Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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A tentativa de Golpe de Estado na Turquia: possíveis consequências geopolíticas e estratégicas

Por Augusto Teixeira Jr.*
Marco Túlio Delgobbo Freitas**

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Na última sexta, dia 15 de julho o mundo viu aturdido a uma tentativa de Golpe de Estado na Turquia. Pouco após o início de unidades militares, por terra e ar, buscarem ocupar importantes postos de comunicação, comando e controle, o Presidente Erdogan se pronunciava para o povo daquele país chamando-o à resistir a tentativa de usurpação violenta do poder por parte de setores das Forças Armadas e grupos civis que os apoiavam. A tentativa de Putsch, rapidamente debelada ainda durante o final de semana passado por setores das Forças Armadas e polícia, traz um conjunto de indagações fundamentais para o quadro de instabilidade internacional contemporâneo. A seguir, discorremos sobre algumas delas.

Apesar de não ser um país árabe e nem possuir neste idioma o seu vernáculo, a Turquia é um dos países de tradição islâmica mais importântes da Eurásia. Não apenas por sua relevância entre as dinastias que se sucederam durante a expansão do mundo muçulmano o país exibe um perfil importante: possui uma população de maioria muçulmana, contudo, tradicionalmente o Estado é laico e o país se perfila alinhado à potências ocidentais desde a desagregação do Império Turco-Otomano. Embora não apresente o mesmo nível de robustez que outros países europeus, a Turquia foi considerada como uma democracia ainda em consolidação. Ao menos três golpes militares anteriores em sua história demonstram que a instituição Forças Armadas imbuía-se até recentemente do papel de poder moderador e fiel da balança no que tange a manter o legado da revolução liderada pelos “Jovens Turcos” na figura de Kemal Atartük.

Autores de distintas filiações teóricas como Lutwakk (2016) e Rodrik (2016) convergem ao afirmar que o país cada vez mais ruma ao autoritarismo, estando a democracia e suas instituições notavelmente ameaçadas pelo governo Erdogan. A conexão entre a fragilidade das instituições turcas e o possível colapso de sua democracia se ligam a alguns desdobramentos analisados a seguir.

O progressivo ataque ao laicismo na sociedade e Estado turco impacta não somente na transformação na relação entre indivíduos, sociedade e Estado, mas altera possivelmente a natureza do regime político. A emergência de atores políticos não submetidos ao accountability político e a cadeias de responsividade, ao invés disso justificados pela lógica da argumentação religiosa poriam em risco não só a democracia, mas o papel das Forças Armadas turcas na sociedade nacional.

A possível emergência de uma turquia islâmica pode, inclusive trazer problemas para a própria Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Uma Turquia sob a configuração acima pode trazer uma sensação de déjà vu para outro membro atlantista, a Grécia, cujo Ancara tem um histórico de tensões intra-Aliança. Não apenas Atenas, mas uma Turquia de orientação religiosa pode impulsionar rearranjos nas relações entre países de tradição católica-ortodoxa e islâmica, partícipes da OTAN e do centro e leste europeu. Uma Turquia rumando ao autoritarismo e a uma identidade religiosa poderá perder o recente apoio Europeu contra a recente tentativa de golpe, aumentando as tensões e óbices aos entendimentos entre a União Européia e Turquia. De uma certa forma, esta situação poderá afetar o recente acordo entre UE-Turquia sobre os refugiados, sendo um importante instrumento de barganha de Erdogan no contexto em que atentados terroristas aumentam em países como França e Alemanha, o tandem de uma UE fragilizada pelo recente Brexit.

Um ponto importante a ser destacado é se a tentativa de golpe seria uma reação a seu ativismo externo. Sob sua administração, a Turquia se colocou no cenário internacional de forma singular. Podemos ao menos destacar duas situações que mostram como Erdogan enxerga o papel da Turquia no cenário regional. Primeiro, ao assumir como intermediário – junto com o Brasil – em uma tentativa de resolver a questão nuclear iraniana, Ancara percebe-se como um ator capaz de oferecer soluções em relação as questões de segurança presentes na agenda internacional. Ou seja, com Erdogan, a Turquia passa a emular um papel semelhante da Alemanha de Bismark durante os acordos do Congresso de Berlim de 1903.

Entretanto, para o plano de Erdogan dar certo ele precisa que a audiência internacional o veja como um ator estabilizador da região e não é isso que ocorre. Desde o inicio da campanha aérea internacional contra o ISIS, seus parceiros atlanticistas nutrem suspeitas acerca de seu parceiro. A principal queixa era que os turcos não participavam ativamente desta campanha (The Economist, 2015). E ainda pairam as acusações que seus familiares comercializam petróleo obtido em territórios ocupados pelo ISIS (Christie-Miller, 2015).  Diante de tais perspectivas, resta a Ancara explorar sua posição geográfica para garantir seus interesses. Comportamento desempenhado desde quando era o Império Turco-Otomano.

Posicionada num ponto estratégico da massa de terra eurasiática, a Turquia é um player fundamental ao engajamento de potências tais como a Rússia, Israel, Irã e Síria. Rompida com Israel desde a crise gerada pela “Flotilha da Paz” e amargando a maior crise recente com a Rússia desde a destruição no ar de um caça russo na Síria, a Turquia logrou recentemente “normalizar” as relações com Jerusalém e Moscou. Uma das consequências desta reaproximação foi o ataque terrorista do ISIS ao aeroporto internacional de Istanbul que resultou na morte de 36 pessoas e deixou 147 feridos. Contudo, pouco se sabe como a situação pós-tentativa de golpe irá afetar o engajamento das Forças Armadas turcas aos curdos na faixa de fronteira com a Síria, com possíveis incursões em terra naquele país e atrito com forças iranianas (Guarda Revolucionária) e russas (Força Aérea).

Exatamente no momento em que os Estados Unidos visam reduzir o seu engajamento no Oriente Médio e Ásia Central e que precisa cada vez mais do engajamento da OTAN em sua política de contenção da Rússia e do Irã, a Turquia apresenta uma conjuntura política em que os custos gerenciais de uma geoestratégia atlantista talvez tenham que ser revistos. O status de membro da OTAN da Turquia não permite igualar uma condição de aliança EUA-Arábia Saudita, uma possível reorientação da política externa e do perfil doméstico turco sob Erdogan colocam desafios importantes ao gerenciamento da OTAN e o seu enquadramento na estratégia de contenção estadunidense. Em suma, o presidente Turco tem a sua frente uma fabulosa janela de oportunidade para mudanças domésticas e negociar os seus objetivos regionais. O jogo está em aberto.

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* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente é professor Adjunto do Departamento de Relações Internacionais da UFPB. Líder do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Segurança Internacional (GEESI/UFPB /CNPq). Membro da Associação Brasileira de Estudos de Defesa.

** Marco Túlio Delgobbo Freitas é Mestre e Professor do Instituto Nacional de Pós-Graduação.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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