Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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O Ato De Terror Como Estratégia De Guerra Irregular : a conduta operacional do neoterrorismo político religioso (Parte II)

Por Elton Gomes dos Reis*

Pentagon Avoids Cutting off Internet in ISIS Stronghold of Syria’s Raqqa

O último texto discorreu em linhas gerais sobre  as grandes linhas do terrorismo  enquanto estratégia de guerra assimétrica (impacto psicológico e publicização). Da mesma forma, foram discutidas as características do neoterrorismo religioso e o extensivo emprego da “propaganda pelo ato” por parte dos radicais islâmicos ocorrido em período mais recente.  No presente artigo examina-se sumariamente algumas das principais  táticas associadas ao neoterrorismo religioso e suas implicações para a segurança internacional.

As organizações que recorrem ao terrorismo como instrumento de luta não convencional foram grandemente dinamizadas pela introdução de novas tecnologias informacionais e pela redefinição de tempo e de espaço provocada pelo fenômeno da globalização. A exemplo do que se processou com organizações civis tais como corporações e empresas transnacionais, as redes terroristas são hoje caracterizadas por apresentar uma estrutura flexível e dinâmica que opera de modo autônomo, prescindindo de uma cadeia de comando tradicional. Suas operações são realizadas por células independentes e ocorrem simultaneamente em vários países, criando uma espécie de terrorismo franchising que se beneficia da  terceirização de sua logística operacional, se associando com  terroristas locais, com o crime organizado e com o tráfico de armas e de entorpecentes (VISSACRO, 2013).

Diante desse quadro, verifica-se um grande paradoxo: os grupos neoterroristas radicais islâmicos como a Al Queada e o ISIS, que apresentam um discurso tradicionalista, anti-ocidental e ultra religioso, são justamente as organizações mais versadas no emprego das novas tecnologias de comunicação, no entendimento da psicologia da pós-modernidade própria da ocidentalidade e na reciclagem de antigos meios de combate que passaram a ser empregados na atualidade com resultados devastadores. Essas organizações levaram o ato de terror a um novo patamar.  Na época em que se internacionalizou, o terrorismo buscava preferencialmente alvos de grande relevância política.  Nos anos 2000  esses grupos transformaram o terrorismo em uma busca incessante por grandes “espetáculos”, tendo deliberadamente  por alvo  grande número de civis desarmados com o objetivo de desestabilizar o governo e chocar a sociedade.

Mídia, Opinião Pública e Tomadores de Decisão

Esse trinômio assume destacada relevância para qualquer ator determinado a empregar o terrorismo como arma em um contexto de guerra assimétrica. O exame detalhado dos dois primeiros elementos permite aos combatentes irregulares definir metas psicológicas claras e  exequíveis, dimensionando o efeito pretendido pelo ataque terrorista em termos de dano físico e material de modo a sensibilizar o público alvo. Da mesma maneira, a análise do perfil das lideranças políticas; dos tomadores de decisão é parte fundamental do planejamento do ato de terror. De posse de inteligência vital a respeito da conduta dos governantes, os terroristas se tornam capazes de estabelecer os objetivos políticos de suas ações. Sabendo de antemão qual será a reação, ou ao menos possuindo uma expectativa concreta de  como a liderança do Estado reagirá ao ataque e seu impacto sobre a opinião pública, os grupos terroristas desenham suas ações para extrair o máximo ganho político possível, mesmo quando isso acarreta uma derrota militar.

Seguindo essa lógica, a Al Queada e mais recentemente o Estado Islâmico estabeleceram as linhas diretivas de suas ações de modo a gerar o maior dano psicológico e abalar a capacidade dos governos dos países atingidos. Hoje os especialistas em segurança já concordam, que os ataques do de 11 de setembro tinham por objetivo precipitar uma escalada militar dos EUA no Oriente Médio, servindo de catalizador para o Jihadismo internacional.  Tome-se ainda  por exemplo a retirada das tropas espanholas do Iraque depois dos atentados ao metrô de Madrid em 2004,  os ataques contra civis na noite boêmia de Paris em 2015 e o ataque ao aeroporto de Istambul ocorrido há algumas semanas. Essas ações foram engenhadas com dois propósitos básicos:  1) Produzir um elevado número de mortos e feridos, impactando fortemente a opinião pública e gerar o clima perene de ameaça.  2)  Provocar um enorme prejuízo político para os governos das nações atingidas, que são levadas a realizar uma reação militar convencional, mudar sua política externa, ou  levar a termo medidas de segurança que  restringem os direitos de seus próprios cidadãos.

Novas estratégias de recrutamento e divulgação: martírio de vingança e as redes sociais do terrorismo

Boa parte da luta que é travada nos campos de batalha da contemporaneidade é desenvolvida na verdade em um “não lugar”: o cyberespaço (DER DERIAN, 2002). O cyberespaço se constitui  no espaço virtual para a comunicação fornecido  pela tecnologia informacional. A internet é o principal ambiente do cyberespaço, por conta da sua popularização e sua natureza hipertextual. O cyberespaço também abrange a relação do homem com outras tecnologias dentre as quais se destacam a telefonia móvel e os aplicativos de mensagens instantâneas.

O grupo jihadista Estado Islâmico é entendido pelos especialistas como uma organização que realiza um emprego  sem precedentes do meios de comunicação  digitais. Presentemente a mídia e a comunidade de segurança nos Estados Unidos já denominam o fenômeno de “terrorismo viral”. Na vanguarda da infowar, o ISIS desenvolveu o terrorismo multimídia para viabilizar a já mencionada estratégia que combina martírio de vingança com propaganda pelo ato.  Dessa forma , os neoteroristas religiosos lançam mão de um vasto arsenal de divulgação virtual e guerra eletrônica que contrasta coma retórica reacionária do extremismo islâmico.

Todos os modernos serviços de informação são empregados extensivamente pelo grupo: troca de mensagens criptografadas por aplicativos como WhatsApp e o Telegramhashtags compartilhadas via  Twitter. “selfies jihadistas” compartilhadas  no Instagram,  vídeos em POV (poit of view), mostrando  execuções, ou ataques divulgados no YouTube e até a mesmo troca de moeda virtual (bitcoin) e em sites do gênero.Tudo aquilo que está à mão de um cidadão ordinário na sociedade de informação é utilizado pelo grupo para produzir os seus “astros encapuzados”.

Se a maneira como os atos terroristas são planejados e executados tem por objetivo passar uma mensagem para o público alvo vítima (governo e sociedade atacados) , a forma como o ISIS  usa a internet se destina a outro tipo de público: aquele que se identificam com os “mártires” , se regozijando com o triunfo das chamadas operações de vingança. Essas servem como os principais elementos de recrutamento de novos voluntários. Trata-se de uma operação de marketing dirigido que gera novos inspiradores e e novos terroristas por meio do emprego alargado da “propaganda pelo ato”.  Essa tática tem sido particularmente bem sucedida em atrair adeptos ocidentais para o grupo. O principal público dessa propaganda  são homens jovens de origem islâmica , muitas vezes nascidos na Europa e nos EUA, que se ressentem de não serem completamente aceitos por essas sociedades.

O   retorno dos franco-atiradores

O emprego de atiradores e assassinos suicidas, ou não em ataques  terroristas não é de modo algum  algo novo na história política e militar. Depois das revoluções liberais ficou claro que matar um governante não era algo  muito difícil. Alem disso, esses ataques conferiam enorme publicidade para causas políticas. Até a Primeira Guerra Mundial, houve uma verdadeira febre de atentados. O terrorismo revolucionário tornou-se parte dos movimentos anarquistas e comunistas no final do século XIX e Início do século XX.  Foram assassinados o presidente francês Sadi Carnot (1894), o rei italiano Umberto I (1900), o presidente dos Estados Unidos William MacKinley (1901) e o rei George I da Grécia (1913).

O atentado perpetrado por Gavrilo Princip, membro da organização nacionalista sérvia denominada Mão Negra, que vitimou o arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa Sofia nas ruas de Sarajevo em 1914, fornecendo o casus belis para a Primeira Guerra Mundial, é considerado o primeiro grande ato terrorista praticado por um atirador solitário.  A história é pródiga em atentados praticados por franco-atiradores. O advento das armas automáticas massificadas depois da Grande Guerra deram as organizações criminosas e aos grupos terroristas grande poder de fogo e rápida sucessão de disparo.  De modo geral,  pode-se dizer que o uso de atiradores como ferramenta sistematicamente empregada  para a perpetração de atos de terrorismo surge no Oriente Médio, na década de 1920, quando organizações paramilitares sionistas e palestinas se enfrentavam sob mandato colonial britânico.  Na primeira metade do século XX grupos nacionalistas e separatistas como o IRA, o ETA e a FLN foram exímios praticantes de assassinatos políticos feitos com armas de fogo. Logo  depois se converteram ao grande poder de destruição e aos  benefícios logísticos operacionais do ataque feito com explosivos controlado à distância.

A maior parte desse tipo de ação teve por alvo autoridades e indivíduos  comuns a serviço do Estado como policiais e militares. O neoterrorismo religioso de matriz islâmica empregou durante muito tempo a tática do suicídio com explosivos. Essa se massificou a partir dos anos 1970 no conflito árabe-israelense. Porém, o emprego de atiradores esteve sempre presente durante todo o enfrentamento, sendo empregado por insurgentes palestinos e provocando grande número de mortos e feridos em diversos casos combinados  de explosões de bombas e tiroteios.

Do ponto de vista operacional, o emprego de armas automáticas  leves como fuzis, submetralhadoras e pistolas é algo muito vantajoso para os grupos que recorrem ao terrorismo como estratégia de guerra irregular. As armas leves são de manejo rápido e de fácil transporte. Diversos líderes guerrilheiros e terroristas se esmeraram em adestrar os combatentes irregulares no emprego desse tipo de armamento.[1]

O ressurgimento dos franco-atiradores se dá em um contexto bastante peculiar. Nele tem-se a reedição de uma prática centenária com o advento dos atentados espetaculizados da sociedade de informação.  Nos seus aspectos mais fundamentais,  esse retorno é uma mistura das conhecidas potencialidades do uso de armamento leve para a produção de dano massivo com a preferência do neoterrorismo islâmico por alvos civis em ambientes lotados.  Os atentados de Paris, San Bernardino, Orlando e Istambul[2]  combinaram fogo indiscriminado contra cidadãos desarmados em locais públicos com martírio por explosivos, ou suicídio  mediante confronto a tiros com a polícia. O terrorista suicida aramado com fuzil é um meio de combate brutal, mas altamente eficaz. Diferentemente do combatente convencional, ou mesmo de um guerrilheiro que deseja sobrepujar o inimigo conservando-se, o extremista vai ao campo já certo de sua morte e considera o número de vítimas como algo que aumenta o “valor” de seu “martírio”. Trata-se de um “dead man walking”, em busca de  bater um record.

Essa “nova” modalidade de atentado tem um ambiente extremamente propício para o desenvolvimento em países nos quais, por razões culturais e, ou  garantias legais o acesso a armamentos é menos restrito. Esse é  precisamente o caso dos EUA, onde por força de legislação em vigor qualquer cidadão maior de idade tem permissão para possuir armas automáticas.  Os terroristas recrutados remotamente pelas ferramentas digitais, inspirados por ações de propaganda pelo ato  podem facilmente  se prover de armas com grande poder de fogo e cadência de tiro compradas em lojas físicas, ou encomendadas via internet. Diante disso, tudo leva a crer que novos atentados desse tipo ocorrerão naquele país. Os  ditos “lobos solitários” são um desafio ao gigantesco aparato de segurança da superpotência hegemônica. Mesmo tendo feito alguns dos maiores progressos  da história recente nas operações de contra terrorismo, os serviços de inteligência e e as agências de segurança dos Estados Unidos não tem como monitorar e se antecipar a milhares de terroristas em potencial prontos para ser acionados. O combate ao terrorismo demanda que a opinião pública e a elite governamental adquiram um conhecimento amplo a respeito do terrorismo pensado como grande fenômeno sociopolítico e estratégia de guerra irregular.

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* Bacharel em Ciências Sociais (UFPE), Mestre e Doutor em Ciência Política (UFPE). Atualmente é professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: análise de política externa, política externa brasileira, integração regional e organizações políticas internacionais.

[1] Carlos Marighella , por exemplo , em seu Manual do Guerrilheiro Urbano,  enfatiza que o correto adestramento de combatentes irregulares, portando armas leves automáticas e semi-automáticas confere aos guerrileheiros considerável poder de fogo

[2] Algo que remete ao polêmico nível “No Russian” de Call Of Duty : moedern warfere 2, no qual o jogador toma parte em um atentado terrorista feito com armas automáticas contra centenas de civis desarmados em um aeroporto.

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