Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Quando “sexo frágil” é uma construção social: a guerra das mulheres curdas contra o Estado Islâmico

Por Mariana Ribeiro do Nascimento*
Antonio Henrique Lucena Silva**

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A Guerra Civil Síria (2011-) se intensificou a partir de uma revolta armada e a formação do Exército Livre Sírio. O vácuo de poder deixado por Damasco em algumas regiões do país abriu espaço para que grupos se fortalecessem, entre eles, o Estado Islâmico. A expansão do grupo EI no Oriente Médio, principalmente no Iraque e Síria, pode ser observado o grande números de refugiados que fogem em massa rumo a países onde possam ter o mínimo de segurança. O Estado Islâmico buscou expandir a sua área de controle e realizou ofensivas que chegaram em áreas controladas pelo povo curdo. Eles veem combatendo e resistindo às incursões dos terroristas e algumas áreas foram retomadas, com o apoio dos ataques aéreos feitos pela Rússia e a coalizão, como Kobani.

De acordo com Peixinho (2010), a formação do povo curdo denota da antiguidade, quando eles se fixaram no território da cordilheira de Zagros, localizada entre os territórios de Irã e Iraque onde formaram as primeiras tribos e vilas. Devido a conflitos, invasões e outros fatores que ocorreram na região foram efetuadas migrações, ainda naquela época, o povo curdo nunca perdeu sua identidade, como exemplo sua língua própria e religião, e grande parte continuou no território das montanhas.

Apesar de o Estado do Curdistão não existir de fato, existe uma vontade de seu povo para que ele se concretize. Para que de fato ocorra uma organização nas cidades curdas, eles criaram instituições para que o povo tivesse representação dentro dos Estados que o povo habita, principalmente no Iraque, Síria, e Turquia. Como exemplo pode citar o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão); PYD (Partido da União Democrática); YPG (Unidade de Proteção Popular); YPJ (Unidade de Defesa das Mulheres). Aproximadamente 36 milhões de Curdos estão espalhados pelo mundo, o que faz deles uma das maiores etnia sem pátria do mundo, uma vez que o Curdistão não é um Estado constituído.

Além da organização política e econômica, o povo curdo que habita boa parte da região do denominado Curdistão do Iraque, que possui um representante devidamente eleito pela população, ainda devem lealdade ao governo central, em Bagdá.

É de grande importância na sociedade curda a existência do Peshmerga. Peshmerga é a denominação para quem faz parte do exército curdo para defesa do território do Curdistão. E é como o Governo do Curdistão iraquiano denomina o exército curdo. A palavra Peshmerga significa “aqueles que enfrentam a morte”, sendo “Pesh” equivalente a enfrentar, e “Marg” equivalente a morte.

O exército curdo é formado tanto por homens, quanto por mulheres, e ultimamente a divisão feminina do Peshmerga ganhou visibilidade ao redor do mundo, pois além do combate direto que é realizado diariamente, utilizando táticas de guerrilha, na luta contra o EI, está quebrando com a questão de gênero que é fortemente presente na região do Oriente Médio. As guerrilheiras do Peshmerga lutam porque, além da defesa das mulheres, elas sentem a necessidade de ingressar ao exército curdo para defesa de seu território e sua dignidade, uma vez que enfrentam a ofensiva do EI principalmente para evitar que mais mulheres curdas sejam submetidas a estupros, assassinatos, e de serem vendidas no mercado de escravos, como escravas sexuais, como está ocorrendo.

As Peshmerga são combatentes voluntárias para o exército curdo. Elas têm entre 18 e 40 anos de idade. As adolescentes não podem ingressar no exército, porém elas podem solicitar treinamento militar para quando forem ingressar no Peshmerga elas estejam prontas para atuar. As guerrilheiras não recebem algum tipo de auxílio, assim dependem de doações e são alimentadas pela população de cidades curda das localidades que elas defendem. Há uma estimativa que 35% do exército seja formado por mulheres, porém a quantidade oficial de soldados Peshmerga é uma informação sigilosa, que não é oficialmente divulgada pelo exército curdo.

Após os constantes ataques realizados pelo Estado Islâmico nas vilas e cidades que o povo curdo reside, houve uma necessidade urgente de aumentar o quantitativo do Peshmerga. Assim, o ingresso de mulheres no exército nas linhas defensivas foram intensificadas, e por conta deste episódio, as mulheres curdas ganharam um papel de destaque, pois, além de aturarem incisivamente para defesa do território, elas contam com um elemento particular: os jihadistas que fazem parte do EI temem ser abatidos pela divisão feminina da força combatente, uma vez que eles acreditam que se forem mortos por uma mulher eles não vão para o paraíso após sua morte, e que não vão ser premiados com as 72 virgens prometidas a eles. Esta promessa que os terroristas do Estado Islâmico pregam é fruto da interpretação do Alcorão pelo segmento da religião islâmica que eles seguem. Desta forma as combatentes Peshmerga utilizam esse fato em favor do grupo para lutar e aniquilar o inimigo de seu povo, no atual momento. Podemos citar que elas foram de suma importância para a retomada de Kobani, que anteriormente estava sob controle dos terroristas do Estado Islâmico. É através da luta que as guerrilheiras curdas participam no embate contra os terroristas e trazem um novo olhar sobre a participação da mulher em conflitos.

Por conta dos recorrentes ataques as cidades curdas, vale citar que está ocorrendo a perseguição do povo curdo que segue a religião Yazidi que é uma comunidade religiosa, que é vista pelo Estado Islâmico como herege, pois eles cultuam um Deus chamado Malek Taus, que se manifesta em forma de pavão. Por sua vez, o Estado Islâmico classifica os Yazidis como incrédulos e adoradores do “diabo”, sob a ótica da intepretação que os terroristas do EI fazem do islamismo, e utilizam essa narrativa para persegui-los, assassinar, vender mulheres e crianças no mercado de escravos, e realizar estupros coletivos contra as mulheres e crianças.

Muitas meninas e mulheres sofreram com estupros coletivos, ou sendo vendidas como escravas sexuais. Segundo a ONU, milhares de mulheres e meninas foram vendidas no mercado de escravos em cidades sírias. Quando os Yazidi se recusam a se converter ao islamismo que é imposto pelos jihadistas, muitos são feitos escravos ou mortos, incluindo as mulheres dessa etnia.

Por conta desses fatores, a necessidade de aumentar o contingente do exército curdo ficou cada vez mais evidente e, desta forma, o reforço das mulheres nas brigadas Peshmerga se tornou uma realidade. Porém, mesmo elas demonstrando todo seu empenho e eficácia no conflito, ainda assim somente o fato de ser mulher já é de grande problemática, sobretudo no Oriente Médio, que caracteriza uma sociedade altamente patriarcal, homens e mulheres têm seus papeis devidamente divididos na sociedade, onde homens nascem para defender sua família, povo e prover alimento para sua prole, e as mulheres nascem para formação de uma família, educação dos filhos, e organização de suas casas. Segundo Tickner (2011), outro fator a ser observado em sociedades patriarcais é que existem caraterísticas que são aclamadas para indivíduos que ocupam papeis de destaque, principalmente nas áreas de política e segurança, como podemos citar o fator “manliness”, que são de pessoas que devem passar uma imagem de força, poder, independência, nacionalidade e autonomia para conduzir a política de uma localidade. E normalmente as pessoas que apresentam essas características pertencem ao gênero masculino.

Durante as guerras, as mulheres são, geralmente, o lado mais “fraco” do conflito. Elas sofrem tantos os efeitos diretos como indiretos da guerra: mulheres e garotas são submetidas a diversos tipos de violência, de exploração sexual a terem os seus mantimentos retirados por soldados nos conflitos. Vários estudos elencam os “impactos” da guerra nas mulheres e como elas sobrevivem a momentos de crise. Mais recentemente, a literatura de Relações Internacionais passou a enxergar as mulheres como agentes da guerra (WHITWORTH, 2008). Em muitos casos, elas são forçadas a entrar no combate e cometer atos de violência até para sua própria preservação.

Assim, por conta do papel decisório e importante para questão da segurança que as guerrilheiras Peshmerga têm atualmente, elas estão redefinindo o papel da mulher em sua sociedade, pois através de sua luta contra do EI, defendendo os civis e o território, elas estão quebrando com a visão que são supostamente frágeis, e que não conseguem tomar decisões na guerra. Sobretudo desconstruindo a ideia de que as diferenças entre homens e mulheres são determinadas por fatores biológicos, assim quebrando com a construção social que “ser mulher” é ser necessariamente dócil, voltada para atividades domésticas, e relegadas a um papel de inferioridade.

Vale ressaltar que, por conta da necessidade da presença das mulheres no Peshmerga, elas estão ganhando uma maior autonomia na sociedade curda, uma vez que ingressam no serviço militar juntamente com os homens, e executam as mesmas funções que sempre foram designadas a eles. Como é observado nas atividades realizadas pelos homens e mulheres que fazem parte do Peshmerga, uma vez que os guerrilheiros da divisão masculina do Peshmerga utilizam mais a tática física, enquanto as guerrilheiras utilizam mais a inteligência e o planeamento no momento em que vão executar suas tarefas visando defender o Curdistão. Porém ainda assim elas utilizam da força das armas tanto para se defender, como proteger o território e a população.

Desta forma, as combatentes Peshmerga são agentes fundamentais na guerra. Por fim, as Peshmerga realizam o mesmo trabalho que a divisão masculina faz: combater o inimigo, EI, visando a vitória sob os jihadistas. E desta forma fazem a desconstrução da imagem convencionalmente estruturada da mulher indefesa no Oriente Médio, demonstrando que são agentes importantes no conflito. Elas também contribuem para a mudança de percepção sobre o papel do gênero feminino em guerras e para o alargamento do debate na literatura de Relações Internacionais.

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* Graduanda em Relações Internacionais pela Faculdade Damas da Instrução Cristã.

** Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor de Relações Internacionais da Faculdade Damas da Instrução Cristã. Atua na área de Segurança Internacional, Estudos Estratégicos e Política Internacional. E-mail para contato: antoniohenriquels@gmail.com

Referências

PEIXINHO, Maria de Fátima Amaral Simões. O Curdistão no Iraque, ensaio de uma Nação. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Fernando Pessoa. 2011.

TICKNER, Ann. Feminism and Security. In: HUGHES, Christopher W.; MENG, Lai Yew (Ed.). Security Studies: A reader. Nova Iorque: Routledge, 2011.

WHITWORTH, Sandra. Feminist Perspectives. In: WILLIAMS, Paul (Ed.). Security Studies: An Introduction. Londres: Routledge, 2008.

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