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O Brexit chegou… e agora, Reino Unido?

Por Rodrigo Barros de Albuquerque*

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O Brexit aconteceu. Após meses de muita expectativa e um adiamento causado por uma tragédia, o referendo foi realizado e a maioria da população votou a favor de o Reino Unido sair da União Europeia. Há várias considerações em jogo. Nos próximos dias, o Vox Magister terá postagens específicas sobre os pontos abaixo elencados, todos diretamente relacionados ao Brexit.

1) Em primeiro lugar, o resultado (aproximadamente 52% a favor da saída e 48% contra) mostra uma margem bastante apertada, o que indica alta polarização. Resultados de votações com pequena vantagem para a maioria vencedora costumam indicar maior arrefecimento nas disputas internas. Dificilmente, porém, o Reino Unido sofrerá uma situação de conflito interno alarmante sobre esta questão, particularmente na Inglaterra, onde o desejo manifesto pela saída da União Europeia foi mais evidente.

2) Há pouco tempo a Escócia votou em plebiscito pela separação do Reino Unido. Um referendo deverá ocorrer em breve para confirmar seu desejo de se tornar um Estado independente do Reino Unido. O fato de a Escócia ter tido o maior percentual favorável à permanência na União Europeia poderá acelerar o processo, uma vez que, possivelmente, será menos danoso para a Escócia permanecer ligada à União Europeia do que ao Reino Unido, pela razão apontada no próximo ponto. É possível que, na mesma direção, o discurso separatista da Irlanda do Norte seja reavivado, aproveitando o interesse em permanecer ligada à União Europeia, seguindo os passos da Escócia. O mesmo não pode ser dito do País de Gales, onde prevaleceu a decisão pela saída da União Europeia, alinhada à Inglaterra.

3) A saída do Reino Unido do mercado comum europeu é, provavelmente, o maior problema com o qual o Reino Unido terá que lidar, visto que em torno de 50% das suas exportações e importações são direcionadas e provenientes dos países da União Europeia. O impacto da saída do Reino Unido, a menos que se engaje fortemente em negociações bilaterais com parceiros tradicionais como os Estados Unidos e com potências emergentes como a China, será muito violento sobre a sua economia, provocando a desvalorização da libra e o encolhimento da economia britânica. Há que se ver como reagirá o mercado.

4) Em temas nos quais o Reino Unido possui posição particularmente forte, talvez seja possível à União Europeia tomar decisões importantes, sair da estagnação e voltar a produzir resultados mais satisfatórios para a população. Uma vez que o país não terá mais voto nessas decisões, questões críticas como o aperfeiçoamento e expansão da Política Comum de Segurança e Defesa poderão, finalmente, avançar. Outro tema importante para a saúde da União Europeia e no qual havia forte resistência do Reino Unido é a questão migratória. Talvez agora se possa avançar mais na mitigação do problema.

5) Por fim, outros países com lideranças políticas influentes que têm defendido recentemente que sua permanência na União Europeia não é saudável, podem ganhar fôlego com a decisão do Reino Unido em sair. Há que se observar a repercussão do referendo britânico nos próximos meses.

É necessário lembrar ainda que a saída efetiva da União Europeia levará alguns anos. O Reino Unido precisará se desentranhar de aproximadamente 160 mil peças do complexo e prolífico direito comunitário, reajustando a sua própria legislação, sua arrecadação tributária e seus processos decisórios. Se para alguns o Brexit significa o fim, este é apenas o começo.

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* Doutor em Ciência Política (UFPE), professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (DRI/UFS), líder do Centro de Estudos Internacionais (CEI/UFS), pesquisador e vice-líder do Núcleo de Estudos em Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI/UFPE).

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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