Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Feminismos e Relações Internacionais: uma generificação conceitual*

Por Murilo Mesquita**

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As teorias feministas, no campo de estudo em Relações Internacionais, se expandem desde 1990, de modo que se tornam cada vez mais evidentes. Essa proliferação se dá a partir da tentativa de romper com noções masculinizadas de conceitos centrais a esse campo de estudo, tais como Estado, segurança e guerra. Essas abordagens buscam introduzir a noção de gênero como chave-explicativa para entender as relações de poder da cena internacional (TRUE, 2005). Com esta tomada de posição, as teorias feministas, junto às abordagens pós-modernas, construtivistas e da teoria crítica, contestam o poder e a produção de conhecimento das escolas que fazem parte do mainstream teórico das Relações Internacionais (RI).

Esse mainstream teórico, ou como denominam as abordagens feministas, “malestream”, reproduz todo um processo de “generificação” que reflete a dicotomia público-privado do cenário doméstico que, por sua vez, subjuga e oprime a mulher a uma condição naturalizada de passividade. Assim, da mesma forma que “o privado é político”, o “internacional” também é (CYFER, 2010).

É nesse sentido que se busca a ampliação e aprofundamento do escopo teórico-conceitual de chaves explicativas consideradas imprescindíveis ao campo de estudo das Relações Internacionais. Com tal ampliação e aprofundamento, percebe-se, por exemplo, que (i) Estado e mercado são generificados por suposições e estruturas masculinas; (ii) política e economia são termos que perpassam uma conceitualização predominantemente masculina, que ignora as realidades das mulheres; e (iii) a falta de uma categoria analítica de gênero obscurece a construção dos papéis identitários de gênero (YOUNG, 2004).

Essa generificação ocorre em função de uma ordem masculina, na qual “a visão androcêntrica impõe-se como neutra e não tem necessidade de se enunciar em discursos que visem legitimá-la” (BOURDIEU, 2012, p. 18). Para questionar essa perspectiva, as abordagens feministas das relações internacionais

têm identificado a teoria ‘malestream’ de Relações Internacionais como um dos discursos que ajudam a perpetuar uma distorcida e parcial visão de mundo que reflete o desproporcional poder de controle e influência que o homem sustenta, ao invés da realidade social das vidas das mulheres, crianças e homens (YOUNG, 2004, p. 76).

Assim, as variáveis “mulher” e “gênero” importam na medida em que suas ausências, nas análises políticas, constituem uma problemática teórica-conceitual que reifica abordagens sem fôlego interpretativo para cenários complexos. Por isso, as abordagens feministas estão a buscar um revisionismo que permita problematizar e desnaturalizar as análises malestream das relações internacionais.

A partir disso, concebe-se o trabalho seminal de Cynthia Enloe, Bananas, Beaches and Bases, como uma interpretação generificada e, quiçá, racializada, sobre a superficial e masculinizada política mundial. Enloe trata de áreas como guerra, militarismo e segurança, a partir de uma noção crítica estrutural de gênero, que concebe a atribuição de termos como “protetor/conquistador/explorador” ao universo masculino, enquanto seus antônimos, ao mundo feminino.

Da mesma forma, o trabalho de J. Ann Tickner, segundo Young (2004) se debruça sobre o porquê do principal assunto das Relações Internacionais se configurar distante das vidas mulheres e o porquê de o mundo da política ser formado majoritariamente a partir das ausências das mulheres. Em uma concepção masculinizada e hierárquica, a mulher passa a ser observada desde uma relação de “outridade[i]”. Para Grosfoguel (2011), o “outro”, dentro dessa relação masculina e hierarquizada, representa tudo aquilo a ser combatido, invisibilizado e marginalizado.

Por sua vez, Zalewski e Parpart (apud YOUNG, 2004) investigam a constituição de temas que são tidos como representativos de homens e de mulheres, respectivamente. Exemplo cristalino dessa divisão temática pode ser vista na compreensão do que é o Estado nas RI. O Estado, compreendido como ator central nas relações internacionais, é atrelado a condições que são caracterizadas como essencialmente masculinas. Há, portanto, uma natureza masculina do Estado que referencia seu tipo de comportamento e uma lógica de causalidade que perpassa uma concepção estrutural do sistema internacional. Essa lógica masculinizada pressupõe uma relação de controle, que trata esse ator como uma unidade coerentemente unificada, na qual uma relação de subordinação e, portanto, hierárquica, é estruturada no âmbito doméstico.

Ao contrário dessa visão, as abordagens feministas expressam que a constituição estatal também está imersa numa relação generificada. Tal relação seria construída a partir de uma relação público-privada, pautada no contrato sexual, que tradicionalmente segrega as esferas políticas e econômicas à influência e domínio masculino, enquanto as esferas domésticas, da família e do social são observadas como esferas privadas, portanto, da influência e da identificação feminina (OKIN, 2008; CYFER, 2010). Nesse contexto, “a história da formação e identidade estatal é, portanto, uma das (e outras formas) opressões de gênero” (YOUNG, 2004, p. 81).

Na constituição desse Estado, desenvolvido a partir de uma noção de soberania de Jean Bodin, em que esta é unitária, indivisível e perpétua, sua constituição nuclear é a família patriarcal, referenciada como parâmetro constitutivo (LENZ, 2004). Nesse processo, a esfera pública, do homem racional, se sobrepõe à esfera privada, determinada à subjugação da mulher. Nesse sentido, pensadores radicais como John Hoffman entendem que os “Estados são uma expressão do poder patriarcal” (YOUNG, 2004, p. 83), absorvem princípios que o Estado soberano deve assumir uma conotação monolítica, hierárquica e violenta. Tal conotação é generificada e considerada masculinizada.

Assim, da mesma forma que ocorre com o conceito de Estado, as abordagens feministas aprofundam e expandem conceitos e perspectivas tradicionais das RI. Isso acarreta um ponto de vista que não se posiciona como neutro nem universal, mas que se apresenta a partir de um olhar que foi considerado insuficientemente racional para compreender as complexas relações sociais da cena internacional.

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*O termo “generificação” é um neologismo derivativo de “gênero”. Esse neologismo demarca um olhar crítico sobre a construção de conceitos atrelados a características masculinas e femininas, percebidas como inatas.

**Doutorando em Ciência Política (UFPE), Mestre e Bacharel em Relações Internacionais (UEPB), Graduado em História (UFPB), Graduando em Direito (UFPB).

[i] “Outridade” faz referência ao conceito de alteridade, no entanto, a partir de uma noção etnocêntrica. Essa noção de “outridade”, faz jus ao que chamo de “fenômeno alteritário etnocêntrico”, quando o Ocidente se coloca como autoridade de fala, através de mecanismos de dominação e opressão para classificar os mais variados atores sociais.

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