Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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O Presidente Trump

Por Thales Castro*

trump

A poucos dias das eleições americanas, é necessário que separemos bem as análises frias e objetivas da ciência política dos desejos subjetivos pessoais para esse pleito eleitoral (wishful thinking). Agora não poderia ser diferente. É momento de reflexão pontiaguda diante do cenário acirrado e complexo que se desenha nos EUA.

O título deste ensaio já é bastante provocador e revela a preocupante tendência que se consolida diante do eleitor médio daquele país. De acordo com fatos recentes, observamos que há sim a possibilidade (bastante plausível) de os EUA terem Trump como presidente, com sua ultrapassagem de Hillary materializada na arrancada na reta final desta agressiva campanha. Vejamos cinco razões explicativas para tais evidências:

1. Em termos históricos e antropológicos, a nação norte-americana tem grande apreço ao empreendedorismo, à inovação e ao êxito empresarial como catalisador de dias melhores e Trump melhor se capitaliza e mais eficientemente retrata essa ambição social no imaginário coletivo, derrotando a cultura do “loser” muito forte lá naquelas terras;

2. Observa-se, de forma impactante, a força crescente da direita conservadora em todo o mundo, o que respaldaria o discurso e as práticas de Trump, depois de várias promessas falidas da esquerda ufanista que, em muitos países, não conseguiu atender às elevadas demandas de expectativa;

3. A cultura (muitos diriam “ditatorial”) do politicamente correto está acarretando situação de saturação insuportável na sociedade americana hoje. Trump, entendendo essa dinâmica, ataca, com ferocidade, e toma proveito deste momento, representando a antítese do politicamente correto, numa forma de catarse social. Neste sentido, a eleição de Trump traria um forte golpe à cultura do politicamente correto nos EUA, piorando as relações raciais (já muito conturbadas) com impactos em vários países;

4. Trump projeta-se como líder forte (neoconservador), como gestor eficiente e como homem de negócios e de resultados concretos, manipulando, de maneira nada sutil, tais elementos psico-emocionais e arquetípicos para uma sociedade que está, comodamente, embriagando-se com o conceito de “pós-verdade”, isto é, não importa mais tanto a própria verdade em si, mas sim a manipulação da forma como único contexto viável de comunicação e transmissão das ideias;

5. Em uma sociedade globalizada e plural, Trump consegue melhor vender as propostas econômicas para o país, baseadas no populismo direitista, no nacionalismo infantilizado e no anacronismo. Tal plano econômico consiste em enaltecer a verve comercial norte americana que vem perdendo sua competitividade para outros países emergentes hoje.

Por consequência, embora o voto negro e latino não vá para Trump, o voto masculino branco médio (ser acoado, moralista e reprimido) em estados fundamentais cresce para o Republicano. Os chamados “swing states” já não apresentam, para completar esse quadro, uma favordade plena para Hillary, que, após a nova investigação do FBI, perde ainda mais terreno nesta acirrada corrida eleitoral. Serão momentos críticos de um grande labirinto de inquietação generalizada. Prevejo mais: acredito que, em sendo eleito, ficará aquele gosto amargo coletivo da ressaca posterior, tal que no BREXIT de 23 de junho e na vitória do “NÃO” no referendo do processo de paz das FARCS na Colômbia recentemente. Essa ressaca irá demorar ainda muito tempo para ser curada, recrudescendo a conjuntura.

Em síntese conclusiva, portanto, teremos o cenário futuro bastante sombrio, aumentando as incertezas de uma sociedade americana ilhada em meio às tensões de um mundo globalizado e atemorizado por ataques terroristas. Por fim, Carlos Drummond de Andrade, desta forma, estava certíssimo, quando afirmou em seu poema: “Este é tempo de partido, tempo de homens partidos”. Espero que eu esteja errado em meio a tantas fraturas e partidos. Que o bom senso prevaleça!

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* Doutor em Ciência Política (UFPE); Mestre e Graduado em Relações Internacionais (Indiana University of Pennsylvania). Assessor Internacional e Professor da UNICAP, é Coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Damas, Cônsul de Malta em Recife e Presidente da Sociedade Consular de Pernambuco.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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