a política de dissuasão israelense está ancorada naquilo que Rid (2009) chamou de “excepcionalismo israelense”. De forma sucinta, este termo é composto por meio da relação entre o conceito de sobrevivência, o cenário doméstico do campo de batalha e a profundidade estratégica provocada pela extensão do país (RID; HECKER,2009).

O excepcionalismo israelense é responsável pela forma que Israel direciona as suas capacidades militares. Inicialmente, suas ações são alvo de maior cobertura de mídia internacional, o que resulta que suas ações sejam alvo de propaganda da mídia árabe. O público israelense, em nome da sobrevivência, tolera o uso de força desproporcional contra atores não estatais; além disto, também há uma tolerância quanto ao uso de assassinatos seletivos e bombas de fragmentação. Ademais, o resultado da longa duração de conflitos contra seus vizinhos árabes impossibilita qualquer direção que tenha o objetivo de apelar para as emoções dos adversários. A imagem internacional de Israel já é negativa, tornando-se inútil buscar alguma mudança. Por isso, o objetivo militar e político de Israel é a relação entre dois fenômenos: a dissuasão e as “regras do jogo”.

A dissuasão serve para Israel como modo de “educar” seus oponentes todas as vezes que estes tentam alterar a “regra do jogo”; isto é, um dos objetivos militares de Israel é mostrar que o preço por se desviar destas regras é muito alto e, caso seja feito, aqueles devem entender sobre as consequências.

Como Bunn afirma, usando os Estados Unidos como exemplo, defesas antimísseis ajudam na estratégia de dissuasão aplicadas por atores estatais.

U.S. missile defenses may help to dissuade nations that don’t yet have ballistic missiles from acquiring them. But what about nations that already have some missiles, such as North Korea and Iran? U.S. deployments may dissuade them from building more, from throwing good money after bad (BUNN, 2004; p.02).

Adiante, a adição de uma defesa antimíssil como parte de uma estratégia nacional é ancorada nas ideias propostas pelo americano Bernard Brodie.  Nelas, o autor demonstrou que a defesa de uma nação é composta de elementos de defesa ativa – com mecanismos que reduzem o número de armas inimigas usadas – e também de defesa passiva, com ações que absorvem o impacto das armas inimigas (BRODIE, 1959). O Arrow 3 se encaixa na defesa ativa preconizada por Brodie, promovendo a redução dos mísseis inimigos aterrissando em solo israelense.

O autor americano também afirmou que “the real value of one’s active defense lies, as we have suggested, in what if anything they contribute to deterring an attack” (BRODIE, 1959; p.181).  O novo sistema israelense Arrow 3 e sua capacidade de interceptar mísseis balísticos carregando armas nucleares se encaixa perfeitamente como um verdadeiro sistema de defesa ativa defendido por ele.

Deste modo, algumas perguntas se impõem: Israel perderá sua experiência ofensiva? Depositará suas fichas na confiabilidade de seu escudo antimísseis?

Inicialmente, como afirma Clausewitz (1989), a superioridade da defesa reside no fato que uma parte dos recursos não está disponível para o ataque e, por isso, está poupada dos desgastes causados pela fricção. No entanto, como aponta este autor, uma postura defensiva da guerra não necessariamente exclui iniciativas originadas de seu exército.

Como podemos observar, com a implantação deste novo sistema antimísseis, Israel irá articular uma forte postura defensiva contra o lançamento de foguetes de seus inimigos – atores convencionais ou não – com um perfil ofensivo propiciado por características resultantes da falta de uma profundidade estratégica natural e com longas fronteiras vulneráveis. Há a escolha de que os conflitos devam ser travados em território inimigo prioritariamente a partir da relação intrínseca entre seu corpo blindado e a força área (COHEN; EISENSTADT; BACEVICH, 1998).

Deste modo, à luz da teoria de guerra clausewitiziana, podemos considerar que em vez de consolidar uma postura defensiva que possa fazer com que Israel perca sua iniciativa, o sistema antimísseis contribui para aumentar os custos de seus inimigos para romper as “regras do jogo”, de modo que suas capacidades dissuasórias – tradicionalmente na perspectiva de ataque – deverão serem mantidas.

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* Marco Túlio Delgobbo Freitas é Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense, professor do Instituto Nacional de Pós-Graduação e pesquisador do GEESI (UFPB).

** Renato do Prado Kloss é Mestre em Strategic Studies pela University of Reading e Bacharel em Relações Internacionais pelo IBMEC-MG.

Referências

BRODIE, Bernard. Strategy in the Missile Age. Princeton, The Rand Corporation: Princeton University Press, 1959.

CLAUSEWITZ, Carl Von. On War. Princeton: Princeton University Press, 1989.

RID, Thomas; HECKER, Mark. War 2.0.Westport: Praeger, 2009.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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