Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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A Masculinidade como Variável Explicativa da Guerra nas Relações Internacionais

Por Wemblley Lucena de Araújo*

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Tanto a masculinidade quanto a guerra são tratadas como categorias analíticas em algumas vertentes teóricas das Relações Internacionais. Ao relacionar as duas dimensões, é possível questionar como a masculinidade pode ser considerada uma variável explicativa para o entendimento da guerra. De fato, identificar a relação entre masculinidade e guerra favorece a ressignificação de diversos conceitos e pressupostos teóricos centrais às Relações Internacionais.

De modo geral, as abordagens de gênero nas Relações Internacionais habitam um subcampo das teorias consideradas pós-positivistas; assim, costumam estar distantes dos estudos tradicionais de guerra, que não têm utilizado o gênero como uma categoria essencial ao questionar suas causas. Desta forma denota-se que, embora a associação entre guerra e masculinidade seja amplamente negligenciada no mainstream da literatura das Relações Internacionais, o exercício de reinterpretação desta relação é uma necessidade aos novos estudos para a compreensão da guerra (HUTCHINGS, 2008).

A moldura tradicional do entendimento da guerra é sustentada, em boa parte, pelas substâncias conceituais fornecidas por Clausewitz (1968). De acordo com a perspectiva deste autor, a masculinidade é algo natural e inerente à guerra, não sendo, portanto, categoria de análise essencial para o entendimento do fenômeno (HUTCHINGS, 2008). Nestes termos, Clausewitz (1968) considera que as causas da guerra devem ser compreendidas a partir das forças que movem o núcleo dos poderes; ou seja, os elementos centrais que impulsionam as ações políticas a se desenvolverem na forma da guerra, como em sua famosa frase: “a guerra é a continuação da política por outros meios”.

Nos anos 1980, várias teóricas feministas se debruçaram sobre os aspectos formais e a legitimação social da guerra, e argumentaram que esta dependia de uma clara e hierarquizada distinção entre masculinidade e feminilidade. Segundo esta perspectiva, tal hierarquização limitaria a operacionalidade substancial dos conceitos e restringiria o conhecimento do papel do gênero nas causas da guerra. Assim, a dificuldade de conceber a guerra sem os atributos oriundos da masculinidade não viria simplesmente dos mecanismos pelos quais a guerra e a masculinidade atuam, mas por meio de como ambos estruturam o mundo e são institucionalizados socialmente (HUTCHINGS, 2008).

Hutchings (2008) constata que, a partir do final da década de 1990, a compreensão da guerra vem sendo ressignificada nos discursos teóricos mainstream. Porém, ainda não é dada muita importância às questões de gênero, sendo um dos novos enfoques o papel da tecnologia, por exemplo. Assim, discute três perspectivas.

A primeira, de Kaldor (1999) considera que as novas guerras não precisam ser, necessariamente, entre estados, mas são também intraestatais. Neste sentido, a questão da etnia e do conflito entre etnias seria um ponto importante. Com base nesta ideia a autora argumenta, ainda, que a delimitação entre dicotomias como paz/guerra e militar/civil, entre outras, está cada vez mais turva. Hutchings (2008) aponta que esta perspectiva traz a masculinidade como possivelmente patológica, se fora do controle. Porém, também seria a masculinidade a resposta ao barbarismo, na forma de homens racionais, no controle da violência e de suas consequências: policiais, médicos, etc. Em suma, a masculinidade passaria a promover uma estrutura inteligível e aceitável para a guerra enquanto prática social organizada, permanecendo hegemônica e firmando os interesses de grupos de elite.

A segunda perspectiva discutida pela autora é a de Coker (2002). Esta argumenta que as guerras, antes portadoras de um elemento existencialista que servia para os participantes negociarem o significado de sua própria humanidade, estariam entrando em uma fase pós-humana devido às novas tecnologias. Portanto, estariam perdendo seu significado existencial e social. Neste caso, como em Kaldor (1999), apesar de ainda estar presente uma distinção entre a violência masculina patológica e a sadia, haveria ainda a violência pós-humana descontrolada. Assim, Hutchings (2008) postula que apesar de, no contexto pós-humano proposto, o modelo hegemônico de masculinidade parecer distante, ainda é essa masculinidade que serve de parâmetro para julgar a guerra.

Por fim, a terceira perspectiva analisada, de Der Derian (2001), enfoca os impactos das novas tecnologias, em especial sobre os civis afetados diretamente e indiretamente (inclusive por meio da mídia). Aqui a masculinidade hegemônica da guerra tradicional estaria dando lugar a uma espécie de tecnomasculinidade, guiada pela informação e pela velocidade, enquanto o fator humano estaria associado com o imprevisto. Desta entidade surge um complexo substancial de possibilidades que permitem ressignificar a relação entre guerra e masculinidade.

Nesse contexto, Duncanson (2015) sugere a criação de um tecido social que permita um estágio híbrido de feminilidades e masculinidades, suavizando conceitos fixos, em modelos flexíveis de entendimentos sociais, permitindo assim a criação de relações de igualdade nos pesos de suas significações. Destas considerações, depreende-se a utilidade da relação entre masculinidade na construção do entendimento da guerra nas Relações Internacionais.

Indubitavelmente, a correlação entre a masculinidade e a guerra abre espaço para diversas discussões epistemológicas e estudos nas Relações Internacionais. Quando “pedras conceituais” estão fixas em bases que começam a se fragmentar, ergue-se no horizonte a necessidade da construção de atmosferas capazes de explicar as novas demandas que retratam as distintas realidades. De fato, a ressignificação de seus atributos e o peso das novas redefinições possibilitam a construção de consciências coletivas aptas a compreender como a masculinidade pode ser assimilada como uma variável explicativa da guerra nas Relações Internacionais.

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* Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. E-mail: wemblley.network@gmail.com

Referências

CLAUSEWITZ, C. Von. On war. New York: Penguin, 1968.

COKER, C. 2002. Waging war without warriors: The changing culture of military conflict. Boulder, CO: Lynne Rienner.

DER DERIAN, James. Virtuous war: Mapping the military-industrial-media entertainment network. Boulder, CO: Westview, 2001.

KALDOR, Mary. New and old wars: Organized violence in a global era. Cambridge, UK: Polity Press, 1999.

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