Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Relações Internacionais, política internacional, política externa e política estrangeira: quais as diferenças de nomenclatura?

Por Thales Castro*

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No contexto de sala de aula e mesmo em foros específicos mais aprofundados, é comum, especialmente quando estamos ministrando uma disciplina teórico-introdutória da ciência das Relações Internacionais, deparamo-nos com as nomenclaturas básicas que são objetivo do título desta nossa reflexão. Neste sentido, o objetivo primordial de nossas considerações hoje é no sentido de diferenciar e esclarecer tais pontos, revelando, por seu turno, importantes análises sobre essas bases fundamentais do estudo temático da área internacional.

Os termos “Relações Internacionais” e “política internacional”, muitas vezes com letras maiúsculas indicando nomes próprios ou não, são usados de maneira indiscriminadamente como sinônimos – e são efetivamente? A resposta é não. Primeiramente, sinto-me mais confortável em apenas colocar letras maiúsculas no título-nome (próprio) da ciência autônoma que são as Relações Internacionais, tal qual costumeiramente se faz com outras ciências autônomas das humanidades, como, por exemplo, o Direito, as Ciências Econômicas, dentre outras. Política internacional, costumo referir mais com letra minúscula no caput da mesma em razão de não possuir uma propriedade epistêmica e metodológica de autonomia cientifica; ou seja, descreve apenas a natureza da interação humana em com olhares próprios de sua microfísica (Foucault). Outro ponto importante a ser salientado sobre as duas nomenclaturas de “Relações Internacionais” e “política internacional” é o seguinte: a confusão relativa se deu a partir dos estudos de RI da escola americana, quando, em 1979, foi lançado o livro seminal de Kenneth Waltz, Theory of International Politics, formatando as bases para a escola neorrealista de Relações Internacionais. O princípio estrutural ali desenvolvido era de que as negociações e interações entre Estados eram regidas pela anarquia onde os Estados, individualmente considerados, eram “functionally undifferentiated” (Página 97 do citado livro). Neste sentido, costumou-se associar, automaticamente, política internacional com relações internacionais. Na verdade, há pequenas nuances de diferença entre esses termos. As Relações Internacionais, como ciência autônoma, de raiz epistêmica política, são mais amplas para abarcar, em seu bojo, outros processos e dinâmicas científicas, que, unidas, forma o amplo mosaico plural das Relações Internacionais. Enquanto que a política internacional (sic) é mais voltada, direcionalmente, para os jogos simétricos e assimétricos e as engrenagens de “quem ganha o que, quando e como”, segundo Harold Lasswell, as Relações Internacionais são mais amplas para envolver outros saberes e outros métodos, sem, contudo, perder o foco e a identidade estrutural desta ciência autônoma que é, simultaneamente, humana, social e política. Ou seja, as Relações Internacionais, em nossa visão, abarcam as entranhas da política internacional com seu manuseio dos capitais de força-poder-interesse, ou simplesmente KFPI, e outras fontes científicas dinâmicas, tais como a história, o direito, a antropologia, a teologia, a sociologia, a economia, as finanças internacionais e outras – cada uma conservando seu método específico e, juntas, todas partilhando seus “eixos de comunicação” (linkages) com a própria ciência das Relações Internacionais.  É uma partilha harmoniosa e integrativa, tornado a fascinante área das Relações Internacionais como uma sinfonia densa e profunda do olhar humano e social com suas amplas perspectivas de pluralidade e unicidade.

Política externa é diferente. Há uma certa unicidade universalista no que tange à sua concepção. Política externa é o posicionamento oficial de um Estado nacional sobre um determinado item de agenda internacional. Política externa, geralmente, está atrelada a uma determinada fonte legitimante, podendo ser o próprio texto constitucional, à guisa de exemplo. Política externa é determinada, a depender do sistema político nacional, pelo titular (ou titulares, no caso de sistemas parlamentaristas) do Executivo Nacional. Cabe, portanto, aos ministérios de relações exteriores ou congêneres auxiliar nesta missão, entabulando a prática diplomática na área internacional.  Enquanto que política externa é diretriz, diplomacia é práxis de campo; política externa é orientação, diplomacia é prática negocial e implementação efetiva nos vários cenários da diplomacia bilateral (relações entre dois países) ou multilateral (relações com os organismos internacionais estabelecidos de linha estatocêntrica).

Política estrangeira possui, por consequência, diferenciações sutis que são importantes em nossa análise aqui. Política estrangeira é o isolamento do nível de análise (level of analysis) apenas centrado no Estado Nacional estrangeiro. Isto é, trata-se de estudos isolados e centrados na dinâmica de um determinado Estado para geração de pensamento crítico e reflexão acadêmico-científica. É um olhar, exclusivamente, endógeno, portanto, sobre as instituições sociopolíticas, jurídicas, antropológicas, ou histórico-econômicas do Estado nacional e como estas articulam e interferem com o “fazer internacional” deste mesmo leviatã. No contexto de política estrangeira, isola-se no nível microssistêmico para fins de análises internacionalistas com seus múltiplos desdobramentos. Por exemplo, ao estudarmos as dinâmicas internas das bases sociais e regionais de apoio do partido CDU (União Democrata Cristã) alemão, estamos fazendo uma investigação científica sobre política estrangeira, no caso concreto, da Alemanha contemporânea.

Por fim, temos esses quatro termos aqui postos para fins de ponderação analítica e de reflexão para os leitores de nosso blog, gerando bons diálogos e sinergias sobre o ensino e o aprendizado das Relações Internacionais. É um fazer pedagógico crucial que amplia os raios de interlocução desta ciência autônoma. Em síntese conclusiva, portanto, a partir destas constatações, poderemos tecer outros novos olhares sobre esta fascinante área plural.

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* Doutor em Ciência Política (UFPE); Mestre e Graduado em Relações Internacionais (Indiana University of Pennsylvania). Assessor Internacional e Professor da UNICAP, é Coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Damas, Cônsul de Malta em Recife e Presidente da Sociedade Consular de Pernambuco.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

 

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