Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Os novos desafios da Diplomacia

Por Israel Roberto Barnabé*

2013-11-29_diplomacy2_605

Tradicionalmente a diplomacia é exercida com exclusividade pelos membros dos Ministérios das Relações Exteriores dos países. Embaixadores, Autoridades Consulares, Ministros e Secretários formam um corpo político especial, altamente qualificado (na maioria dos casos) que tem sido o responsável único pela implementação da política externa dos países. Importante salientar a diferença entre política externa e diplomacia. Conforme afirma Moita, a política externa é o conjunto de opções de um país no que toca à sua colocação no mundo e às suas relações com os outros, enquanto a diplomacia é uma atividade através da qual se aplica a política externa. A diplomacia é instrumental face à política externa. Designamos então ‘diplomacia’ aquele conjunto de pessoas, de instituições e de práticas pelas quais se materializam as escolhas no domínio das relações internacionais, incluindo, portanto, o corpo de diplomatas, as delegações em países estrangeiros e em organizações intergovernamentais, e a rede de embaixadas, consulados e outros organismos de representação do Estado no exterior.

A moldura clássica da política externa e da diplomacia traz características próprias. O interesse nacional, no que concerne à política externa, é edificado do alto, a partir da chamada “Razão de Estado”. Em princípio, os “Homens de Estado” teriam condições ótimas de entender a sociedade, avaliar suas demandas e anseios e transformá-los em projetos de política externa. Em uma palavra: o interesse nacional de fato representaria o interesse da sociedade como um todo. Com relação à diplomacia, observa-se um distanciamento do corpo diplomático com relação à sociedade.

A complexidade do cenário internacional contemporâneo impacta o modelo clássico da diplomacia, tornando-se imperativo um repensar sobre suas esferas e sobre seus modelos de atuação.

Há que se levar em consideração, num primeiro momento, a ampliação da agenda internacional dos países. Temas que anteriormente eram discutidos e resolvidos no campo doméstico, hoje alcançam o cenário internacional e estão dentre os debates mais calientes das relações internacionais. Em um mundo onde as mudanças acontecem na velocidade da luz, a diplomacia precisa ter a agilidade necessária para tratar, com precisão e eficácia, questões de naturezas variadas que se apresentam cotidianamente.

Juntamente com a ampliação da agenda internacional, vislumbra-se o surgimento de outros atores na arena nacional e internacional com capacidade de influenciar e auxiliar o exercício da nova diplomacia. Dentre estes atores, pode-se destacar: organizações não governamentais, sindicatos, associações de classe, conglomerados empresariais, etc. Embora o Estado, o corpo diplomático formal e as instituições tradicionais continuem centrais para a prática diplomática, esses outros atores representam atualmente um novo nexo societal e sua participação na arena diplomática representa passo importante na formação da nova diplomacia.

As interações entre os agentes da diplomacia clássica e os outros atores nos remetem a um terceiro aspecto de análise sobre a nova diplomacia, a saber: os espaços nos quais o exercício diplomático se expressa. Tradicionalmente a atuação da diplomacia sempre esteve circunscrita às fronteiras dos territórios nacionais e era, também por este motivo, exercida apenas pelo corpo diplomático formal. As últimas décadas têm delineado outros tipos e outras dimensões do espaço.  A ideia de ‘cidade global’ é um exemplo claro desta nova configuração. Para além das relações entre Estados Nacionais, algumas cidades tomam as rédeas de sua inserção no cenário internacional, a partir de interesses próprios, e realizam acordos em áreas específicas com cidades ou regiões de outros países ao redor do mundo. É o caso, por exemplo, dos acordos na área de Educação celebrados entre a prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal de Relações Internacionais e Federativas, e a Região de Île-de-France, governo regional de Paris.

Outra configuração que merece destaque são as regiões propriamente ditas. Ao longo das últimas décadas constituíram-se vários processos integracionistas que resultaram na consolidação de vários blocos regionais pelo mundo. A formação destes blocos, apesar de suas características específicas e da importante atuação dos Estados, contou também com a participação de vários setores das sociedades que, portanto, influenciaram de maneira importante a implementação desta opção da política externa dos países.

De acordo com Moita, estas novas realidades espaciais (…) obrigam a rever os critérios tradicionais da representação externa dos Estados e da consequente prática dos agentes diplomáticos. O embaixador do futuro não pode ficar preso à dimensão territorial dos Estados convencionais, mas tem de se abrir a estes novos espaços, fluidos, dinâmicos, atrativos, sejam as regiões e nacionalidades no interior dos países, sejam as macro regiões transfronteiriças.

Conforme afirma Riordan,

los mensajes de la diplomacia (…) deben entrar em diálogo con un amplio espectro de actores de las sociedades civiles extranjeras. Esto requiere um enfoque más abierto, y quizá más humilde, que parta del reconocimiento de que nadie tiene el monopolio de la verdad ni de la virtud, de que otras ideas pueden ser válidas y que el resultado al que se llega tal vez difiera del mensaje que inicialmente ha querido hacerse valer. Si la finalidade es convencer, más que vencer, y el proceso há de tener credibilidad, el diálogo debe ser autêntico sin abandonar los valores fundamentales. La finalidad sigue siendo convencer a otros públicos de su validez. Pero el esfuerzo de convencer se incluye em um contexto de escuchar.

Resumidamente, os aspectos apresentados mostram algumas transformações pelas quais a diplomacia tem passado nos últimos anos. Ou seja, uma nova configuração mundial, caracterizada por uma agenda abrangente e construída por atores diversos em espaços multifacetados exige uma reestruturação da prática diplomática.

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* Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. Membro do “Regional Integration Research Group” (Institute of Latin American Studies, Stockholm University). Líder do grupo de pesquisa no CNPq “Política Internacional e Processos de Integração”. Professor Adjunto IV do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe e pesquisador do CEI/UFS e do NEPI/UFPE.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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