Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Na busca de um neoiluminismo nas relações internacionais contemporâneas

Por Thales Castro*

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O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,
 procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram […]
Trago ao Universo um novo Universo porque trago ao Universo ele-próprio.
Alberto Caeiro, O guardador de rebanho (1911-1912).

A coisa mais perfeita que podemos experimentar é o misterioso.
É a fonte de toda arte e de toda ciência verdadeira
Albert Einstein

As palavras de profundo alcance de Alberto Caeiro, um dos pseudônimos de Fernando Pessoa, e de Albert Einstein estão unidas de uma forma muito particular: o mistério do universo é que nos move; sua grandiosidade é que nos impulsiona. Inexoravelmente, o mistério fascinante das Relações Internacionais foi e é a fonte de toda inspiração de nossos escritos e de nosso fazer internacionalista diário. Seus labirintos, suas veredas e suas encruzilhadas nos levam à tessitura dos argumentos aqui delineados. Percebe-se, nos autores as mesmas ideias e os mesmos ideais de politicidade dos seres humanos em todas as esferas possíveis, desde o mais remoto vilarejo até as grandes megalópolis ou ainda desde os pequenos países até os organismos internacionais.

A politicidade é forma reinventada de pertença gregária; é artefato de interação valorativa entre os povos. A vida gregária é destino. A vida social é meio e fim. A vida social torna um todo humanizador necessário dos seres a partir do outro com suas sensibilidades. A vida política é imperativa em todas as esferas, porém, não se deve deixar contaminar pelo excessivo cinismo maquiavélico-hobbesiano dos capitais de força-poder-interesse como um fim próprio. Antes de tudo, se deve articular a busca humanista da síntese equilibrada (SEND)[1] entre a tese nata dos capitais de força-poder-interesse (KFPI) com a antítese aguerrida dos padrões de dissuasão-normas-valores. (PDNV). Na síntese, está, portanto, boa parte das respostas normativas viáveis para um caminho possível de conduta ótima no campo das complexas Relações Internacionais do século XXI, com seus efeitos profundos de fragmentação.

Buscar conhecer representa poderosa arma para o internacionalista. Façamos bom uso dela. Mas, qual universo buscamos conhecer? O universo ele-próprio? Ou o microuniverso de nós mesmos como atores das Relações Internacionais? Qual universo nos convém diante das novas fronteiras e dos velhos desafios permanentemente apresentados aos sujeitos cognoscentes?

Será mesmo um buscar conhecer ou um redescobrir que tem mais relevância, sob o ponto de vista da formação do conhecimento, para o internacionalista neste atual momento de pós-modernidade e de constante relativização? Bom, algumas dessas perguntas devem permanecer no ar de maneira proposital. Às vezes, perguntas são mais essenciais que as repostas. A arte de perguntar leva mais longe que o anseio das respostas prontas e imediatas. As perguntas são a grande lança de invenções, mudanças, transformações e revoluções. É o gatilho; é o elemento catalisador das grandes reformas inclusivas do mundo.

O presente texto à mão livre não tem o objetivo de ser mais um componente do blog de análises internacionais contextualizadas. Não é. Toda conclusão na forma de texto analítico pode ser precipitada em um primeiro olhar. Apresentamos problemas, desafios, possíveis soluções para a política internacional complexa dos dias atuais.  Esta parte utiliza o parâmetro de colocar-se como para além de meros rótulos teóricos, meras ilustrações de fácil digestão para o leitor.

Diante da banalização de padrões e da relativização de valores e diante das várias crises sistêmicas que temos vivenciado, creio que estamos todos precisando de um neoiluminismo. Este neoiluminismo sensível aos reclames sociais seria uma alternativa que traria em si as sementes do SEND – sintetismo de equilíbrio normativo dinâmico – para, verdadeiramente, espelhar os valores da paz, da cooperação, do entendimento e da harmonia no cenário internacional. O caminho que buscamos trilhar foi, por conseguinte, rejeitar, ao máximo, equívocos banalizantes sob a classificação de conhecimentos pseudocientíficos como também não reproduzir, de forma acrítica, conhecimentos sem o devido crivo e sensibilidade local. Buscou-se gerar e apresentar, assim, novas alternativas ao debate, sem esquecer as ricas contribuições já consolidadas no mundo acadêmico central das Relações Internacionais. Precisamos, como alunos e docentes das RI, avançar – e muito – neste quesito.

É imperativo repensar e reapresentar possibilidades no horizonte da política internacional. Precisamos mudar em nós mesmos e forçar cada macrotransformação que se deseja ver como reflexo nos Estados, nos organismos internacionais e nas demais tipologias dos atores das RI. Estejamos, pois, com os corações e as mentes abertos à “eterna novidade do mundo” como dizia Fernando Pessoa. Caso contrário, estaremos dando margem a toda a sorte de futilidades alienantes que, muitas vezes, mascaram opressões e exclusões. A mutante “novidade do mundo”, também aludida por Fernando Pessoa, diz respeito à natureza estrutural da política internacional pós-moderna com sua dinamicidade e sua surpreendente capacidade de relativizar os paradigmas rígidos e absolutizar o etéreo em uma síntese, gerando uma necessária uma fórmula de além-teoria.

As muitas teorias das Relações Internacionais aqui postas concernentes às questões de segurança internacional, aos processos decisórios internacionais, aos dilemas civilizacionais e às muitas agendas antagônicas dos países revelam, atualmente, o constante fluxo de progresso e retrocesso, adiantamento e estagnação da natureza das Relações Internacionais na primeira vaga da pós-bipolaridade. Os grandes desafios consistem em ampliar uma agenda mais crítica, reflexiva e mais humanizada, por meio de novos arcabouços teóricos, em especial por meio do SEND.

 Ao concluir esta não-conclusão, buscamos repensar, de forma crítica e integrada, tendo por base os cinco grandes eixos temáticos: a fenomenologia, a metodologia, a epistemologia, a ontologia e a praxeologia das Relações Internacionais. Cada uma dessas partes dialoga com seus próprios edifícios internos como também dialoga ampla e transversalmente com as demais partes. Há pontes de fluxos e de fluidez em cada umas das partes apresentadas. Esperamos, portanto, que cada leitor possa ter tido a oportunidade de trilhar as pontes que se encontram com total acesso franqueado, por meio dos outros textos de minha autoria aqui do blog Vox Magister.

Buscamos e precisamos cada vez mais de um neoiluminismo. Esperamos que cada leitor tenha sentido a oportunidade de crescer e de transformar sua microrrealidade, pois assim a macrossistemia das Relações Internacionais pode ser melhorada e aprimorada. Cada um dos atores individuais possui força singular de mudanças sociais, políticas, culturais, econômico-comerciais e jurídicas nas mais amplas esferas. Cada um dos atores individuais faz parte deste neoiluminismo e contribui, ativamente, para o fortalecimento do tecido da civitas maxima. Resta saber e enfatizar que é possível empoderar-se, é possível aglutinar capacidade de alteração das lógicas (antilógicas) previstas e apresentadas como tal. A civitas maxima precisa estar em nós, tanto quanto precisamos estar nela. As grandes revoluções libertárias começam em nós mesmos, especialmente, quando se busca humanizar o humano pós-moderno. Se estas folhas ajudarem a formar tais sementes de mudanças, então já temos plena certeza do senso de missão cumprida.  Avante!

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* Doutor em Ciência Política (UFPE); Mestre e Graduado em Relações Internacionais (Indiana University of Pennsylvania). Assessor Internacional e Professor da UNICAP, é Coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Damas, Cônsul de Malta em Recife e Presidente da Sociedade Consular de Pernambuco.

[1] O SEND é o Sintetismo de Equilíbrio Normativo Dinâmico. Representa uma nova corrente teórica que busca, a nosso ver, uma reconstrução dos modelos teóricos de primeira, segunda e terceira geração no campo da política internacional. Tem base no Aufhebung hegeliano de superação entre a tese dos capitais de força-poder-interesse e a antítese dos padrões de dissuasão-normas-valores, buscando, por seu turno, a ortoontopraxia na forma do trinômio da paz-segurança-estabilidade agir normativo internacionalista dos atores (CASTRO, 2012).

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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