Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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“All Hail the King in the North”: como os erros táticos de Ramsay Bolton levaram à vitória estratégica de Jon Snow na Batalha dos Bastardos?

Por Augusto Teixeira Jr.*

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Para quem é fã de Game of Thrones e ao mesmo tempo estuda temas ligados à Guerra, Estratégia e Segurança Internacional, a “Batalha dos Bastardos” é um excelente exemplo para analisar como forças em desvantagem numérica e cometendo equívocos táticos vencem batalhas. Apesar do mistério sobre essa estranha relação causal se dever muito mais à pena de R. R. Martin, para fins didáticos, vale a pena fazer um exercício de análise estratégica sobre este evento fictício. Para tal, o texto a seguir apresenta de forma breve um conjunto de erros e acertos de ambos os comandantes militares engajados no conflito: Jon Snow (Stark) e Ramsay Bolton. Nossa principal linha de raciocínio é que o resultado da batalha, uma vitória estratégica de Snow, se deveu mais aos equívocos táticos de Ramsay do que pela habilidade de strategos de Snow.

  1. Controle do terreno alto por parte de Ramsay (Snow 0 – Bolton 1)

Além de possuir uma vantagem numérica de cerca de 2:1 em relação à Snow, Ramsay posicionou as suas tropas na parte alta do campo de batalha. Em tese, essa posição favorece a velocidade da progressão de suas forças ao passo que aumenta o custo de mobilidade das forças inimigas. Além disso, a escolha do terreno alto por parte de Bolton garante maior vantagem na observação do campo de batalha, o que foi utilizado por ele para comandar distintas manobras ao longo do engajamento.

  1. Jogo psicológico e Equívoco Tático de Snow (Snow 0 – Bolton 2)

Muito habilmente, Ramsay dá vazão à sua personalidade sádica para fazer Snow cair numa armadilha que moldaria como a batalha seria lutada. Ao jogar com a possibilidade de libertar Rickon Stark, Bolton logra em precipitar o avanço de Snow para a “terra de ninguém”. Ao compelir o inimigo a se equivocar taticamente, Ramsay obriga Jon a cometer um erro que poderia ter-lhe custado a batalha.

  1. Erros de Snow na Primeira fase da ofensiva: armas (des)combinadas (Snow 0 – Bolton 3)

Isolado e ao alcance da artilharia (arqueiros) inimiga, o erro de Snow força seus imediatos a ordenar o avanço de suas tropas para evitar a morte ou captura de seu comandante. Outro erro tático de Snow é que este início da ofensiva ocorre com a carga de cavalaria e infantaria, ambas sem apoio de artilharia e sem coordenação. Ao precipitar suas forças contra um oponente numericamente superior sem desgastar as tropas inimigas com artilharia, Snow colocou os seus combatentes numa desvantagem cruel.  O contato direto no campo de batalha diretamente contra uma cavalaria superior elevou desde o início a taxa de desgaste da Casa Stark e aliados. Entretanto, essa opção tática por parte dos imediatos se justifica pelo alto custo estratégico que seria a captura ou morte de seu comandante. Caso morto, poderia quebrar a moral das tropas, já em desvantagem numérica e organizadas após difíceis negociações em relações de vassalagem.

  1. Erros de Bolton na Primeira fase da ofensiva: cavalaria (Snow 2 – Bolton 3).

Vendo que Snow havia “comido a isca” e logrando êxito em precipitar as forças inimigas em terreno aberto, Ramsay comete um equívoco tático que seria crucial para o resultado da batalha: responde à ofensiva descordenada de Snow com uma carga de cavalaria. Se o objetivo era neutralizar o comandante inimigo, a melhor opção seria fazê-lo pelo uso da artilharia. Distinto disso, Ramsay usou de forma equivocada uma força de grande mobilidade (cavalaria) em carga direta contra os cavalarianos dos Stark e sua infantaria. Bolton comete um duplo erro com isso: primeiramente, não usou a vantagem de opor a sua cavalaria contra a infantaria leve, esta desprovida de lanceiros; em segundo lugar, não possuindo reservas de cavalarianos, perdeu o controle e proteção contra os seus flancos na retaguarda do campo de batalha, o que seria fatal.

  1. Erros de Bolton na Primeira fase da ofensiva: artilharia (Snow 3 – Bolton 3)

Não satisfeito com a péssima condução da batalha, enquanto a cavalaria de Bolton engajava a cavalaria e infantaria de Snow, Ramsay ordena a saturação da área contra suas próprias forças. Com isso, Bolton opta por perder um componente militar que por sua agilidade e rapidez poderia ser capaz de atacar as reservas e flancos das forças Stark.

Apesar do êxito da artilharia de Bolton contra as tropas restantes e a cavalaria de Snow, ele teria que arcar com os custos de ter aniquilado a sua própria cavalaria. A alta taxa de atrito no campo de batalha produziu uma montanha de corpos que possivelmente teve impactos não pretendidos: reduziu a taxa de atrito contra as forças de Snow, reduzindo progressivamente a vantagem do uso de arqueiros. Estando em terreno alto, com vantagem numérica de no mínimo 2:1, a artilharia teria sido decisiva para dominar o campo de batalha, neutralizando boa parte das forças combatentes inimigas e impondo as suas próprias tropas baixo desgaste na neutralização dos sobreviventes e caça à cavalo dos desertores adversários.

  1. Erros de Bolton na Segunda Fase da Ofensiva: falange (Snow 4 – Bolton 3)

Diante de um quadro que apontava claramente para a derrota dos Stark e seus aliados, Sor Davos ordena que as reservas se somem às forças no centro do campo de batalha. Controlando habilmente as suas tropas, Ramsay conduz uma interessante manobra com efeito de pinça. Com um misto de falange grega protegida por escudos longos (tradição Romana), as forças de Bolton logram cercar em 360 graus as forças de Snow. Entretanto, não toma proveito de uma oportuna vantagem contra um inimigo à beira do colapso. Bolton erra ao enviar suas forças de infantaria para dentro do círculo. Ao invés disso, o foco da ação deveria ter se dado com a manutenção do passo e cadência da falange, aniquilando os combatentes no interior da armadilha. No máximo, caberia a ele adiantar parte da artilharia para acelerar a vitória contra as forças de Snow presas, preservando a sua reserva de infantaria. A perda do momentum na ação da falange é o principal erro de Ramsay nesta fase da batalha.

  1. Erros de Bolton na Segunda Fase da Ofensiva: retaguarda (Snow 5 – Bolton 3)

Para entender como a maré virou a favor de Jon Snow, temos que frisar alguns pontos: (i) Ramsay não tinha reservas de infantaria na retaguarda, (ii) não possuia tropas alocadas para controlar o entorno do campo de batalha, (iii) com o aniquilamento de sua cavalaria, perdeu o controle de seus flancos. Estas condições se somaram à inesperada chegada de reforços em ajuda de Jon Snow e suas tropas. A cavalaria aliada irrompeu no campo de batalha adentrando a área do conflito pelos flancos da posição de Bolton! Aturdido com o evento inesperado, Ramsay não ordenou que parte das forças organizadas na forma de falange organizassem uma formação como um “Terço espanhol”. Apesar de seus lanceiros não possuirem armas longas, a formação hispânica poderia ter aumentado o custo da carga de cavalaria contra si. A demora dos lanceiros em quebrar a resistência dos combatentes de Snow impediu com que estes fossem usados contra a cavalaria de apoio. Somado a esta falha, Ramsay não ordenou a sua artilharia atacar a retaguarda da cavalaria inimiga. A cavalaria aliada, habilmente atacando a falange em formato de cunha, quebrou a formação inimiga colocando-os tanto contra a cavalaria aliada como contra os sobreviventes no interior do círculo.

  1. Dos erros táticos à vitória estratégica: Winterfell como “centro de gravidade” (Snow 6 – Bolton 3)

Após assistir ao colapso de suas forças em campo de batalha, Ramsay Bolton recua para área fortificada de Winterfell. Porém, a falta de preparativos para uma hábil defesa do portão central (sem fortificação de ferro ou o uso de óleo ardente contra os oponentes do portão) permitiu que a infantaria pesada de Snow quebrasse as defesas e, agora numericamente superior à Bolton, desarmasse e vencesse o inimigo usurpador. Como resultado, Jon Snow submeteu Ramsay Bolton e seus suborninados à sua vontade.

À luz do maior teórico da Guerra, Carl von Clausewitz, poderiamos afirmar que a Batalha dos Bastardos nos mostra como a violência organizada, justificada por fins políticos, consiste em si como a continuação da política por outros meios. A vitória foi em parte resultado da “névoa da guerra”. Apesar de generais importantes, como o unionista Sherman, afirmarem que “War is Hell […] war is cruelty”, o tipo da violência a que Ramsay Bolton estava acostumado – e se deliciava – é distinta do sentido do ato de força na guerra entre unidades políticas. Em suma, Jon Snow foi mais beneficiado pelos erros táticos do bastardo Bolton do que por sua própria virtú como strategos. Entretanto, esse tipo de resultado não é estranho na História Militar. Conforme o ditado clássico, “a fortuna favorece aos audazes”. “All Hail the king in the North”!

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* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente é professor Adjunto do Departamento de Relações Internacionais da UFPB. Líder do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Segurança Internacional (GEESI/UFPB /CNPq). Membro da Associação Brasileira de Estudos de Defesa.

Referências

CLAUSEWITZ, Carl von. Da guerra. Tradução de Maria Tereza Ramos. 3ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010. [Clássicos Martins Fontes].

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

2 Comments

  • Boa, Augusto! Pontos muito bem levantados. John Snow, na visão romântica dos Starks, quis realmente resolver as coisas à la duelo western… do início ao fim.

    Eu apontaria 2 erros táticos de Ramsay:

    1) Abandono de posição estratégica: Ainda que o comandante Bolton tivesse vantagem de terreno e de números no campo, abandonar uma importante fortificação em nome do renome foi imprudente e errado. Segurar Winterfell enquanto enviasse esquadrões de cavalaria leve para agredir as linhas de suprimento dos Starks (harass) não demonstraria fraqueza frente às casas vassalas.
    O exército de John Snow estava sem acesso fácil a forragem e alimentação (inverno e casas geograficamente próximas a Winterfell se recusando a apoiá-lo), somado ao frio, que resulta em um atrito implacável.

    2) Linha de bateadores: Novamente, o mau uso da cavalaria ligeira. Como o Senhor Protetor do Norte não teve inteligência sobre o avanço de um exército pesado como do Vale de Aryn? – Devemos, aqui, desconsiderar o poder do teleporte que é tão usado por Petyr Baelish. Ser pego de surpresa por uma força estrangeira, tão distante, é um erro terrível, senão fruto até mesmo de traição interna.

    Concordo totalmente que Snow (o bom, não o mal e feio) valeu-se muito mais da fortú (blindado pelo autor/script), do que pela virtu.

    Grande abraço!

  • […] O seriado Game of Thrones exibido pela HBO tem conquistado cada vez mais adeptos para acompanhar o desenrolar da sua história. Baseada na obra do romancista e roteirista George R.R. Martin “A Song of Ice and Fire” (título original em inglês), o desenrolar da história possui muitas referências ao mundo real. O paredão de gelo defendido pela Patrulha é uma inspiração na Muralha de Adriano, concluída pelos romanos no ano de 126 na Escócia para evitar a entrada dos “bárbaros”. As disputas de poder em Westeros também são baseadas nos conflitos que ocorreram na Idade Média: em 1455 estourou a Guerra das Rosas na Inglaterra. A casa York (simbolizada pela rosa branca) e a Lancaster (simbolizada pela rosa vermelha) duelaram por 30 anos. Até mesmo os nomes das principais casas na ficção Stark (York) e Lannister (Lancaster) são inspiradas na guerra que aconteceu naquela época. A importância do poder terrestre e seu uso adequado foi trabalhada pelo Prof. Augusto Teixeira no seu texto sobre a Batalha dos Bastardos. […]

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