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O Reino em xeque: do Brexit à turbulência política

Por Rodrigo Barros de Albuquerque*

 

EU UK union

Em postagem anterior, refleti brevemente sobre alguns pontos importantes decorrentes da recente decisão do Reino Unido pela saída da União Europeia, prometendo exame mais cuidadoso a posteriori. Neste, analisarei a questão da  possibilidade de fragmentação do Reino Unido e as primeiras notícias sobre como isto tem sido abordado à luz dos recentes acontecimentos.

A turbulência interna ao Reino Unido, como era de se esperar, começou na própria manhã da sexta-feira, quando da divulgação do resultado do referendo. A S&P anunciou a mudança do status de risco de investimentos do Reino Unido para os próximos dias, caso o referendo aprovasse a saída da União Europeia. Como era a única instituição de análise de crédito e risco que ainda mantinha o AAA para o Reino Unido, podemos esperar redução dos investimentos direcionados ao Reino Unido nos próximos meses. Do mesmo modo, as bolsas já sentiram o impacto do Brexit, com quedas acentuadas e forte desvalorização da libra esterlina – a mais alta desde 1985.

Não bastasse isso, a insegurança atingiu a esfera política sem clemência: David Cameron, atual primeiro-ministro, já anunciou a sua saída para outubro, afirmando a necessidade de novas lideranças que possam guiar o Reino Unido a um novo status quo, pós-União Europeia. Ora, se Cameron advogava pela permanência e perdeu, nada mais legítimo que deixar o cargo para outra pessoa conduzir o Reino durante a mudança. É lamentável que Cameron tenha sido um primeiro-ministro tão pífio, que não deixará legado e, ao concordar e convocar o referendo, provavelmente assinou a sentença de morte de sua carreira política. Ao convocar o referendo, Cameron acreditava que o povo britânico escolheria permanecer na União e que sua vitória sobre uma questão crítica nos últimos anos – sair da União – fortaleceria e legitimaria o seu mandato. Com o retumbante fracasso, no entanto, evidenciam-se agora suas falhas de liderança e cálculo estratégico.

É possível que o erro mais grave cometido por Cameron tenha sido acreditar que os britânicos eram mais unidos do que o resultado do referendo demonstrou, mas uma série de outros fatores colaboraram para a decisão. Em primeiro lugar, Cameron não fez campanha pela permanência. Salvo alguns discursos esparsos, sem grande ênfase no impacto negativo que a saída trará, o primeiro-ministro soou como alguém que defendia uma posição sem ter muita certeza do que fazia. Em segundo lugar, Cameron autorizou seus ministros a manifestarem suas posições pessoais, acreditando que seriam leais ao governo. Os ministros, contudo, foram leais a si mesmos, frequentemente atacando o primeiro-ministro e acusando-o de ocultar informações acerca de matérias importantes para decisões sobre o referendo. Aparentemente, o grande legado de Cameron será como não ser um primeiro-ministro!

Além disso, Cameron deixa outro problema para o próximo primeiro-ministro: a ameaça de esfacelamento do Reino Unido, levantada a partir dos resultados parciais pró-União Europeia da Escócia, Gibraltar e Irlanda do Norte. As primeiras reações variaram em intensidade, mas foram praticamente uniformes em conteúdo: se nestes países prevalece o desejo de permanecer na União Europeia e o Reino Unido decidiu sair, talvez se deva repensar a permanência no Reino Unido!

Tome-se como exemplo a Escócia: em torno de 62% do eleitorado votou pela permanência. Sua primeira-ministra, Nicola Sturgeon, já anunciou a intenção de realizar novo referendo sobre a independência do Reino. Em 2014, na primeira tentativa, a continuidade da dependência do Reino venceu por margem apertada (55%), mas agora corre o risco de uma resposta diferente. Naturalmente, isso depende de uma extensa negociação entre Londres e a Escócia, mas, principalmente, entre a Escócia e Bruxelas: afinal, se Bruxelas não sinalizar positivamente para uma rápida adesão da Escócia à União, o resultado do referendo escocês deverá seguir o de 2014.

Gibraltar já recebeu proposta de soberania compartilhada da Espanha, a fim de que aquela mantivesse acesso ao mercado comum europeu e não fosse prejudicada pela decisão do Reino Unido. Enquanto isso, na Irlanda do Norte lideranças apontam a importância do momento, que pode significar o desvinculamento da União e a reunificação das Irlandas, como quer Martin McGuinness, do Sinn Fein, um dos principais partidos políticos da Irlanda do Norte. Jarosław Kaczyński, liderança da direita polonesa, foi categórico: é necessário um novo tratado europeu que considere os Estados-nação em vez de tentar transformar a União em um Estado federativo europeu.

A insatisfação não se limita a lideranças políticas. Uma pesquisa realizada pela YouGov apresenta a relação entre faixa etária, voto pela permanência ou saída, e tempo de vida estimado em que cada faixa terá que lidar com as consequências do seu voto. Os resultados podem ser vistos na figura abaixo.

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É curioso perceber que a maior parte dos votos pela saída vêm de uma faixa etária que irá gozar proporcionalmente menos do resultado do referendo, fosse ele pela saída ou pela permanência. Como o maior percentual de votos pela permanência encontra-se nas duas faixas mais jovens, 18 a 24 e 25 a 49, a sensação de impotência e desgosto com o resultado é também maior entre essas faixas, que terão que lidar com a derrota do seu voto por mais tempo do que aqueles que votaram na opção vencedora.

Deve-se lembrar, ainda, que é necessário submeter a saída ao voto do Parlamento. De acordo com o European Union Act 2011, a membresia de um país na organização só pode acontecer mediante referendo popular e decisão parlamentar. No entanto, já se especula que a questão será submetida ao Parlamento apenas daqui a alguns meses, quando os efeitos econômicos e políticos da especulação sobre a saída do Reino Unido já tenham sido sentidos com mais força. Até lá, o Reino Unido permanece em um limbo na União Europeia, afastando-se de decisões importantes e sendo até mesmo excluído da participação em reuniões do alto escalão da União Europeia, como o conclave que acontecerá esta semana para deliberar sobre o futuro da organização. Se, legalmente, o Reino Unido ainda não está fora da União, na prática, sua saída já começa a acontecer: David Cameron anunciou que um segundo referendo sobre o Brexit está fora de cogitação.

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* Doutor em Ciência Política (UFPE), professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (DRI/UFS), líder do Centro de Estudos Internacionais (CEI/UFS), pesquisador e vice-líder do Núcleo de Estudos em Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI/UFPE).

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

One Comment

  • Leandro

    E uma pena que decisão de sair tenha sido tomada pela faixa etária dos anos e mais que acredita em uma nação fechada aos estrangeiros, xenófoba. Um passado recente que a Europa não deveria ressuscitar. Excelente artigo Rodrigo.

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