Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Idealismo e Realismo nas Relações Internacionais Contemporâneas: uma proposta de análise – Parte 2

Por Israel Roberto Barnabé*

Foto Guerra

Inspirados na obra de Carr, E.H., apresentamos, na primeira parte deste texto, uma proposta de discussão sobre a nova roupagem utópico-idealista presente nos discursos acadêmicos e políticos atuais e que se expressa, fundamentalmente, a partir das premissas da democracia neoliberal que marcou o final do século XX e os primeiros anos do XXI. Nesta segunda parte, analisamos, brevemente, a manutenção das premissas realistas que buscam reafirmar a imutabilidade estrutural das relações internacionais, pautadas, essencialmente, na securitização do mundo a partir das chamadas novas ameaças.

Tal análise remonta à Maquiavel (2000) – ao mostrar que o interesse primeiro do Estado é a sua própria segurança e preservação – e se ancora também numa visão hobbesiana do estado de natureza no que concerne ao aspecto conflitivo da arena internacional. Heinrich von Treitschke (apud Bedin) afirma que “a grandeza da história reside no conflito perpétuo entre nações e é simplesmente insensato o desejo de superação desta rivalidade” (2000, p. 61)

A grande influência da teoria realista no meio acadêmico na segunda metade do século XX gerou certo consenso em torno da figura do Estado e do conflito permanente entre as unidades políticas.  Evidentemente, o cenário da Guerra Fria, a primazia da segurança na política internacional e a influência do pensamento e do poder norte-americanos contribuíram para o coroamento do realismo e de suas premissas.

Morgenthau, tido com um dos principais teóricos do realismo clássico nas relações internacionais, discorda de alguns autores que acreditavam ser a luta pelo poder e o conflito internacional um momento passageiro, um acidente histórico intimamente ligado a fenômenos específicos que, uma vez superados, abririam caminho para a construção de uma sociedade internacional pacífica. O próprio Morgenthau cita alguns: Bentham que atribui os conflitos internacionais à colonização, Cobden e Proudhon e o otimismo com relação ao livre comércio e à democracia, e Marx apostando na superação do capitalismo como condição primeira para a paz permanente entre os povos.

Contrariando as expectativas desses autores, Morgenthau afirma que os fenômenos políticos internacionais sempre estiveram e sempre estarão intrinsicamente ligados à manutenção, ao aumento ou à demonstração do poder. Portanto, para a teoria realista, o cenário internacional se mantém anárquico e conflituoso. Anárquico por não existir nenhuma entidade que “do alto” estabeleça as regras e as leis deste cenário, visto que os Estados Nacionais são todos – e cada um deles – soberanos, independentes e juridicamente iguais. Sem um juiz não há leis e sem leis há anarquia. Esta anarquia e a busca por interesses nacionais geram uma luta eterna de todos contra todos onde ‘o Estado é o lobo do Estado’.

Esta análise assume uma nova roupagem após a Guerra Fria. Tendo desaparecido o inimigo que durante décadas dava suporte à visão realista – o Comunismo, urgia apresentar ao mundo as novas ameaças que justificariam a manutenção da ordem erigida pelas grandes potências (especialmente pelos Estados Unidos) e a ingerência destas potências por todo o globo. No nível mundial, a nova ameaça ganhou forma na luta contra o ‘Eixo do Mal’ e contra o ‘Terrorismo’; na América Latina a influência estadunidense seria garantida pelo combate ao ‘Narcotráfico’. A securitização das questões internacionais tem marcado grande parte das análises contemporâneas e garantido a predominância da abordagem realista na disciplina de relações internacionais. Carr, ao discutir o uso da força como instrumento afirma que

(…) o poder econômico é impotente se a mão armada não estiver pronta para sustentá-lo. O poder é indivisível e as armar militares e econômicas são, meramente, diferentes instrumentos do poder. (…). Na busca do poder, instrumentos militares e econômicos serão ambos utilizados (2001, p. 155 e 157).

O que podemos perceber é que, como na época em que Carr analisa as visões sobre o cenário externo, marcados pela dicotomia entre utópicos saudosos da ordem liberal do século XIX e realistas fixados no conflito, na guerra; hoje também podemos observar que as relações internacionais têm sido analisadas sob esses prismas teóricos, sem os necessários questionamentos.

Claramente, idealismo e realismo são posicionamentos teóricos antagônicos. Entretanto, possuem a mesma essência em suas formulações – o Positivismo. Esta essência faz com que as análises se apresentem com certa superficialidade, conservando e mantendo o status quo internacional. A base positivista é explicitada nas duas abordagens: i) do lado idealista, o apego a um modelo ideal perfeito e o consequente distanciamento das condições reais, dos conflitos próprios da existência humana, ii) do ponto de vista realista, a separação metodológica sujeito investigador/objeto investigado – ambas análises buscando apresentar a universalidade dogmática (na paz perpétua liberal-democrata ou no conflito perene da humanidade) e a neutralidade científica.

Neste sentido, a crítica ao positivismo – que entendemos necessária ao estudo das relações internacionais – atinge as duas visões. Dentre as principais críticas, podemos destacar: i) a impossibilidade da neutralidade científica visto que esta, na verdade, acaba por corroborar a ordem existente e, assim, atender aos interesses dos grupos que defendem sua manutenção; ii) a necessidade de incluir nos debates alguns elementos centrais para o entendimento do complexo cenário que se desenha na atualidade (dentre eles a questão econômica-social), iii) a importância em se considerar o movimento e a mutabilidade da história, descartando abordagens de um ‘dever ser’ que não possui nenhum lastro com a realidade e outras que, a partir de uma análise vinculada à ‘natureza das coisas’ fixam presente e futuro em lógicas que jamais poderiam ser alteradas.

Os limites apresentados pelas análises idealista e realista abrem espaço para o desenvolvimento da Teoria Crítica, fundamentalmente embasada nas ideias marxianas. Conforme afirmam Vigevani (et al), ao discutirem a postura positivista das escolas realista e liberal nas abordagens das relações internacionais contemporâneas,

O resultado da crítica e consequente negação desta postura positivista leva a uma interpretação mais refinada do sistema internacional, de suas crises e contribui para a explicação da emergência e decadência das hegemonias. (…) Na perspectiva aberta pelas grandes questões do século XXI, um marxismo renovado, afastado de suas versões vulgares, que busca analisar criativamente os novos problemas colocados pelas relações internacionais, contribui para debates que cobrem um amplo espectro de temas. (2011, p. 130, 122, 123)

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* Doutor em Ciências Sociais pela (Unicamp), Graduado em Ciências Sociais e Mestre em Sociologia pela Unesp Atua nas seguintes linhas: Processos de Integração Regional na América do Sul, Teoria das Relações Internacionais, Sociologia das Relações Internacionais. É membro do Regional Integration Research Group (Institute of Latin American Studies, Stockholm University). Líder do grupo de pesquisa Política Internacional e Processos de Integração, é Professor Adjunto IV do Departamento de Relações Internacionais e pesquisador do CEI/UFS e do NEPI/UFPE.

Referências Bibliográficas

BEDIN, G. A. O Realismo Político e as Relações Internacionais: algumas reflexões sobre o Paradigma Tradicional das Relações Internacionais. ______________. Paradigmas das Relações Internacionais. Ijuí: Unijuí, 2000.

CARR, E. H. Vinte Anos de Crise: 1919-1939. Brasília: Editora da UnB e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001.

MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo: Cultrix, 2000.

MORGENTHAU, H. J. Politics Among Nations: the struggle for power and peace. 6ª ed. New York: McGraw-Hill, 1985.

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