Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Poder Duro e Poder Brando na Política Internacional

Por Júlio César Cossio Rodriguez*

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O estudo do poder, de seus usos e suas possíveis manifestações estão no centro das preocupações da Ciência Política. As derivações internacionais deste ficam a cargo da Política Internacional. Uma das concepções clássicas de poder é a definida por Robert Dahl (1957) e que foi amplamente difundida dentro da área. O poder então consistiria na capacidade que A tem de fazer com que B faça o que A quer. Os meios utilizados para isto são a força ou coerção e o incentivo, em outros termos, o bastão (stick) e a cenoura (carrot). Esta definição se aplica com mais frequência às formas de poder duro, às quais se refere Joseph S. Nye Jr (2002). O poder militar seria o bastão e o econômico a cenoura. Por outro lado, o poder brando ou soft consiste naquele poder não material e que serve mais como atrativo e que convence os outros atores a fazer o que o ator com mais poder brando quer, indo por vezes contra os seus interesses nacionais. Segundo Nye (2002, 29): “Coopta os indivíduos ao invés de coagir”. Estas definições básicas são basilares e triviais nas relações internacionais, mas a questão central aqui é: como se produzem tais poderes por um Estado? Como se amplia e diminui o poder duro de um Estado? Como se amplia e restringe o poder brando de um Estado?

As teorias realistas assentam suas bases sobre premissas claras acerca do poder material dos Estados. É este o tipo de poder que define o lugar na hierarquia de poder que um Estado vai ocupar. Será ele super, grande, média ou pequena potência em função de seu poder material. Este poder material, conforme Waltz (1979), refere-se a variáveis mensuráveis de poder militar e econômico com adição de uma dose de eficiência política estatal. No âmbito do programa de investigação realista as recentes contribuições de realistas estruturais ofensivos, como a de John J. Mearsheimer (2001), definem que o poder efetivo de um Estado é aquele utilizado coercitivamente, ou seja, o poder militar. O papel do poder econômico fica ligado diretamente à capacidade de produzir mais poder militar. Ele define que o poder latente pode ser transformado em poder tangível. Ambos se relacionam com o lado duro da realidade política. Este processo de formação de poder duro consiste na transformação de recursos potenciais em capacidades e, por fim, estas capacidades tangíveis em instrumentos operacionalizáveis em política externa. Esta transformação, por sua vez, depende de um conjunto de aspectos diretamente ligados ao âmbito interno da política estatal. No âmbito do realismo as contribuições dos chamados neoclássicos destacam-se neste quesito. Relacionam os tipos de ameaças e preferências em política internacional às possibilidades internas de efetivação desta política. Ao que se referem tais autores? Por exemplo, à capacidade extrativa e de mobilização de recursos por um estado. Esta capacidade cresce à medida que crescem as pressões externas e as ameaças externas, por exemplo, no envolvimento em guerras e conflitos armados, conforme o definido por Jeffrey Taliaferro (2006). Mas as definições estratégicas e rumos adotados por um Estado frente a ameaças ou em tempos de paz relaciona-se com as preferências das elites nacionais.

Assim, para a tomada de decisão coerente sobre uma ameaça crível ou uma ação externa coerente para ampliação de seu poder material é necessário que haja consenso sobre esta ação externa, coesão entre as elites nacionais, baixa fragmentação social e ainda baixa vulnerabilidade do governo, segundo Randall Schweller (2006). É em função de buscar sobreviver num ambiente hostil e de autoajuda que os Estados são movidos em direção ao poder duro. O que influi neste processo? A percepção de ameaça a sobrevivência num ambiente anárquico, as definições sobre os interesses nacionais, a maximização de poder, as preferências das elites e, por fim, a capacidade de transformar as ameaças em preferências de poder material, que seja capaz de ser operacionalizado internacionalmente, como por exemplo, forças armadas e capacidade econômica de financiar e impor sanções. Os realistas, enfim, dedicam-se a investigar como os Estados aumentam seu poder duro e como o utilizam. Para isto, recorrem a explicações estruturais (Waltz e Mearsheimer) e não-estruturais (Taliaferro, Schweller).

E o poder brando, quem o estuda com mais ênfase? Os liberais na área da política internacional dedicam-se a isto, especialmente, Joseph Nye, o criador do conceito. Como já mencionado, refere-se ao poder de atratividade e de convencimento, para os liberais, preferível ao uso da força coercitiva. Cabe destacar que seu viés liberal implica na vinculação do conceito às bases da teoria liberal de relações internacionais, isto é, que os valores liberais têm papel central. E aqui podem ser citadas as principais variantes do liberalismo, conforme Andrew Moravscik (1997): o ideacional, o comercial e o republicano. Assim, a interpretação sobre a dinâmica das relações internacionais relaciona-se com como os Estados dialogam com estas variantes, isto é, respeitam uma ordem social legitima e as identidades nacionais; pactuam sobre a relação entre desenvolvimento econômico, progresso e paz nas relações internacionais ou ainda concordam que a forma ideal de governo, que sirva para garantir que as preferências dos indivíduos e para que o progresso seja alcançado de forma pacífica, é a república.

Cabe, portanto, questionar: qual a ligação destes elementos com o poder brando? A resposta possível é que são estes os elementos centrais de composição do que veio a ser interpretado pelos Estados como poder brando. Um Estado com elevado poder brando é um Estado que tem fortes ideais ou valores, de forma que possa difundi-los ao redor do mundo. Também, os Estados com pujança econômica e social, no qual os indivíduos podem buscar o seu progresso ou bem-estar, são considerados Estados com grande potencial de poder brando. Por último, Estados com formas republicanas de organização de sua política interna são os que terão também elevado poder brando e de atratividade. Joseph Nye, em 2012, ao avaliar as fraquezas da política chinesa de ampliação de seu poder brando posta em prática por Hu Jintao, em resposta à atratividade e penetração dos valores ocidentais na China, afirma que um dos problemas centrais está a falta de conexão (ou coerência) entre a propaganda externa feita pelas grandes ações (Olimpíadas de Pequim e EXPO em Xangai) e as práticas políticas internas, especialmente relativa aos direitos humanos e aos levantes opositores ao governo chinês no Tibete e em Xianjiang. Esta crítica revela a ligação que há entre valores normativos liberais e o poder brando. Entretanto, há outras fontes deste tipo de poder, para além das ações políticas de difusão da imagem do país, especialmente, a cultura, a difusão de valores nacionais e das ações institucionais. Logo, como destaca Nye (2004), o poder brando vale mais quando difundido do que concentrado. Desta forma, é inegável a riqueza cultura, de valores e de pujança institucional que há na China, porém ainda encontram-se concentrados e sem difusão.

E o Brasil, que já foi interpretado como um “quintessential soft power”, como anda seu poder brando após os recentes acontecimentos políticos? Este será o tema da próxima postagem!

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* Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia/Ciências Sociais e de Política Internacional Contemporânea na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Doutor em Ciência Política (Universidade de Lisboa), Mestre em Ciência Política (UFRGS) e Bacharel em Relações Internacionais (UFRGS). Pesquisador Associado do Centro Internacional de Estudos sobre Governo (CEGOV/UFRGS).

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

 

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