Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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O Ato De Terror Como Estratégia De Guerra Irregular: a conduta operacional do neoterrorismo político religioso (Parte I)

Por Elton Gomes dos Reis*

Terrorismo Orlando


Terrorismo pensado em sentido amplo

O Ocidente ainda está chocado com os  recentes atentados perpetrados com explosivos e armas automáticas contra civis concentrados em locais públicos na Europa e nos Estados Unidos. Diante do assombro provocado pela violência dos atos, a comunidade internacional busca novamente conceituar e discutir as causas e o modus operandi do terrorismo.

Nenhum conceito formal ou categoria analítica é perfeitamente capaz de definir  com eficácia jurídica e sócio política toda a vasta gama de organizações e práticas de guerra irregular que constituem aquilo que ao longo da sucessão histórica pode ser chamado de terrorismo. A  exemplo do que fazem os principais serviços de segurança e do mundo na contemporaneidade, a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN)  define o terrorismo em sentido amplo como sendo um “ato premeditado , ou sua ameaça, por motivação política e, ou  ideológica, visando atingir, influenciar, ou coagir  o Estado e, ou a sociedade, com o emprego da violência”. O terrorismo compreende uma ampla variedade de ações de guerra irregular que se apresentam ligadas a um determinado ideário político. Ao longo da história, a prática do terrorismo  foi desenvolvida por grupos armados de diversos perfis e espectros ideológicos, existindo combatentes irregulares  insurgentes e patrocinados pelos Estados; separatistas e adesistas; de direita e de esquerda; de cunho liberal e conservador; animados por princípios seculares, ou credos religiosos.

O Terrorismo Como Arma e Seus Dois Grandes Elementos: impacto psicológico e publicização

Muitos observadores e analistas tendem a focar sua atenção no terrorismo como um ato em si mesmo, tratando-o de modo estéril como pura violência armada (questão de segurança pública). Outros fazem um julgamento ético dessa prática como ato incivilizado, barbaridade, ato cruel; atrocidade. Todavia, um exame mais detido do fenômeno e seu desenvolvimento revela que o terrorismo é um meio, e não um fim. O terrorismo é uma arma; um instrumento de combate empregado por forças que não dispõem (ou dispõem apenas parcialmente) dos recursos necessários para fazer prevalecer seu posicionamento na luta por poder e influência. O seu emprego, da Antiguidade até os dias atuais, está associado aos objetivos dos grupos que optam por utilizá-lo.

Apesar de suas muitas manifestações conhecidas (sequestros, assassinatos políticos, explosões, ataques suicidas, atentados armados perpetrados contra alvos civis e militares etc.), o terrorismo pode ser identificado por duas grandes características inextricavelmente ligadas: o objetivo psicológico e a publicidade do ato terrorista. A marca registrada das ações de terror é o seu deliberado intuito de produzir um impacto psicológico através do emprego sistemático da violência, ou sua ameaça.  Como recurso estratégico, o terrorismo realizado de maneira reiterada pode ser definido essencialmente como uma tática de inquietação, ou de neutralização. Seu uso visa tirar do inimigo, seja ele pensado como grupo específico, ou entidade social coletiva, a previsibilidade, a tranquilidade e a previsibilidade requerida para o exercício de suas atividades ordinárias. De modo geral, as ações terroristas objetivam afetar as atitudes e posturas dos alvos. Os atentados podem querer induzir um grupo a abandonar certos usos e práticas (como os atentados da FLN a bares e cabarés na Argélia), ou reforçar as tendências comportamentais de um grupo específico apoiado pelos terroristas.

Muito embora existam desde os primórdios da civilização, foi o violento século XX que viu surgir  práticas de terrorismo, guerrilha e insurreições armadas como estratégias aplicadas de modo frequente por combatentes irregulares, visando à consecução de metas políticas através da chamada guerra assimétrica[1]  (STEPANOVA, 2008). O advento das novas tecnologias e o aprofundamento do fenômeno globalizante trouxeram o terrorismo internacional e transnacional como a nova face de um fenômeno que já possui milhares de anos. O mundo interdependente e complexo, caracterizado pela comunicação em tempo real, potencializa  o sucesso do emprego do terrorismo como estratégia, através da publicização. Historicamente, os grupos que lançam mão do terrorismo agem de modo premeditado em busca de publicidade. O “espetáculo” é parte indissociável das ações terroristas. Sem publicidade ampla; sem divulgação do ato de violência e de seus resultados destrutivos, o ato de terror  não atinge nenhum de seus objetivo principais. Com efeito, esse é um elemento chave para as operações terroristas, pois é a divulgação que produz o indispensável impacto psicológico destinado a constranger o governo e a sociedade. Ademais, a publicização é o fator que estabelece o vínculo entre a ideologia defendida pelo grupo e o efeito deletério do ataque sobre o grupo alvo do atentado.

Desde os terroristas do mundo antigo, passando por Lawrence da Arábia, nacionalistas irlandeses (IRA), bascos espanhóis (ETA), guerrilheiros comunistas na China e em Cuba, terroristas da FLN na Argélia e do Afeganistão, israelenses e palestinos, narcoterroristas sul-americanos, os combatentes irregulares terroristas (auto-intitulados ou classificados pelas autoridades) divulgam diligentemente sua ação de modo a torná-la mais “espetacular” e “sensacional”. Na verdade, a propaganda é tão importante que considerável parte do planejamento e execução dos atentados consiste em criar condições para dar visibilidade ao ato e seus perpetradores.  Assim, apesar das suas diferentes construções contextuais, sempre que atacam seus alvos, os grupos terroristas  têm o mesmo objetivo central: mandar uma mensagem escrita com sangue para os poderes constituídos e para aqueles que estão submetidos a essas autoridades. Assim, Barrabás e os zelotes degolavam guardas romanos, depois jactavam–se nas tavernas e iam às praças conclamando o povo à revolta. A Al Queada lançou aviões contra arranha-céus apinhados de civis em NY (2001) e atacou o metrô de Madri (2004) em atentados cuidadosamente engenhados para divulgar fartamente essas ações na mídia.

O Neoterrorismo político religioso: os recentes atentados e a propaganda pelo ato

O terrorismo político religioso é uma variação dessas operações de guerra irregular que tem forte conotação religiosa, ou que ao menos emprega uma determinada interpretação do corpo doutrinal de uma fé organizada para justificar e levar a termo a luta política. Naquilo que lhe confere sentido e propriedade, trata-se de uma prática milenar, tendo sido levado a termo por vários grupos (cristãos, judeus, muçulmanos etc.) em épocas e contextos distintos. Nesse sentido, não pode ser considerado uma exclusividade do mundo islâmico. Todavia, parte considerável da literatura no campo da segurança internacional  o considera como um subproduto da revolução iraniana de 1979 (SMITH, 2003).

O início do séc XXI viu a ascensão do neoterrorismo islâmico como a mais internacionalizada forma de terrorismo político religioso de toda a história. Esse processo tem início com a violência praticada contra alvos israelenses fora de seu território ainda na década de 1970. Mas, foi superdimensionado com o novo modelo desenvolvido depois do fim da Guerra Fria. Derivado de interpretações radicais xiitas, sunitas e principalmente slafistas[2], o neoterrorismo religioso islâmico é um fenômeno complexo ligado não apenas à geopolítica tensa do Oriente Médio, mas também a situações muito específicas experienciadas pelas sociedades muçulmanas que vivem dentro e fora dessa região. Esse neoterrorismo religioso multiplicou a prática das chamadas operações de martírio e deu início a uma campanha internacional de ataques a alvos civis que teve o 11 de setembro como primeiro grande ato de combate assimétrico contra o hegemônico global.

O grande alcance estratégico em termos de dano físico, destruição material e o imenso impacto psicológico dessas operações se deve a implantação de uma estrutura em rede estabelecida internacionalmente. Instaurada em dezenas de países, essa verdadeira transnacional terrorista  opera de modo autônomo e descentralizado,  terceirizando meios operacionais (recrutamento, treinamento, pessoal, comunicações e equipagem) para a execução de ações terroristas realizadas simultaneamente em dezenas de países (WHITHAKER, 2005). Essa modalidade de estrutura em rede complexa e versátil  foi primeiro instituída pela Al Queada. Mais recentemente, o ISIS tem figurado como representante de maior evidência desse tipo de organização terrorista. Essa última organização apresenta, contudo, uma importante peculiaridade.  Fora da região do Levante, onde trava uma guerra convencional para conquista e manutenção de território, o Estado Islâmico se especializou no terrorismo freelancer e na propaganda ideológica via atos de terror.

Propaganda pelo Ato

Até os anos 1970, o  terrorismo secular e religioso estavam ligados, sobretudo, a sequestros políticos, tomada de reféns e a assassinatos de autoridades. Presentemente aparece associado a atentados suicidas com explosivos e atiradores que têm por alvo prioritário civis inocentes (não na acepção dos extremistas). A crueldade inaudita dessas ações está associada a uma concepção instrumental empregada pelos grupos insurgentes e rebeldes que recorrem ao terror. Trata-se da chamada propaganda pelo ato. Esse tipo de prática diz respeito a uma concepção estratégica desenvolvida por grupos anarquistas e ilegalistas do final do século XIX e início do século XX. Descrita pela primeira vez pelo anarquista russo Bakunin, a propaganda pelo ato consiste essencialmente na realização de uma ação  violenta de grande visibilidade a fim de que esta se transforme em referência e inspiração para outras ações semelhantes e/ou complementares a serem realizadas  por outros grupos e indivíduos influenciados pela ideologia.

Os recentes atentados do Estado Islâmico, perpetrados por terroristas islâmicos nascidos na França, Bélgica e EUA, radicalizados via internet, assumem toda dimensão de propaganda pelo ato. São ao mesmo tempo causa e consequência dessa estratégia. Os atiradores de Paris, San Bernardino e Orlando declararam sua aliança ao ISIS sem jamais ter ido ao Oriente Médio ou ter experienciado uma religiosidade ultra-ortodoxa antes. Os assassinos suicidas se disseram inspirados por outros atentados perpetrados por radicais, que foram determinantes para sua conversão ao extremismo e decisão de matar. Ao perpetrar a morte de civis, os radicais responderam ao dog whistle da jihad, se convertendo concomitantemente em agentes e garotos propaganda do terrorismo.

No entanto, diferentemente dos anarquistas do início do século XX, os neoterroristas religiosos desenvolvem suas ações de modo extremamente sistemático, visando trazer mais e mais voluntários para  o jihadismo internacional. Essa estratégia, o perturbador  retorno dos franco-atiradores, a guerra de informação travada  no cyberesaço e o martírio de vingança destinado a aliciar novos conscritos serão examinadas no próximo texto.

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* Bacharel em Ciências Sociais (UFPE), Mestre e Doutor em Ciência Política (UFPE). Atualmente é professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: análise de política externa, política externa brasileira, integração regional e organizações políticas internacionais. 

[1] Guerra assimétrica é um conflito em que os recursos de dois beligerantes diferem na essência e na capacidade. Nesse tipo de embate os beligerantes buscam explorar os pontos fracos uns dos outros. Tais refregas  muitas vezes envolvem estratégias e táticas de guerra não convencional. De modo geral, os combatentes mais fracos  buscam usar a estratégia para compensar deficiências de quantidade ou qualidade. Tais estratégias podem não ser necessariamente militarizadas.

[2] Salafismo (do árabe سلفي, salafī, “predecessores” ou “primeiras gerações”) é um movimento ortodoxo ultraconservador dentro do islamismo sunita. A doutrina se caracteriza por “uma abordagem fundamentalista do Islã, emulando o profeta Maomé e seus primeiros seguidores”. O salafismo preconiza aplicação generalizada da sharia (lei islâmica). O movimento é frequentemente dividido em três grandes categorias: o maior grupo são os puristas, que evitam a política por preceitos religiosos; o segundo maior grupo são os ativistas, que se envolvem na disputa  política; o menor grupo é o dos jihadistas, que se lançam a luta armada e ao martírio com vistas a estabelecer uma teocracia. O Iestado Islâmico dao Iraque e da Síria (ISIS) é um grupo salafista.

Referências

SMITH, Andrew J. Combatendo o terrorismo. Military review. Fort Leavenworth, 2003.

STEPANOVA, E. Terrorism in asymmetrical conflict: SIPRI Report 23. 2008.

VISACRO, Alessandro. Guerra Irregular: terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história. Editora Contexto, 2013.

WHITTAKER, David J. Terrorismo: um retrato. Biblioteca do Exército, 2005.

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