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“The Sound of the Trumpet” – Razões e significados da vitória de Donald Trump

Por Antonio Henrique Lucena Silva*

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Desde quando começaram as disputas pelas primárias nos Estados Unidos, muitos analistas viam com certo desdém a candidatura do bilionário americano Donald Trump. Na medida em que a corrida para a nomeação foi avançando, os rivais do empresário não conseguiam romper com a onda que se formou em torno da sua candidatura. Políticos experientes do Partido Republicano, como Ted Cruz, não conseguiram se estabelecer. A retórica agressiva de Trump ficou evidente e, ao contrário do que muitos acreditavam, o ataque aos adversários não fragilizaram a sua campanha. Mesmo com um discurso muitas vezes misógino e racista, Donald Trump foi conquistando adeptos. Do lado Democrata, Hillary Clinton se surpreendeu com um candidato que corria por fora, bastante crítico das vicissitudes da política tradicional e que passou a entusiasmar o eleitorado, principalmente o jovem: Bernie Sanders. No final das contas, a ex-primeira dama dos Estados Unidos conseguiu atingir o número de delegados necessários para a sua nomeação.

Com os candidatos definidos, muitos republicanos temiam perder de maneira vexatória no colégio eleitoral para a candidata democrata. A campanha de Donald Trump foi marcada por escândalos, declarações polêmicas e perda de apoio de lideranças republicanas. O que para muitos seria improvável aconteceu: o magnata conseguiu a vitória no colégio eleitoral, mesmo tendo perdido no voto popular, e conquistou a tão cobiçada cadeira na Casa Branca. Como essa vitória de Trump pode ser interpretada? Quais os significados dela?

Havia uma “esperança” que o “normal” com a Hillary Clinton poderia vencer. Ao que parece, essa foi uma eleição dos candidatos anti-establishmet. Algumas pesquisas indicavam que, caso Bernie Sanders fosse o candidato democrata, ele poderia ter vencido o Donald Trump. Os eleitores brancos compareceram em massa para votar em Trump. Clinton não conseguiu o mesmo entusiasmo com os seus eleitores. A não mobilização dos eleitores jovens, devido ao seu baixo comparecimento, terminou sendo fatal para a candidata. Podemos argumentar que foi a vitória do populismo de direita, do isolacionismo antiglobalização, do nacionalismo protecionista. Consagra essa tendência que vai deste o Brexit, passando pelo “não” colombiano ao processo de paz até as mudanças de governo pela América Latina. Estamos vivenciando uma crise do capitalismo democrático que favorece a ascensão de políticos anti-establishment. A população mundial demonstra uma descrença nos políticos tradicionais e têm apostado nos famosos outsiders, seriam eles os preferidos porque não estariam sujos com a política dos profissionais.

A globalização é golpeada dentro de suas matrizes históricas – excluídos dentro dos EUA e do Reino Unido -, e não dos excluídos da periferia, como pensou a esquerda. Um movimento de rejeição vitorioso, mas frágil, por ser insustentável, porque gera países fraturados cuja conciliação é difícil. Muitas incertezas no mercado afloram, assim como na política. O site de transição do presidente eleito Donald Trump já está no ar. De acordo com as informações do home page, vários acordos devem ser revistos. A parceria transpacífica, o Nafta e as negociações com a Europa serão afetadas. América Latina e Brasil terão que se adaptar a esse cenário negativo, potencialmente hostil, inclusive verbal e militarmente. America first: o retraimento da potência hegemônica cerceia o destino manifesto dos EUA, favorece o multipolarismo e as disputas nacionais, e enfraquece o multilateralismo. A mudança de época que foi tratada por Christopher Layne em The unipolar illusion (cuja polaridade tende a ser bipolar ou multipolar, a unipolaridade seria apenas uma transição) retoma o debate da abertura de portas para uma nova fase multipolar. Resta ver até que ponto o candidato manterá o mesmo comportamento como presidente instituído: o Trump presidente pode não ser o mesmo Trump da época das eleições.

Essa também foi uma derrota dos intelectuais (ou de um movimento) que se julgam intelectualmente superiores a uma camada da população que está exaurida economicamente, assim como cansada da política tradicional, e, ao que parece, não consegue ser compreendida pela insensibilidade dos analistas. No início dos anos 2000 a população da América Latina e de outras regiões votaram em partidos classificados de esquerda, em grande medida como uma reação pelo fracasso do neoliberalismo, assim como as constantes crises que ocorreram nos anos 1990. Boa parte da esquerda que ascendeu nessa época perdeu a sintonia do discurso com a população. Essa insensibilidade custou caro, eleitoralmente, aos grupos que acreditam que sua ideologia é melhor que a dos outros e devem ser seguidos, pois constituem uma vanguarda iluminada que sabe onde a massa deve chegar. Ao que parece, “as massas” possuem seus próprios interesses, anseios e desejos que não estão sendo contemplados por esse grupo. Isso termina favorecendo a ascensão de políticos populistas, em grande medida de direita, que conseguiram auferir melhor o sentimento de insatisfação com o sistema.

Sabe aquele do “não passarão”? Passaram… E não apenas passaram, atropelaram.

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* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor de Relações Internacionais da Faculdade Damas da Instrução Cristã. Atua na área de Segurança Internacional, Estudos Estratégicos e Política Internacional. E-mail para contato: antoniohenriquels@gmail.com.

 

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