Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Month: October 2016

Coerção e Responsabilidade: o cerco de Jerusalém, 72 d.C.

Coerção e Responsabilidade: o cerco de Jerusalém, 72 d.C.

Antonio Henrique Lucena Silva
Por Antonio Henrique Lucena Silva* O cerco a cidades, ou sítio, é uma das formas mais antigas de guerra total. Civis são atacados junto com soldados, com o objetivo de atingir soldados, com muita frequência, seja nos tempos antigos ou contemporâneos. Michael Walzer (2003) no livro “Guerras Justas e Injustas: uma argumentação moral com exemplos históricos” ressalta que, no círculo fechado das muralhas, civis e soldados estão expostos a riscos. Porém, os não-combatentes têm maior probabilidade de morrer. Os soldados combatem a partir de locais defendidos ou protegidos, os civis, por outro lado, não lutam e sofrem as consequências dos embates. Via de regra eles morrem primeiro. Os cercos são comuns na história da guerra: de Leningrado, onde houve uma grande quantidade de civis mortos, pass
A biologia determina a pacificidade? Reflexões sobre o papel das mulheres na construção da paz

A biologia determina a pacificidade? Reflexões sobre o papel das mulheres na construção da paz

Jeane Silva de Freitas
Por Jeane Silva de Freitas* Segundo Fukuyama (1998), os aspectos culturais, por si só, não explicam as relações de gênero na construção da paz internacional. Para o autor, há uma base biológica explicativa que determina as posições de dominação e pacificidade entre “homens” e “mulheres”. Fukuyama chega a essa constatação a partir de observações sobre o comportamento de primatas (chimpanzés), cujas características de interação social são semelhantes a dos seres humanos. Nesse aspecto, dois fatores são preponderantes para ratificar a tese do autor: a violência e a construção de coalizações. Nessas interações, percebeu-se que as chimpanzés fêmeas não são isentas de ações violentas, porém a natureza para a construção dessas coalizões envolvem um nível maior de fatores emocionais, o que, po
O gender mainstreaming promove empoderamento feminino?

O gender mainstreaming promove empoderamento feminino?

Nayanna Sabiá de Moura
Por Nayanna Sabiá de Moura*   As questões de gênero importam e podem alterar a trajetória política internacional. Diante dessa preocupação, as Relações Internacionais passaram a incorporar paulatinamente as análises de gênero, especialmente a partir da década de 1990. No entanto, cabe pontuar que há uma distinção bastante sensível entre análise de gênero e feminismo. Esses dois conceitos não são sinônimos. A análise de gênero correlaciona a masculinidade e a feminilidade, no escopo da política internacional, mas marginaliza os efeitos causais das assimetrias de poder, geradas nesse espaço. Nas palavras de Enloe (2007, p.100, grifo nosso): Still, ‘feminist analysis’ and ‘gender analysis’ are not synonymous. They are complementary – each enhances the other – but they are not synonymo
Feminismos e Relações Internacionais: uma generificação conceitual*

Feminismos e Relações Internacionais: uma generificação conceitual*

Murilo Mesquita
Por Murilo Mesquita** As teorias feministas, no campo de estudo em Relações Internacionais, se expandem desde 1990, de modo que se tornam cada vez mais evidentes. Essa proliferação se dá a partir da tentativa de romper com noções masculinizadas de conceitos centrais a esse campo de estudo, tais como Estado, segurança e guerra. Essas abordagens buscam introduzir a noção de gênero como chave-explicativa para entender as relações de poder da cena internacional (TRUE, 2005). Com esta tomada de posição, as teorias feministas, junto às abordagens pós-modernas, construtivistas e da teoria crítica, contestam o poder e a produção de conhecimento das escolas que fazem parte do mainstream teórico das Relações Internacionais (RI). Esse mainstream teórico, ou como denominam as abordagens feministas