Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Novas Guerras: o confronto urbano entre as gangues Barriga e Sujeirinha

Por Ian Rebouças Batista
Marcos Américo Vieira**

sujeirinha

Em comparação aos tempos de Clausewitz, as guerras já não são mais travadas da mesma forma. Na contemporaneidade, novos atores e novas formas de embate são identificadas, em parte, graças à modificação da estrutura do Estado. O modelo de Estado-nação, importado da Europa para suas colônias, mostra-se o embrião dos conflitos modernos. Segundo Kalevi Holsti (1991), podemos entender as causas das guerras contemporâneas ao analisarmos o nascimento dos Estados e a forma como estes passaram a ser governados. Consequentemente, grande parte dos conflitos contemporâneos é decorrente da inabilidade do Estado em manter a ordem interna e, para além disso, o monopólio da violência (KALDOR, 2013).

Dessa forma, os campos de estudo da Segurança Internacional e de Resolução Pacífica de Controvérsia tem voltado sua atenção para essas novas formas de conflito. O doméstico constitui-se assim, nas novas configurações dos conflitos modernos, âmbito de análise primordial para a compreensão das questões de segurança internacional. Neste texto, analisaremos um dos conflitos intra-estatais catalogados no site do Departamento de Pesquisa em Paz e Conflito da Universidade de Uppsala, Suécia, uma referência no estudo de Conflitos Internacionais.

O conflito entre as gangues Barriga e Sujeirinha, travado entre os anos de 1997 e 2000, na cidade de São Paulo, exemplifica um conflito contemporâneo causado pela ausência do Estado na periferia das grandes cidades brasileiras. Totalizando 45[1] mortes, o embate entre as gangues foi considerado uma das piores chacinas do estado de São Paulo à época[2]. Antes aliados, Barriga e Sujeirinha, apelidos dos dois traficantes líderes das gangues homônimas, começam uma disputa pessoal causada pelo assassinato de parentes de Sujeirinha em 1997[3]. O confronto entre as gangues chegou a expulsar moradores da favela Paraguai, na Vila Prudente, mobilizando a fuga de 390 famílias ameaçadas de terem seus barracos queimados pelos traficantes[4].

Para analisarmos de maneira completa um conflito devemos identificar cinco aspectos fundamentais (REYCHELER, 1986), sendo eles: (i) atores envolvidos, (ii) os litígios em causa, (iii) a estrutura de oportunidade, (iv) a interação estratégica e (v) a dinâmica do conflito. Esses pontos podem ser identificados no embate entre as gangues Barriga e Sujeirinha da seguinte forma: primeiramente, podemos apontar as duas gangues, Barriga e Sujeirinha, como os atores envolvidos. Nota-se, portanto, que o conflito se dá entre duas entidades não estatais.

Em seguida, ao identificar os litígios em causa, partimos do que defende Holsti (1986) sobre a não existência de causa única para ocorrência de um conflito. Para Peter Wallesteen (2002), o conflito social é uma situação no qual no mínimo de dois atores lutam para adquirir, ao mesmo tempo, um conjunto de recursos escassos. No caso em questão, além do assassinato de parentes de Sujeirinha pela gangue de Barriga, nota-se a disputa pelos pontos de tráfico nas favelas da zona leste paulistana. Para Hugh Miall (2011), é intrínseco na concepção de conflitos contemporâneos a existência múltipla de interesses, valores e crenças. Dessa forma, notamos no caso do embate entre as gangues de São Paulo a sobreposição de interesses como geradora do conflito, uma vez que antes os líderes eram, inclusive, aliados.

No terceiro aspecto, a estrutura de oportunidade que possibilitou o desencadeamento do conflito foi a precariedade da segurança pública nas zonas periféricas, o que permite a existência de situação de violência extrema pelas gangues de tráfico de drogas. O Estado, portanto, não se apresenta como detentor do monopólio da violência, o que caracteriza esse embate como um conflito contemporâneo (KALDOR, 2013).

A interação estratégica, quarto aspecto, pode ser apontada como o ato, de ambos os lados, de tentar coagir o adversário por meio de ações violentas. Segundo o delegado responsável pelo caso, José Carlos Soares, “a lógica que funciona nessas chacinas é a mesma da propaganda […] Só que, em vez de se propagandear biscoitos, propagandeia-se o terror. ‘Os indivíduos que praticam chacina querem deixar claro que são violentos. Por isso matam quem está por perto’” [5].

Por fim, a dinâmica do conflito se deu de forma de assassinatos tit-for-tat[6], ou seja, quando a baixa de uma das gangues era seguida de retaliação. Dessa forma, o jogo de xadrez nas favelas era perpetuado de maneira gradual, com sangrentas exceções a exemplo da sequência de cinco chacinas, que deixaram 23 mortos em 1999[7].

RESOLUÇÃO DO CONFLITO

Antes mesmo de apresentar a resolução do conflito específico, é preciso que se definam os conceitos de paz de Galtung (2004). Segundo o autor, há uma distinção fundamental entre os esforços para a erradicação da violência e a capacidade de contê-la em longo prazo. Desse modo, existiram dois tipos de paz: (a) paz positiva se refere às medidas tomadas a priori para evitar a insurgência de conflitos; (b) paz negativa se refere à dicotomia fundamental entre paz e guerra, ou seja, a paz na ausência da violência.

Dessa forma, no caso aqui estudado, nota-se que não houve medidas que possibilitassem a paz positiva. A displicência da polícia da cidade de São Paulo em relação às zonas periféricas foi um fator fundamental na deflagração do conflito. A resolução do embate entre as gangues se deu, contudo, por meio da implementação de medidas emergenciais de paz negativa, ou seja, com a ação direta do Estado via polícia militar.

Exemplo de como se deu o processo de resolução desse conflito é a megaoperação de nove de março de 1999, quando um contingente de 450 homens e dois helicópteros realizaram na favela de Heliópolis uma busca pelos membros das duas gangues. O relato a seguir, publicado no dia seguinte à operação, demonstra o caráter de urgência adotado pela polícia.

Após quatro horas de buscas, o saldo da operação foi de dez suspeitos detidos, além de quatro armas e pequenas porções de cocaína, maconha e crack apreendidas. A ação começou por volta de 9h e terminou às 13h. Até mesmo prédios do Cingapura foram revistados porque havia a informação de que traficantes estariam ocupando alguns apartamentos. Num barraco à beira de um córrego, policiais localizaram um ponto de tráfico. No local, havia cerca de 100 gramas de cocaína, pedras de crack, uma balança, telefone celular e álbuns de fotos. Ao perceber a aproximação dos investigadores, os ocupantes fugiram pelo córrego. No total, a polícia vistoriou 50 estabelecimentos comerciais, 120 residências e 300 pessoas.[8]

Após a operação, a favela de Heliópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, manteve-se ocupada pela polícia militar, o que possibilitou o retorno dos moradores que haviam sido deslocados pelo conflito. Ao mesmo tempo em que a presença da polícia significa o retorno do Estado àquela localidade, apresenta-se como uma medida de paz negativa, que busca somente o fim da violência.

Como apontado pelos pesquisadores da Universidade de Uppsala, a prisão dos líderes das gangues marca o fim definitivo do ciclo de violência deste conflito.

Após a corrente análise, é necessário notar a indispensabilidade de políticas voltadas para a manutenção de uma paz positiva na prevenção de novos conflitos similares. As ações policiais características da paz negativa, embora possibilitassem a resolução do conflito em questão e o restabelecimento da ordem na favela, acarreta outras problemáticas, como o modo que essa pacificação é realizada. É preciso mencionar também a estrutura social montada em torno das atividades do tráfico de drogas dentro das favelas, que age desde o aliciamento de jovens até a corrupção de representantes do Estado (classe política e força policial).

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* Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe, membro do grupo de pesquisa “Política Internacional e Processos de Integração” e bolsista PIBIC/COPES/UFS.

** Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe.

[1] Uppssala Universitet: http://ucdp.uu.se/#/nonstate/12654. Acesso em 05 de outubro de 2016.

[2] Diário do ABC: ttp://www.dgabc.com.br/Noticia/102599/preso-no-ceara-um-dos-10-bandidos-mais-procurados-no-pais. Acesso em 05 de outubro de 2016.

[3] Uppssala Universitet: http://ucdp.uu.se/#/nonstate/12654. Acesso em 05 de outubro de 2016.

[4] Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/fol/geral/guerratrafico.htm. Acesso em 05 de outubro de 2016.

[5] Folha de São Paulo. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2708200003.htm. Acesso em 7 de outubro de 2016.

[6] Uppssala Universitet: http://ucdp.uu.se/#/nonstate/12654. Acesso em 05 de outubro de 2016.

[7] Folha de São Paulo. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2708200003.htm. Acesso em 7 de outubro de 2016.

[8] Folha de São Paulo. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1003200002.htm. Acesso em 7 de outubro de 2016.

Referências

 

GALTUNG, Johan. Transcend and Transform An Introduction to Conflict Work. London: Pluto Press/Transcend, 2004

HOLSTI, Kalevi Jaakko. Peace and War: Armed Conflicts and International Order, 1648-1989. Cambridge University Press, 1991.

BARBANTI, Olympio. Gestão de Conflitos em Cadeias de Valor da Sociobiodiversidade. Estação Gráfica: Brasília, 2010.

RAMSBOTHAM, Oliver. WOODHOUSE, Tom & MIALL, Hugh. Contemporary Conflict Resolution – The prevention, management and transformation of deadly conflicts. 3rd Edition. Cambridge: Polity Press, 2011.

WALLENSTEEN, Peter. Understanding conflict resolution – War, Peace and the Global System. London Sage publications, 2002.

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