Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Extremismo 2.0*

Por Antonio Henrique Lucena Silva**

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Imagine se o ex-chanceler Adolf Hitler, morto em 1945, reaparecesse no cenário atual. Como as pessoas reagiriam? É com essa ideia que o autor Timur Vermes escreve a obra satírica “Ele está de volta” (no original: Er ist wieder da), lançado em 2012. O livro rendeu um filme na Alemanha com o mesmo roteiro do texto. Na obra, Hitler ressurge atordoado em um terreno em Berlim, sem saber direito o que aconteceu com a queda do regime nazista. Apesar de ninguém acreditar que ele seja o verdadeiro Hitler, as pessoas o encaram como um ator de comédia que ganha o seu próprio programa e começa a fazer vídeos no Youtube. Logo os vídeos postados passam a ter milhões de visualizações na rede e ele começa a usar a sua popularidade para voltar à política.

Atualmente, o mundo presencia o retorno (ou a sua nunca saída de fato) de extremismos das mais diversas ordens. Evocando ideias antigas ou remodelando-as em novas, as concepções extremistas parecem fazer ecos. O terrorista norueguês Anders Behring Breivik foi condenado a 21 anos de prisão prorrogáveis caso a justiça da Noruega acredite que ele ainda represente uma ameaça. O motivo da condenação foi o atentado a bomba, em Oslo, e o massacre de 77 jovens em um acampamento do Arbeiderpartiet, em Utoya. Breivik publicou um texto intitulado “2083: A European Declaration of Independence” (2083: Uma Declaração de Independência Europeia) em que consolida as suas ideias extremistas. Nele, afirma que a Europa está vivendo uma guerra civil e considera que o marxismo cultural e o Islã são uma das maiores ameaças à cristandade moderna. Os escritos do terrorista também disseminam ideias homofóbicas, racistas e antifeministas. O Brasil é citado no texto algumas vezes, mas a principal delas é que Breivik afirma que o multiculturalismo é algo equivocado, e cita o exemplo brasileiro para ilustrar que ele pode gerar desfuncionalidades.

As ideias presentes no texto não são novidade. A tradição de pesquisa em Análise do Discurso classifica essa característica como interdiscurso, ou seja, a  apropriação de outros discursos que foram configurados previamente, de forma implícita ou explícita, para extração e formação de um outro. A análise de Breivik é um interdiscurso dos teóricos do darwinismo social. O exemplo mais evidente é o de Arthur de Gobineau (1816-1882). O filósofo francês acreditava que a porcentagem de civilização é proporcional à porcentagem de sangue ariano na população em questão. Em seu livro “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas”, de 1853, Gobineau pregava a exclusão das raças semíticas, que considerava inferiores. “Semítico” é um adjetivo usado para povos que falavam, ou falam, línguas semíticas. Todas elas possuem uma ancestralidade comum. Há muito debate sobre o uso racial da palavra, mas existe consenso em que ela aborda as populações que se expressavam em acádio, árabe, aramaico, assírio, hebraico, maltês e tigrínia. As ideias de Gobineau estavam presentes no livro “Minha Luta”, de Adolf Hitler. No texto, o autor foca nos judeus que ele considerava serem responsáveis pela derrota alemã de 1918, pelo liberalismo plutocrático e corrupção mundial. Em suma, Hitler os responsabilizava pelo declínio do Ocidente. Breivik considera que o declínio do Ocidente virá com os árabes. No passado, eram os judeus, agora, os muçulmanos.

Interessantemente, os movimentos extremistas da atualidade têm buscado se afastar das teses raciais para evitar a associação com esse contexto. No entanto, fica claro em algumas declarações que o fator imigração está presente em alguns pontos. O partido Aurora Dourada (Χρυσή Αυγή), na Grécia, possui esse viés anti-imigração. Uma das justificativas para a construção de um muro anti-imigrantes na Hungria, pelo primeiro-ministro de extrema-direita Viktor Orbán, foi que o número de muçulmanos superaria o de cristãos, podendo trazer ameaças à coesão social húngara. Nesse sentido, a ideia de degradação racial tem relação direta com a degradação da Europa e de outras sociedades pela via do multiculturalismo. Ao que parece, o multiculturalismo ocupa hoje o lugar pela noção abandonada de miscigenação.

A corrida para obter a nomeação dos partidos republicano e democrata nos Estados Unidos tem despertado a atenção do mundo. Mais especificamente o candidato líder entre os republicanos, Donald Trump. Talvez seja excessivo comparar Trump com algumas ideias discutidas previamente, ou como fez o Presidente do México Enrique Peña Nieto. No entanto, é importante ressaltar o caráter extremista do discurso de Trump. O republicano propõe a criação de um muro na fronteira que separa o México dos Estados Unidos, assim como fazer deportações em massa de imigrantes que não tenham documentos. Convém ressaltar que o foco do discurso de Trump é na economia, em que ele ataca o liberalismo americano por ter “exportado” empregos que deveriam ser dos americanos. E parte de desses empregos foi para o México. Restrições ao comércio que garantam empregos aos americanos seriam um foco da política do empresário, caso ele venha a assumir a Casa Branca no ano vindouro.

Cabe salientar que a ascensão de líderes com discurso extremista é um fenômeno mundial. Mas, afinal, o que explica o apoio a políticos com discursos radicais? Não há um único fator claro para se dar a essa pergunta. Uma das possibilidades para elucidar a popularidade de candidatos “anti-establishment” é a crise da democracia representativa. Ao redor do globo várias sociedades estão críticas com os políticos “profissionais” e as suas vicissitudes. Esse descontentamento possibilita a emergência de carreiristas políticos que buscam auferir ganhos através de discursos simplistas ou de ódio.

Outro fenômeno que ajudou a catalisar essas manifestações foram as redes sociais. O filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016), crítico das redes sociais, afirmou que essa nova tecnologia deu voz a uma legião de imbecis. Antigamente, as pessoas mais radicais estavam restritas a sua esfera local. No ambiente virtual, elas se dão essencialmente pela via identitária, em que as pessoas se aproximam e formam redes a partir desse processo de identificação. Com o advento dessas redes, agora elas perceberam que não estão sozinhas e buscaram se organizar. Seja à esquerda ou à direita, de forma mais clara, ou soft, essas mensagens tendem a encontrar ressonância. Elas vão desde classificar bispos como “comunistas”, completamente desprovida de realidade, até o elogio de criminosos torturadores agentes do Estado em períodos ditatoriais.

Talvez uma das lições construídas na sátira de Vermes, na sua adaptação cinematográfica, seja dada pelo próprio Hitler. Culpado por ser qualificado de “monstro”, o ressurgido líder pede, na verdade, que culpem os que o elegeram. A reflexão dele é de que essas pessoas normais também não são “monstros”, mas que votaram em alguém diferente dos outros para confiar o destino de seu país. E conclui afirmando porque as pessoas o elegeram: “no fundo, elas são como eu. Têm os mesmos princípios”. Na prática, a metáfora da mensagem do livro de Vermes é que nós não nos livraremos de Adolf Hitler tão cedo. Ele pode ter morrido no bunker do Reich em 1945, mas suas ideias permanecerão vivas e por um longo tempo.

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* O autor agradece à Prof.ª Dr.ª Luciana Campelo de Lira pelos comentários ao texto inicial.

** Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor de Relações Internacionais da Faculdade Damas da Instrução Cristã. Atua na área de Segurança Internacional, Estudos Estratégicos e Política Internacional. E-mail para contato: antoniohenriquels@gmail.com.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

One Comment

  • […] Os partidos de extrema direita nos países da União Europeia buscaram se fortalecer, instrumentalizando os medos da população para crescer eleitoralmente, empregando a retórica anti-imigração e usando a crise migratória como principal elemento. No entanto, é questionável o discurso desses partidos, já que os grandes contingentes de refugiados sírios estão situados na   Turquia, Líbano e Jordânia, e não na Europa, como afirmam. Esses partidos nacionalistas, na Europa, têm ganhado força através de campanhas xenófobas, principalmente em países onde eram pequenos anteriormente. No entanto, embora os partidos nacionalistas sejam bem diferentes entre si, há um fator que os une: o forte posicionamento anti-imigração, mais evidente entre aqueles situados na Europa Ocidental. Em momentos de crise, a extrema-direita ressurge com força total, através do “voto de protesto” dos cidadãos, com relação ao partido que está no governo, contra a corrupção no país. O discurso anti-imigração está ancorado em uma ideologia extremista, que tratamos brevemente em artigo anterior. […]

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