Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Chile, México e a questão da liderança na Aliança do Pacífico*

Por Ian Rebouças Batista**
Israel Roberto Barnabé***

AlianzadelPacífico

Oficialmente criada em 6 de janeiro de 2012, na IV Cúpula, a Aliança do Pacífico propõe um processo de integração pautado na circulação de bens, serviços, capitais e pessoas e permite também um pacto de projeção global, especialmente com o Sudeste asiático. Os países-membros são: Chile, México, Peru e Colômbia. Os países observadores (alguns já candidatos a membros plenos do bloco) chegam a trinta: Alemanha, Austrália, Canadá, China, Cingapura, Coréia do Sul, Costa Rica, Equador, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Guatemala, Honduras, Holanda, Índia, Israel, Itália, Japão, Marrocos, Nova Zelândia, Panamá, Portugal, Paraguai, República Dominicana, Reino Unido, Turquia, El Salvador, Suíça e Uruguai.

A participação do México na Aliança do Pacífico não traz apenas benefícios econômicos para esse país. Após duas décadas afastado da região – quando o país deu prioridade às negociações no âmbito do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) -, o México redireciona sua política externa para a América do Sul. Natalia Saltalamacchia Ziccardi (2014) indica que, durante os seis anos do governo Fox (2000-2006), o México nunca esteve tão afastado da América Latina. Logo, ficou fora das discussões sobre a constituição da União das Nações Sul-Americanas, Unasul, e da Alternativa Bolivariana para as Américas, ALBA. Na administração seguinte, de Calderón (2006-2012), o México ensaiou retorno à região com participação na Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e na Aliança do Pacífico. A atual administração de Peña Nieto (2012-atual) mantém o comprometimento com esses dois processos de integração. O país busca recuperar o espaço político que perdeu para o Brasil na região e a Aliança do Pacífico passa a ser um instrumento central nessa empreitada mexicana.

Apesar de já existirem tratados bilaterais anteriores entre México e os países-membros da Aliança, o fluxo comercial sempre foi pequeno. Ziccardi, ao definir a importância da Aliança para o México, mostra que o país ganha em três momentos: (1) quando as economias de Colômbia, Peru e Chile crescem – o que ampliaria as possibilidades de fluxos comerciais bilateriais entre esses países e o México; (2) quando o poder de compra desses países cresce – o que ocasionaria em direto impulso às trocas comerciais intra-bloco, visto o teor liberal da Aliança; e (3) quando esses países procuram importar manufaturados – já que dentro da Aliança o México é o principal exportador desses produtos. A autora afirma ainda que os mexicanos já são os maiores exportadores intra-bloco de manufaturados com médio e alto valor agregado.

O gráfico a seguir, retirado do site da Aliança do Pacífico, demonstra em números o potencial econômico mexicano.

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Ziccardi ainda destaca as vantagens políticas da participação mexicana na Aliança. Segundo a autora, processos de cooperação regional por si só fazem parte do balanço de poder e da necessidade dos Estados de aumentarem sua zona de influência.  Unasul e ALBA, por exemplo, ampliam a projeção política de Brasil e Venezuela na América do Sul. A Aliança do Pacífico seria, então, uma resposta defensiva a alguma ameaça que países menores nessas outras organizações (Peru, Chile e Colômbia) e o próprio México poderiam sofrer. Este último, ausente na região, mas que, dentre os membros da Aliança do Pacífico, possui maior relevância geopolítica. Este bloco serviria para manter a presença do México na região, contra-balanceando a posição brasileira.

Outro ponto que indicaria interesse mexicano para a liderança da Aliança seria fazer frente à crescente presença da China tanto na América do Sul quanto na América Central – essa última, zona histórica de maior influência mexicana. Willy Soto Acosta (2014) indica o temor mexicano perante os baixos custos de produção chineses, principalmente na indústria têxtil. Tanto China quanto México têm os manufaturados como principais produtos exportadores e os preços do país latino não têm conseguido fazer frente aos orientais. O México utilizaria a Aliança do Pacífico, então, como facilitador de negociações, de modo a tornar seus produtos mais competitivos na região perante os chineses.

Contudo, Ziccardi (2014) não enxerga uma liderança natural do México na Aliança. Segundo a autora, mesmo o país tendo tamanho e poder para tanto, a elite mexicana não estaria interessada em assumir o ônus dessa liderança. A própria retórica mexicana é de buscar, principalmente, vantagens econômicas e projeção internacional, não assumindo discurso de liderança, participação na América do Sul ou antagonismo ao crescimento político brasileiro na região. A Aliança como bloco, aliás, evita o discurso de antagonismos contra outros processos de integração na região.

Federico Merke (2014), ao analisar a posição mexicana perante a região latino-americana ao longo do tempo, possui similar conclusão. O autor afirma que “as preferências mexicanas perante a região têm sido tipicamente defensivas, pluralistas e ausentes de um projeto de construção de uma zona própria de influência” (p.7, 2014).

Mesmo expondo determinada retórica, sabe-se que a prática pode se distanciar do discurso. E mesmo não estando interessado, pelo peso relativo que tem, as condições naturais podem escolher o México como líder. O atual contexto, contudo, cria espaço para que qualquer outro membro interessado na liderança possa assumir as rédeas da Aliança.

Assim como o México, a participação chilena na Aliança do Pacífico é entendida como estratégia econômica e política. O modelo de política externa adotado pelo Chile em suas últimas administrações revela que, inicialmente, buscava-se com a Aliança a expansão para o mercado asiático – administração Piñera (2010-2014), quando o Chile se voltou para negociações com mercados mundiais, deixando a América Latina para segundo plano. Atualmente a integração econômica latino-americana é tão importante quanto a expansão de seu comércio – a administração Bachelet (2014-hoje) busca o fortalecimento regional para posterior projeção internacional. A diplomacia econômica adotada pelo Chile não se altera, mas identifica-se um interesse político. Como aponta Martha Ardila (2014), o Chile estaria utilizando a Aliança para fazer um soft-balancing na região, em resposta ao Brasil e à Unasul.

A partir da análise dos discursos realizados pela presidente Michelle Bachelet desde 2010 até o início de 2015, podemos traçar a maneira como o Chile enxerga a Aliança. Levantaremos três pontos marcantes e recorrentes na retórica chilena: (1) o Chile entende a Aliança como oportunidade de desenvolvimento do comércio interno e de impulso às exportações com maior liberdade; (2) a presidente assume o discurso adotado pelos membros desse bloco, que prega o não antagonismo da Aliança a outros processos de integração em curso na região. No encontro entre Aliança do Pacífico e Mercosul em 2014, o discurso foi de amenização das diferenças entre os blocos e de identificação de espaços de complementariedade. Contudo, Bachelet admite que o teor de integração política que o Mercosul adota não interessa ao seu país; (3) o Chile entende que pode ser um “país-ponte”, ou “país-porto”, que sirva de ligação entre América Latina e a região da Ásia-Pacífico, e que a Aliança serviria para reafirmar esse caráter.

Por mais que não seja uma “liderança natural”, como o México, e visto que o México não possuiria esse interesse, como analisado anteriormente, o Chile assumiria a liderança da Aliança do Pacífico. País de economia bem estabelecida e que busca projeção internacional, os fatores econômicos levariam o Chile a liderar o bloco. O gráfico seguinte, retirado também do site da Aliança do Pacífico, explana o potencial econômico chileno:

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Os interesses chilenos na Aliança – desenvolvimento econômico, complementaridade dos processos de integração regionais, funcionar como país-porto -, aliados ao potencial econômico e à sua diplomacia econômica, fariam do Chile um candidato disposto a liderar o bloco.

Há quem questione que a disposição chilena para a liderança pode não ser suficiente. O Chile possui o segundo PIB mais baixo dentre os membros da Aliança, atrás de México e Colômbia[1]. Mesmo aproveitando o não interesse mexicano em liderar o bloco, estaria atrás da Colômbia na hierarquia para liderança, se levarmos em consideração apenas o PIB.  Comparando Chile e Colômbia diretamente, esse último possui duas vezes mais investimento externo direto em milhões de dólares[2], o que revelaria a preferência dos investidores numa possível liderança colombiana. Sabe-se que num bloco de viés econômico como a Aliança, a opinião dos investidores é fundamental no processo de legitimização de uma liderança.

Contudo, algumas são as razões para que o Chile tenha melhores condições de assumir a liderança da Aliança do Pacífico. Desde a redemocratização chilena, em 1990, a Política Externa desse país esteve voltada à inserção internacional e à integração econômica global – e esse viés permanece até hoje (VALENZUELA, 2011). Em outras palavras “consolidou-se um ‘macro consenso’ no interior de sua elite, com relação à idoneidade da política de regionalismo aberto que teve sucesso e que não é conveniente modificar” (idem, p.3)

O Chile possui então um histórico de bons relacionamentos ao redor do globo, sendo  isso comprovado na quantidade de acordos bilaterais e multilaterais de livre-comércio que foram assinados desde a década de 1990. Além de tratados com EUA, Canadá e União Europeia, o Chile largou na frente dentre os membros da Aliança do Pacífico por fazer parte da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), de 1989, tendo se lançado ao mercado asiático antes dos demais.

Outro ponto que destaca o Chile como potencial liderança para a Aliança é sua estabilidade política interna. Ao contrário da Colômbia, que possui sérias questões sociais e políticas ligadas ao tráfico de drogas, o Chile “se constitui como um convite interessante ao investimento privado e se reverte na possibilidade de desenvolvimento” (AMADOR, 2015, p.138).

Como considerações finais, afirmamos que, em uma região onde os processos de integração são organizados institucionalmente pela intergovernabilidade, a constituição de um eixo central formado pelos países mais expressivos é fundamental para avanços concretos. No caso da Aliança do Pacífico, Chile e México, por razões diferentes, podem representar este eixo. Buscando superar animosidades e evitando possíveis disputas hegemônicas no Bloco, esses dois países podem constituir uma direção reconhecida e seguida pelos outros países membros com o objetivo central de colocar em prática e fazer avançar os princípios e os objetivos da Aliança.

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* O trabalho é parte da pesquisa de Iniciação Científica desenvolvida pelo primeiro autor. O texto completo, intitulado “Chile, México e a Aliança do Pacífico: entre a liderança compartilhada e a disputa pela liderança” foi apresentado no XXX Congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia (ALAS) na Costa Rica em 2015.

** Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe, membro do grupo de pesquisa “Política Internacional e Processos de Integração” e bolsista PIBIC/COPES/UFS.

*** Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. Membro do “Regional Integration Research Group” (Institute of Latin American Studies, Stockholm University). Líder do grupo de pesquisa no CNPq “Política Internacional e Processos de Integração”. Professor Adjunto IV do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe e pesquisador do CEI/UFS e do NEPI/UFPE.

[1] México U$1.181.633.000.000, Colômbia U$370.509.000.000, Chile U$268.314.000.000, Peru U$203.977.000.000. Disponível em ACOSTA, W. Soto.

[2] Colômbia 15.952,2,  Chile 9.233 (em milhões de dólares). Disponível em ACOSTA, W. Soto.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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