Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Pode o Brasil voltar a ser uma Potência?*

Por Andrés Malamud**
Júlio Cossio Rodriguez***

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A época dos BRICS, IBSA e BASIC terminou. A letra B já não brilha. E as chances de reemergir poderiam acabar nas eliminatórias.

“O Brasil é o país do futuro”, escreveu o otimista Stefan Zweig; “e sempre será”, respondiam jocosos os brasileiros. Justamente quando parecia que o futuro havia chegado, se cruzaram a Lava Jato e o Tchau Dilma. Será possível voltar a emergir depois de ter afundado?

O Brasil depende de si, mas sobretudo dos outros.

Quinto país do mundo em população e território, sexto em função do tamanho de sua economia e primeiro em participações em Copas do Mundo, o gigante latino-americano parecia imparável há uma década e hoje também. A ironia é que antes não parava de subir e hoje não para de cair.

Como qualquer relação de poder, a política internacional tem três dimensões: a coercitiva, a remunerativa e a normativa. O bastão (stick), a cenoura (carrot) e a palavra governam desde o princípio dos tempos, e efetividade depende de suas distribuições: quanto um detém e quanto possuem os demais. O que um detém são recursos e o que detêm os demais determina suas oportunidades e restrições.

O futuro do Brasil como potência depende das oportunidades globais e de seus recursos nestas três dimensões de poder. As oportunidades político-coercitivas se resumem a uma: a existência de uma potência alternativa, quando não rival, aos Estados Unidos. Como demonstrou o cientista político Júlio Cossio Rodriguez, todas as vezes que o Brasil alcançou proeminência foi pela margem de autonomia que lhe permitiram Alemanha, União Soviética ou China. Quando os Estados Unidos dominam sozinhos, o protagonismo do Brasil se dilui. E isso é independente da vontade dos Estados Unidos. Durante a última década, o Brasil emergiu porque os BRICS criaram espaço. Com a Rússia em decadência e a China em retração, o Brasil voltou a submergir. A única oportunidade para dar um salto adiante seria a abrupta emergência da Índia.

As oportunidades econômicas determinam de qual maneira o Brasil se insere nos mercados mundiais. Em meados do século XX, o fazia como produtor de doces: açúcar, cacau e café representavam 85% das exportações brasileiras. Depois de um período de ilusão industrial, suas principais exportações voltaram a ser commodities, principalmente a soja e o minério de ferro. O que se modificou foi o comprador, antes eram os Estados Unidos e hoje a China. A retração do dragão é a causa principal da recessão brasileira. Também nesta dimensão o Brasil depende de uma rápida decolagem da Índia, o único país com escala suficiente para o rebocar.

As oportunidades ideológico-normativas modificam-se mais. Porém, não está claro ao que aspira a humanidade: um desenvolvimento mais industrial ou mais verde? Soberania nacional ou democracia global? Multiculturalismo ou assimilação? Durante anos os modelos foram variando entre Iugoslávia, Escandinávia e o Sul Global, porém por razões diferentes, todos estão em crise. Em um contexto assim, aumentam as dificuldades para encontrar um vendedor e também as oportunidades para inovar. Em qual novo acrônimo poderia se inserir o Brasil agora que os velhos perderam seu encanto?

Os recursos políticos tampouco produzem otimismo. O Brasil é um nanico militar, com um orçamento consumido por salários, aposentadorias e logística antiquada. Sua única vantagem é que as ameaças à segurança nacional também são mínimas. Mesmo que diplomatas brasileiros dirijam a OMC e a FAO, as demais potências da região não apoiam sua ambição de ingressar como membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O protagonismo brasileiro nos fóruns globais também vem caindo. O Itamaraty já não morde.

Os recursos econômicos são menores que o mito. Com 3% da população mundial, o Brasil só contribui com 1,2% do comércio global. Gigante em casa, pigmeu fora. A reprimarização da economia, alimentada pela associação dependente com a China, é hoje um empecilho ao desenvolvimento. O atraso tecnológico e a escassa inovação pioram o cenário. Sem uma revolução produtiva ou o aparecimento de novos mercados para suas commodities, o futuro é indefinido.

E os recursos brandos, fundamentados na capacidade de sedução e atração, se esgotaram após os 16 maravilhosos anos presididos por Fernando Henrique Cardoso e Lula. A corrupção, o impeachment e o 7 a 1 não terminaram com um carnaval carioca, senão pior: o país volta a ser festejado por seu exotismo e não mais por suas políticas civilizadas ou por suas façanhas sociais e esportivas.

O Brasil não é um país sério, como dizem que disse Charles de Gaulle. A seriedade vai de gosto, e para muitos a França depois de Asterix tampouco é séria. Apesar da crise, o Brasil segue sendo um país maravilhoso. O que talvez não seja mais é uma potência.

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* A versão original deste texto está disponível em: http://elestadista.com.ar/?p=10426

** Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário Europeu de Florença. Tem sido pesquisador visitante no Instituto Max Planck de Heidelberg e na Universidade de Maryland, College Park. É professor em universidades da Argentina, Brasil, Espanha, Itália, México e Portugal.

*** Tradução e contribuições. Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia/Ciências Sociais e de Política Internacional Contemporânea na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Doutor em Ciência Política (Universidade de Lisboa), Mestre em Ciência Política (UFRGS) e Bacharel em Relações Internacionais (UFRGS). Pesquisador Associado do Centro Internacional de Estudos sobre Governo (CEGOV/UFRGS).

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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