Publicação mensal sobre Relações Internacionais

Página inicial do VOX MAGISTER

A contenção dos indesejáveis: imigração, refugiados e a retórica do UKIP

Por Antonio Henrique Lucena Silva*
Andrya Mickaelly da Silva Santos**

imagem-27-set

Os líderes da União Europeia se reuniram nesse sábado (24/09/2016) para discutir mecanismos para frear a imigração e alternativas para a crise migratória que afeta o bloco. Longe de atingirem um consenso, os chefes de governo buscam fechar a rota de migração pelos Bálcãs, que foi o caminho para o contingente de refugiados que entraram pela Grécia querendo chegar à Alemanha. O acordo migratório firmado entre a UE e a Turquia em março deste ano diminuiu o fluxo para as ilhas gregas. A ideia da liderança europeia é de firmar outros acordos como esse com países como o Níger, Egito, Paquistão e Afeganistão. Mas e como a crise dos refugiados e da imigração se desenvolveu? Faremos uma breve análise da Guerra Civil Síria, os efeitos que ela gerou e o seu uso pela retórica populista de direita do partido United Kingdom Independence Party (UKIP).

Em março de 2011, na Síria, mais especificamente na cidade de Deraa, os protestos tomaram conta das ruas quando um jovem foi torturado e preso após pintar slogans revolucionários no muro de uma escola. Esta ação tinha ligação com o advento da Primavera Árabe. As forças de segurança de Bashar Al-Assad passaram a atacar pessoas que estavam na manifestação, ocasionando a morte de várias delas, e isso fez com que o número de manifestantes nas ruas aumentasse. As manifestações tomaram escala nacional; a população clamava pela saída do presidente Assad. Em 2012, o conflito chega com força total na capital do país, Damasco. Segundo dados da ONU, até o início do ano de 2015, cerca de 200 mil sírios foram executados pelas tropas leais ao presidente Assad e pelas forças que vão de encontro ao atual governo. Atualmente estima-se que os números passam de 300 mil. O número de desabrigados, deslocados internados e migrantes forçados ultrapassou os 11 milhões. Um número expressivo da população ainda se encontra no território por estarem em cidades sitiadas, sem conseguirem se deslocar para outra região, ou até mesmo para pedirem refúgio em outros países. Ao longo desses anos desde o início do conflito, é notório que houve uma grande fragmentação da oposição, dando origem a facções islâmicas com vínculo com a Al-Qaeda, levando a um aumento da violência. No início, os rebeldes se equipavam com armas para defender-se de ataques; depois, passaram a usar essas armas para expulsar forças estatais de determinadas regiões.

Diante dessa situação de desconstrução da Síria como estado-nação, tem-se o drama de um grupo de cerca de 4,5 milhões de pessoas que fugiram da Síria desde que a guerra teve início. O conflito provocou uma grande evasão em 2013, quando os desentendimentos se intensificaram e as cidades começaram a se deteriorar de forma drástica. Mas foi só em setembro de 2015, com a chegada de milhares de sírios na União Europeia, que o tema passou a ser tratado como problema e como causador dos debates sobre a imigração na UE.

Os partidos de extrema direita nos países da União Europeia buscaram se fortalecer, instrumentalizando os medos da população para crescer eleitoralmente, empregando a retórica anti-imigração e usando a crise migratória como principal elemento. No entanto, é questionável o discurso desses partidos, já que os grandes contingentes de refugiados sírios estão situados na   Turquia, Líbano e Jordânia, e não na Europa, como afirmam. Esses partidos nacionalistas, na Europa, têm ganhado força através de campanhas xenófobas, principalmente em países onde eram pequenos anteriormente. No entanto, embora os partidos nacionalistas sejam bem diferentes entre si, há um fator que os une: o forte posicionamento anti-imigração, mais evidente entre aqueles situados na Europa Ocidental. Em momentos de crise, a extrema-direita ressurge com força total, através do “voto de protesto” dos cidadãos, com relação ao partido que está no governo, contra a corrupção no país. O discurso anti-imigração está ancorado em uma ideologia extremista, que tratamos brevemente em artigo anterior.

Os partidos xenófobos e populistas vêm conseguindo bons resultados em alguns países europeus, o que é uma grande mudança, pois, por um bom tempo, muitos deles tinham estado quase inativos nas sociedades de que fazem parte. Este não é o regresso de uma extrema-direita clássica, mas de partidos fortemente anti-imigração e anti-islâmicos – que acabam por ser o único fator de unidade entre partidos muito diferentes entre si.

Recentemente, o mundo presenciou o Brexit, que ocorreu através de um plebiscito onde os britânicos, no dia 23 de junho, votaram para definir qual seria o rumo do Reino Unido. Diante da vitória do “Leave”, que teve amplo apoio do UKIP, a União Europeia foi colocada em uma encruzilhada. O primeiro-ministro David Cameron se viu forçado, perante o cenário político, a renunciar. A pressão pela saída do país do bloco veio de partidos eurocéticos que argumentaram que houve um crescimento da União Europeia com interferências na soberania do Reino Unido. As tensões aumentaram com a elevação da influência do partido nacionalista UKIP. Campanhas xenófobas e discursos nacionalistas foram destaque na mídia internacional, em frases como: “Você pode mostrar seu apoio para a independência e soberania do Reino Unido”; “If you Believe in Britain, Vote UKIP on May 5” (Nigel Farage MEP, UKIP Leader), que viraram slogans do partido UKIP. Quando esses nacionalistas falam na proteção de sua soberania, claramente remetem a um maior controle das fronteiras e à contenção dos fluxos migratórios para o Reino Unido. São discursos como esses que estão ganhando relevância no contexto europeu. Em época de crise na União Europeia, o partido UKIP influenciou vários cidadãos britânicos a votarem a favor da saída do Reino Unido como uma forma de preservarem sua identidade nacional, bem como o seu bem-estar social. Esse sentimento nacionalista foi amplamente visto na Inglaterra, que já é conhecida por ter uma ideologia conservadora. No entanto, essas questões foram ressaltadas pelo próprio líder do partido UKIP, Nigel Farage: os imigrantes e principalmente os refugiados foram colocados como pessoas que estavam indo para a Inglaterra para tomar dos ingleses seus empregos, colocando em risco a qualidade de vida da população e sendo um perigo para a segurança interna, por serem de origem oriental e, principalmente, por serem muçulmanos.

Essencialmente, o discurso anti-imigração do UKIP visava ressaltar a necessidade de se reestabelecer o controle das fronteiras como forma de frear o avanço desenfreado das pessoas. Na imagem que ilustra esse artigo, podemos ver o Nigel Farage, que na época ainda era o líder do UKIP, posando em frente a uns dos pôsteres que o partido espalhou pelo país. Na legenda da foto lê-se: “A União Europeia abriu as nossas fronteiras para 4.000 pessoas por semana” (em tradução livre). O discurso imagético presente de uma escada rolante subindo um penhasco é de que a imigração ocorre sem dificuldades. A barreira que seria intransponível em condições normais é facilitada pela escada rolante, que garante a entrada sem maiores problemas. Nesse sentido, a União Europeia representaria essa “facilidade” proporcionada pela escada, uma ascensão assistida.

Além das imagens, os discursos de Nigel Farage visavam elencar os problemas que a imigração trouxe para os outros países, como a Alemanha, e defender que a questão seria fundamental para que o Brexit se consolidasse.  De certa maneira, o ex-líder do partido inglês estava correto. O que ocorreu no Reino Unido, com a maioria, embora apertada, da população decidindo pela saída da União Europeia, deu munição aos partidos nacionalistas europeus. A melhor solução para a crise humanitária que a UE vive é o fim da Guerra Civil que assola a Síria. O impasse na resolução do conflito sírio mostra que o drama humanitário ainda deve persistir.

———-

* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor de Relações Internacionais da Faculdade Damas da Instrução Cristã. Atua na área de Segurança Internacional, Estudos Estratégicos e Política Internacional. E-mail para contato: antoniohenriquels@gmail.com.

** Graduanda em Relações Internacionais pela Faculdade Damas da Instrução Cristã.

——————————————————————————————————————————————————–

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *