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Coerção e Responsabilidade: o cerco de Jerusalém, 72 d.C.

Por Antonio Henrique Lucena Silva*

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O cerco a cidades, ou sítio, é uma das formas mais antigas de guerra total. Civis são atacados junto com soldados, com o objetivo de atingir soldados, com muita frequência, seja nos tempos antigos ou contemporâneos. Michael Walzer (2003) no livro “Guerras Justas e Injustas: uma argumentação moral com exemplos históricos” ressalta que, no círculo fechado das muralhas, civis e soldados estão expostos a riscos. Porém, os não-combatentes têm maior probabilidade de morrer. Os soldados combatem a partir de locais defendidos ou protegidos, os civis, por outro lado, não lutam e sofrem as consequências dos embates. Via de regra eles morrem primeiro. Os cercos são comuns na história da guerra: de Leningrado, onde houve uma grande quantidade de civis mortos, passando por Sarajevo, um dos maiores da história, até chegarmos no recente sítio a Aleppo, na Síria, evidencia o drama que as populações civis enfrentam. Nesse artigo vamos abordar o cerco de Jerusalém, no ano 72 d.C. e seus elementos. Antes de iniciarmos a tratar do cerco em si, cabe uma explicação histórica sobre o desenrolar do que desencadeou a fúria romana que culminou na completa destruição de Jerusalém.

Depois de Luceio Albino, conhecido corrupto, que permaneceu em Jerusalém por dois anos enriquecendo às custas da população, veio Gessio Floro. A gestão de Floro ficou conhecida por ser turbulenta e bastante problemática e não durou muito. Gessio Floro foi o último governador romano que Jerusalém teria. Por volta do ano 64 d.C., o movimento messiânico dos zelotas tinha ganho em intensidade e, associado com o ressentimento da população, devido ao desrespeito à cultura e à religião judaica e suas tradições, o país entrou em erupção com um revolta de proporções gigantescas contra Roma. Todos os governadores romanos como Cumano, Félix, Festo, Albino e Floro tinham contribuído, de uma forma ou de outra, para que o estado das coisas se deteriorasse. Roma também tinha sua parcela de culpa pela má gestão e tributação excessiva imposta ao povo. Reza Aslan (2013) em “Zelota: A vida e a época de Jesus de Nazaré” também atribui a aristocracia judaica (liderança do Templo) uma parcela de responsabilidade pelo sentimento generalizado de injustiça e pobreza. Associado ao confisco de terras privadas, os altos níveis de desemprego, deslocamento e urbanização forçada dos camponeses, a seca e a fome que devastaram os campos da Judeia e da Galileia, qualquer provocação seria o suficiente para desencadear uma revolta.

Em maio de 66 d.C., Floro anunciou de repente que os judeus deviam a Roma 100 mil denários em impostos não pagos (ASLAN, 2013, p.78). O governador romano marchou com seu exército para o Templo de Jerusalém e invadiu a tesouraria, saqueando o dinheiro que os judeus tinham oferecido como um sacrifício a Deus. Embates se seguiram a essa medida e mulheres e crianças foram mortas, casas invadidas e Floro havia dado ordem que os soldados pudessem matar à vontade. O caos estava instalado. Agripa II foi enviado às pressas para a Cidade Santa como uma tentativa de apaziguar a situação. No telhado do palácio real, Agripa junto com sua esposa Berenice, suplicou: “Vocês vão desafiar todo o Império Romano?” (idem, p.79). Inspirados pelo zelo (do movimento zelota) que tinha ajudado os israelitas a conquistar a Terra Prometida, ajudou a também se insurgirem contra Roma.

Eleazar assumiu o controle do Templo e colocou um fim aos sacrifícios diários em nome do imperador. Essa ação foi, na prática, uma declaração independência a Roma. O resto da Judeia e da Galiléia, Edom e Pereia, assim como Samaria e as outras aldeias do vale do Mar Morto seguiram o mesmo caminho. Menahem e os outros se uniram a Eleazar e expulsaram todos os não-judeus de Jerusalém (as escrituras assim exigiam). Inexplicavelmente, Roma envia uma pequena força que é derrotada. Alguns soldados se renderam em troca de passagem segura para fora da cidade. Quando depuseram as armas e estavam saindo do reduto, os rebeldes mataram até o último soldado removendo o flagelo da ocupação romana na cidade sagrada. Era apenas uma questão de tempo para que Roma demonstrasse toda a sua fúria.

Com um exército de 60 mil homens, Vespasiano rumou à Síria e o seu filho Tito foi para o Egito convocar as legiões que estavam em Alexandria. Tito levou as suas tropas para o norte através de Edom. Vespasiano iria em direção ao sul até a Galileia. Por volta de 68 d.C. toda a Galelia, incluindo Samaria, Edom, Pereia e toda a região do Mar Morto, exceto Massada, já estavam de volta ao controle romano. O que Vespasiano queria fazer era enviar os exércitos para a Judeia e devastar a cidade sede da rebelião: Jerusalém (idem, p.85). Durante uns sete anos, a região gozou de sua independência. Na verdade, a notícia da rebelião tinha chegado rápido a Roma, mas, nesse ínterim, Vespasiano interrompeu a campanha que lançaria na Judeia porque tomou conhecimento do suicídio de Nero e foi reivindicar o trono. No verão de 70 d.C. os seus seguidores tinham tomado o controle e declarado Vespasiano imperador único. Como Roma estava em convulsão, Vespasiano quis mostrar para todo o império a sua força militar, trazer uma vitória gloriosa e incutir terror nos súditos para evitar revoltas futuras. Nesse sentido, Tito recebeu a ordem de seu pai de não poupar despesas e que marchasse para Jerusalém para terminar a rebelião dos judeus.

Em meio a divergências internas sobre o comando da cidade, ocorreram alguns embates entre as diversas forças judaicas do Templo. De uma hora para outra elas cessaram para algo que, inevitavelmente iria ocorrer: o ataque romano. No entanto, Tito não teve pressa em atacar. Ele ordenou a construção de um muro em torno de Jerusalém prendendo a todos e cortando o acesso à comida e à água. O general romano do seu acampamento no Monte das Oliveiras assistiu a cidade definhar pela fome. O relato do historiador Josephus (The Wars of the Jews) mostra como o sítio romano impactou na cidade:

A restrição à liberdade de entrar e sair da cidade tirou dos judeus toda a esperança de segurança; e a fome que agora aumentava e consumia as famílias e residências inteiras. As casas estavam cheias de mulheres e bebês mortos; e as ruas, repletas de cadáveres de velhos. E os rapazes, inchados como sombras de homens mortos, andavam pelo mercado e caíam mortos onde quer que fosse.” (in Walzer, 2003, p.274-275).

Josephus relata que Tito lamentou a morte de tantos habitantes de Jerusalém e, “erguendo as mãos aos céus… pediu a Deus que fosse testemunha de que ele não era o responsável” (idem). De acordo com o próprio Tito, a responsabilidade do massacre era dos zelotes fanáticos que tinham imposto a guerra aos judeus moderados, que de outro modo estariam dispostos a se render. De qualquer forma, a responsabilidade cai sobre os agressores porquê a recusa da rendição não transforma os civis em alvo das operações militares. É importante ressaltar que Tito tinha dado a ordem que qualquer judeu que fugisse de Jerusalém deveria ser crucificado.

A guerra terminou com a morte de milhares e atearam fogo a todo o complexo do Monte do Templo. No final, apenas cinzas e pó era o que restava do Templo de Jerusalém. Os romanos se esforçaram a limpar toda a região da Palestina e Jerusalém foi renomeada Aelia Capitolina e ficou sobre estrito controle imperial. O “Muro das Lamentações” ou Muro Ocidental (Qotel HaMa’aravi הכותל המערבי) em Israel hoje é o que restou de um muro de arrimo do complexo destruído pelo General Tito.

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* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor de Relações Internacionais da Faculdade Damas da Instrução Cristã. Atua na área de Segurança Internacional, Estudos Estratégicos e Política Internacional. E-mail para contato: antoniohenriquels@gmail.com.

Referências

ASLAN, Reza. Zelota: A vida e a época de Jesus de Nazaré. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

WALZER, Michael. Guerras Justas e Injustas: uma argumentação moral com exemplos históricos. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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