Publicação mensal sobre Relações Internacionais

Página inicial do VOX MAGISTER

O que o seu orientador gostaria que você fizesse*

Por Antonio Henrique Lucena Silva**

Advisor

Durante a elaboração de trabalhos de conclusão de curso (TCC), ou até mesmo na pós-graduação com o mestrado ou doutorado, a relação entre orientadores e orientandos pode (e deve) ser frutífera. Em muitos casos elas se tornam associações de longa duração porque eles tendem a trabalhar conjuntamente na escrita de artigos, textos, projetos, caso o orientando resolva seguir a carreira acadêmica, seja “partial” ou “full time”, e a construção da relação com o professor seja profícua. É comum que os alunos reclamem da orientação que eles recebem. As razões são as mais variadas: ausência do orientador, e-mails não respondidos ou respondidos depois de alguns dias, o não respeito do professor pelas opções teóricas ou metodológicas que o aluno(a)/orientando(a) tomou (retomaremos esse ponto adiante), demora em analisar o texto enviado. Em suma, a lista é grande. Também é igualmente verdade que os professores tenham ponderações, muitas vezes negativas, sobre seus alunos(as) e orientandos(as) e discutam essa “relação” com os seus pares. Por outro lado, algumas atitudes comuns dos orientados causam irritação em seus professores o que pode “azedar” a forma como os dois conduzem o processo, principalmente quanto ele ou ela desenvolve um trabalho monográfico.

Digamos que o orientador(a) e o orientando(a) estão para o mundo acadêmico como um chef de cozinha está para um aprendiz de gastronomia: não importa o prato que você opte por fazer, o importante é que você siga as receitas de forma correta e tenha um bom produto final. O que o orientador(a) vai fazer é ver se você seguiu a receita correta e conseguiu harmonizar bem o conteúdo do seu texto, assim como o chef vai verificar se os ingredientes estão adequados para o prato. Obviamente, as inovações são permitidas e essa é a essência da ciência, no entanto, algumas “tentativas” podem ser equivocadas e, nesse sentido, cabe ao orientador(a) analisar e identificar se houve algum equívoco no processo. Utilizando um exemplo bem rudimentar: um aprendiz de cozinha pode inovar na arte de fazer um café, mas se ele disser que, após o café estiver pronto, ele deve ser “temperado” com sal, caberá ao chef argumentar que tal inovação pode não fazer muito sentido e alertar para as possíveis “caras feias” que alguns apreciadores do café farão ao tomá-lo.

O exemplo do chef de cozinha e o aprendiz acima pode ser transportado para o universo das Relações Internacionais. Suponhamos que um orientando resolva fazer a sua monografia utilizando a Escola Construtivista como base para o seu estudo. Não há nenhum problema nas escolas de pensamento ou análise que as pessoas optem para nortear as suas análises, seja elas quais forem. É importante que cada trabalho tenha teoria (ou a construção de pontes entre teorias). O mundo é deveras complexo e cabem muitas perspectivas para enxergá-lo. Ao escolher uma teoria é como se você estivesse dizendo com que lentes os seus óculos serão adaptados para ver o universo que o cerca. O problema existe quando há um uso inadequado da teoria. Retomemos o exemplo dado acima do aluno que optou por fazer seu trabalho de monografia com base na escola construtivista. Todas as escolas possuem alguns cânones e, no caso em apreço, a linha de pensamento construtivista ressalta mais a importância de questões como normas, valores e identidades em suas análises. Quando o problema ocorre? No desenrolar da monografia o aluno, em seu capítulo(os) analítico, passa a usar termos como “balança de ameaças”, “dilema de segurança”, “corrida armamentista” que são termos caros à Escola Realista das relações internacionais. Na parte teórica do texto o aluno não descreveu esses termos anteriormente, além de usar uma escola diferente. É nesse ponto que cabe ao orientador alertar para o aluno onde está acontecendo um equívoco, ou seja, um “café com sal”.

Fazer uma monografia é como um bolo: siga a receita adequada e o que dará o glamour dessa iguaria será o seu conteúdo. Com o que os orientadores geralmente estão preocupados no desenvolvimento do trabalho de seus orientandos? No trabalho de conclusão de curso não importa o tema, marco teórico ou metodologia que você escolha, até porque os alunos têm liberdade para isso, mas se o texto está bem “amarrado”, coeso e coerente.

Na introdução e justificativa do TCC os alunos(as) devem apresentar e contextualizar o tema, a justificativa e a relevância do trabalho para área de conhecimento. Na seção de escrita sobre a problematização e metodologia do trabalho, os objetivos, tanto o geral como os específicos, devem estar claros, além da pergunta de pesquisa estar delineada de forma satisfatória e os procedimentos metodológicos estão adequados e se encaixa para ajudar a entender o problema de pesquisa. No primeiro capítulo do TCC é onde, geralmente, os alunos apresentam o referencial teórico e bibliográfico. Nessa parte é de suma importância que sejam apresentados os elementos teóricos da área de conhecimento, assim como os termos, conceitos, estado da arte e a bibliografia pertinente ao tema. No desenvolvimento, apresente de forma suficiente as discussões, materiais e os argumentos de maneira condizente à proposta desenvolvida e realize as avaliações e argumentações necessárias para o alcance dos objetivos traçados. Na última parte do trabalho, as conclusões ou considerações finais, demonstre os resultados alcançados e sua síntese pessoal, expressando sua compreensão sobre o assunto que foi objeto do trabalho e, se possível, a sua contribuição pessoal para a área. Portanto, se todos os itens que foram elencados forem cumpridos, há uma alta probabilidade que o aluno(a) obtenha sua aprovação perante a banca examinadora.

Da perspectiva do orientador(a), que remete à afirmativa do título, algumas “obviedades” precisam ser reafirmadas. Elas trazem algumas questões que buscam fazer com que a relação orientador(a)/orientando(a) seja frutífera e exitosa. Transformando em pergunta o nosso título: o que seu orientador gostaria que você fizesse?

1) Que não minta para ele/ela. Isso parece óbvio, mas é necessário enfatizar esse ponto. Pelas mais variadas razões, é comum que os alunos mintam (são famosas as mentirinhas ou “little white lies”) sobre o andamento do texto. A relação entre alunos e professores é baseada na confiança e é muito melhor que você seja honesto. Exemplo: o aluno recebe um e-mail do professor na sexta perguntando sobre o andamento de um capítulo. Ele diz que está quase pronto e na segunda-feira o enviará. Só que, na verdade, não há capítulo nenhum. O que o aluno faz? Resolve maratonar (assim como o faz nas séries de TV) o fim de semana para entregar na segunda. Via de regra ele não consegue e diz que entrega em outra data. Mas o seu orientador, que tem pouco tempo livre, tinha se programado para analisar o seu texto na segunda. Lembre-se que ele não possui apenas você como orientando e há um número grande de textos que merecem igualmente prioridade. Ou seja, diga-lhe o real estado de coisas;

2) Que tivesse disciplina. Ter disciplina leva a outro ponto: a procrastinação. Ela é comum e atinge todas as pessoas, independente de etnia, tamanho, cor, gênero e localização espacial. Procrastinar é algo que todas as pessoas irão fazer na vida, em maior ou menor grau, seja na universidade ou fora dela. No entanto, há uma coisa que precisa ser dito sobre a procrastinação: o seu problema não deixará de existir se você não enfrentá-lo, a tendência é que ele se torne maior no futuro. A questão principal é que os alunos/alunas não buscam se disciplinar para criar uma rotina diária tanto de leituras como de escrita do trabalho monográfico. O autoconhecimento das suas capacidades e limitações é importante para que você empregue as energias necessárias no seu trabalho. Não consegue se concentrar em casa? Então vá para a biblioteca. Você sofrerá menos se der um bom encaminhamento do seu trabalho ao longo do tempo do que ter que “tirar leite de pedra” quando o prazo estiver batendo na porta. Entregar os capítulos para que o seu orientador analise com tempo garante a ele uma maior tranquilidade na leitura e considerações que serão dadas. É imperioso lembrar que ele/ela não possui apenas você como orientando/orientanda e evitar que o professor fique assoberbado de trabalho, com um curto tempo para ler os textos, é algo que os alunos devem considerar. Até porque a resposta dele pode ser a seguinte: “não tenho tempo suficiente para ler o seu texto agora e, como o prazo para entrega da versão final está próximo, apenas autorizo a sua defesa no semestre que vem”. E aí não adianta ficar com raiva do seu orientador;

3) Que você seja regular. Ninguém espera que você seja uma pessoa brilhante como Nash e Einstein, mas, até mesmo eles, foram regulares nos seus estudos. Toda pesquisa requer que os alunos tenham o mínimo de constância no seu desenvolvimento. Deixar para ler ou redigir a monografia de última hora aumenta significativamente a chance de muita coisa ruim e mal escrita ir parar no seu trabalho. Será uma tortura para seu orientador ter que ler tudo isso e demandará dele um maior esforço para corrigir as arestas, além do que foi mencionado na penúltima frase do item anterior se concretizar porque o prazo está à porta e não há mais tempo hábil para efetuar as correções necessárias;

4) Que você não seja preguiçoso. Qual orientador nunca ouviu a seguinte frase: “não tem quase nada escrito sobre isso”. Você tem certeza disso? Você não está encontrado nada sobre o tema ou está sendo desleixado na procura de textos que se alinhem com o seu tema? Atualmente, plataformas como o Google Acadêmico, Scielo, Periódicos CAPES, Journal Online Storage (JSTOR), livrarias, sebos e bibliotecas são fontes incríveis para se encontrar bibliografia pertinente ao tema. Ou seja, antes de usar essa frase para seu orientador, certifique-se que você fez uma pesquisa bibliográfica adequada. Se as fontes secundárias não estão contribuindo para o avanço da pesquisa, talvez esteja na hora de você considerar fazer algo a mais. Se há poucos dados para o que você está pesquisando, então chegou o momento em que você terá que “gerar” os seus próprios dados. Como? Por meio de pesquisas, surveys, entrevistas e recorrência a fontes primárias. O importante é não ficar parado esperando que a fada do TCC apareça e revolva os seus problemas… Até porque ela não existe e os problemas recaem sobre você mesmo;

5) Que a forma do seu trabalho esteja correta. A estrutura e a coesão do seu trabalho devem estar adequadas ao padrão ABNT, a linguagem deve ser clara e precisa e formalmente correta e as referências escritas sem erros. Quando um orientador pega um trabalho que não está bem estruturado é algo “doloroso de se ver”. Outra frase comum é que o editor de texto “não faz revisão de português”. Em primeiro lugar, a obrigação de escrever adequadamente é sua e não do programa de computador. Segundo, se parte do trabalho é escrito em casa e a outra parte fora, tenha cuidado de não fazer versões diferentes do mesmo texto. Imagina se você revisa uma versão, mas o texto não revisado é o que vai para a banca? Pois é. Evitar as críticas da banca avaliadora também deve estar nos seus planos se não quiser ser massacrado enquanto apresenta o seu TCC. Ler um trabalho desconfigurado, bagunçado e sem o uso apropriado das referências “que serão acrescentadas depois, professor, pode deixar” é difícil. Não seguir essas coisas passa uma imagem de desleixo com o seu próprio trabalho. Busque não criar essa imagem na cabeça de seu orientador;

6) Que você não fique dando desculpas “amarelas”. “O meu computador está no conserto”, “tive um problema com o meu pen drive”, são as mais variadas desculpas que contribuem para a procrastinação e também revelam indisciplina. Tudo bem se uma coisa dessas acontece uma vez ou outra, mas se ela se repete com frequência (as desculpas), aquela imagem de desleixo com o trato do seu material vai aparecer na cabeça de seu orientador como ressaltado no ponto 5. Nunca se esqueça de fazer back-up do seu texto na nuvem ou enviando para o seu e-mail. Sistemas como o Dropbox, MEGA, 4shared e outros são, em sua maioria, grátis e asseguram que momentos de desespero, caso o seu HD morra, não aconteçam. Conciliar família, atividades domésticas, problemas pessoais e outros casos “extra muros” também requerem organização. Os orientadores não são almas insensíveis que não ligam para o que se passa no foro íntimo dos seus orientandos, mas, é sempre bom relembrar, que ele/ela não possui gerência sobre isso. Caso aconteça alguma coisa, é sempre bom retomar o primeiro tópico (1).

De maneira geral, é sempre bom ter uma relação assertiva com o seu orientador. O bom professor é aquele que ajuda a pavimentar a pista para que os seus alunos alcem voos mais altos no campo do conhecimento. É o chef que ajuda a você fazer um bom prato não aquele/aquela que lhe obriga a tomar uma única direção. Caso os orientandos cumpram o que foi dito ao longo dos tópicos do texto, atendendo a todas as exigências requeridas, é bem provável que a relação orientador-orientando seja a melhor possível.

Por outro lado, como dito no primeiro parágrafo, muitas vezes a relação entre orientandos e orientador degenera porque, muitas vezes, o orientador não aceita a abordagem teórica ou metodológica de um aluno. Em outras situações, os obriga a seguir a sua linha raciocínio buscando criar “mini-mims” (como o de Austin Powers) pela universidade ou fomentando “tropas de choque” ideológicas. Nesse caso, se a autonomia científica está sendo tolhida, talvez seja a possibilidade de se mudar a orientação, seja de rumo ou de professor mesmo. Mas essa relação com “orientadores problemáticos” fica para um outro texto.

———-

* Agradeço ao Prof. Dr. Rodrigo Barros de Albuquerque pelas considerações feitas ao texto inicial.

** Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor de Relações Internacionais da Faculdade Damas da Instrução Cristã. Atua na área de Segurança Internacional, Estudos Estratégicos e Política Internacional. E-mail para contato: antoniohenriquels@gmail.com.

 

——————————————————————————————————————————————————–

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *