Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Pesquisa Qualitativa, Estudos de caso e Process-tracing na Análise de Política Externa Contemporânea

Por Elton Gomes dos Reis*

Process-Tracing

Estudos de Caso e Análise de Política Externa

Desde os seus primórdios  ainda nos anos 1950 e 1960 , a Análise de Política Externa (APE)  tem reservado um espaço importante para a aplicação dos estudos de caso na compreensão dos fenômenos de poder  que se desenvolvem em função da busca das metas dos Estados na arena política internacional. Enquanto subcampo da Ciência Política e das Relações Internacionais, a  APE possui historicamente um foco particular  no exame da formação das preferências dos atores e nos processo decisório como uma forma de análise causal.

O estudo de casos  tidos como “exemplares” encontrados no “baú de exemplos” da história das relações internacionais  figura de modo destacado em considerável parcela dos trabalhos sobre política externa, permeando a literatura responsável pela estruturação do edifício teórico dessa seara de pesquisa. Assim, a análise de casos específicos, pensados de modo particular, ou em perspectiva comparada corresponde a  um elemento largamente empregado  para a analisar tanto  o processo decisório (conduta estratégica dos formuladores de política e tomadores de decisão) quanto os resultados políticos concretos obtidos pelas diferentes forças em presença no sistema internacional.  Dessa maneira,  ao longo da história os grandes nomes da subdisciplina se debruçaram sobre eventos de política externa considerados entendidos momentos críticos tais como a Crise dos Mísseis Cubanos de 1962 (ALLISON; ZELIKOW, 1971)  a decisão americana de enviar tropas ao Vietnã em 1965 (KHONG,1992) , a análise das decisões  da União Européia,em período mais recente, e tantos outros casos.

Process Tracing e Estudos de Caso em Ciência Política

O rastreamento  do processo político é uma metodologia que tem ganhado um espaço cada vez maior na Ciência Política. Esta abordagem desenvolvida  ainda na década de 1970 foi sistematizada em suas grandes linhas  por George e Bennett (2005) e descrita em seu modus operandi na prática de pesquisa de modo amplo por Beach e Pedersen (2013).  Nos seus apectos mais fundamentais o Proces tracing objetiva investigar os fenômenos políticos, identificando  os mecanismos causais existentes entre as muitas variáveis observadas, operando, sobretudo,  nos chamdos estudos de caso em profundidade. A lógica fundamental dessa abordagem consiste em ir além da identificação da correlação entre as variáveis independentes (x) e seus resultados (y), identificando os mecanismos causais que ligam os dois eixos do fenômeno político investigado. Um mecanismo causal pode ser definido como: “um sistema complexo que produz um resultado através da interação de um número de partes” (GLENNAN, 1996 apud BEACH; PEDERSEN, 2013). O process tracing representa uma tentativa de identificar os elementos intervenientes do processo causal, isto é, a cadeia de eventos causais que há entre a variável independente e os resultados, ou variáveis dependentes (GEORGE; BENNET, 2005). Empregando o process tracing, os estudiosos podem  perguntar “como é que” X “gera uma série de condições que contribuem de alguma forma (ou não) para produzir” Y “? Ao enfatizar  o processo causal por meio da explicação por mecanismos, o processo de rastreamento é aplicado tanto para a construir, ou validar perspectivas  teóricas e hipóteses, como para promover explicações minimamente suficientes para fenômenos políticos caracterizados por elevado grau de peculiaridade.

Empregando a metodologia qualitativa para estudos de caso do tipo process tracing,  os pesquisadores procedem ao exame de uma série de fatos históricos, documentos de arquivos oficiais, transcrições de entrevistas  e outras fontes semelhantes relacionadas ao caso específico estudado  a fim de determinar se uma hipótese teórica  levantada pode ser confirmada (GEORGE; BENNETT, 2005; TANSEY, 2007). A análise dessas fontes, e a identificação da sequência e da  estrutura assumida pelos eventos políticos  promove o entendimento dos resultados produzidos.

A contribuição do Process Tracing para o campo da Análise de Política Externa

A revolução pela qual passou a APE nos anos 1990 em face das distensões da ordem internacional  provocadas pelo fim da bipolaridade e pela  intensificação da globalização política e econômica , trouxe  maior dinamismo ao campo ao se adotarem teorias de médio alcance e abordagens do tipo  ator específico (HUDSON, 2006) para a investigação. O process tracing (rastreamento do processo) é uma abordagem que encontrou nos estudos de caso em Ciência Política e Relações Internacionais um terreno  fecundo para o seu desenvolvimento. No campo da APE esse instrumento heurístico tem fornecido uma importante contribuição ao estudo da dinâmica protagonizada pelos Estados e por outros atores com capacidade de se projetar no plano internacional.

A recente incorporação do process tracing na APE está diretamente conectada com o compromisso da subdisciplina em promover análises integradas estabelecida em período contemporâneo.  Essa abordagem se combina com a lógica de multicausalidade e  com pressuposto de que os fatores internos e externos se combinam em Política Externa que é amplamente assumido na bibliografia acadêmica recente. No campo da APE,  o process tracing se mostra particularmente útil  na análise dos casos desviantes, auxiliando na  identificação dos fatores específicos que levam um determinado ator investigado a se  afastar das tendências de comportamento esperadas na condução da política externa, testando a teoria vigente, ou construindo explicações para compreender casos específicos. Assim, é possível , por exemplo investigar as razões que levaram uma administração a promover a adesão de um país a um regime internacional específico quando outros Estados com características semelhantes rejeitaram a ratificar o acordo, ou  integrar a organização. Muito embora não permita  excluir todos os fatores associados a um  caso particular, o rastreamento do processo  permite  restringir o leque de possíveis explicações e  refutar as alegações de que uma única variável é condição  necessária, ou suficiente para produção de um resultado em política externa.

Em APE, o  process tracing  é empregado para investigar a tomada de decisão e a implementação da Política Externa, trazendo explicações por mecanismo capazes de proporcionar ao analista meios para estabelecer nexos causais verificáveis.  Sobretudo, essa  metodologia qualitativa estabelece inferências que permitem compreender em profundidade o ator político estudado, investigando a sua trajetória ao longo de um determinado intervalo de tempo.  Os estudos de caso em profundidade em Política Externa em rastreamento do processo podem permitir importantes achados empíricos mediante uma associação dessa técnica de pesquisa com outras metodologias, tais como o emprego da análise de conteúdo temático e dos modelos computadorizados. Essa contribuição pode ser encontrada em trabalhos recentes (REED, 2002; HUDSON, 2006, CHECKEL ET AL, 2005, SCHUNZ, 2010; BEACH, 2012 ) que tem dado sua contribuição para a elaboração de novas teorias, promoção de testes de hipótese e para o fornecimento de explicações sobre fenômenos específicos relativos à Política Externa de um determinado Estado ou grupo de Estados. Esse contributo ainda é modesto diante do acumulado teórico do mainstream desse subcampo de estudo. Contudo, o process tracing apresenta um considerável potencial que  poderá ser empregado pelos analistas para  fornecer meios que auxiliem a elucidar casos de política externa  em diversos nos campos:  política comercial, segurança  internacional, cooperação temática, regimes, etc. A pesquisa qualitativa de casos em política externa  assume , portanto a  variabilidade na conexão entre as causas e os efeitos estudados pelos modelos teóricos a disposição do analista (REZENDE,2011) , possibilitando a produção de inferências causais. O rastreamento do processo aplicado a investigação das causas de fenômenos singulares em política externa demanda  que os politólogos considerem  desenhos de pesquisa capazes de lidar com alto nível de variabilidade das causas da articulação entre elas, e, a presença de vários caminhos possíveis entre as causas e os efeitos.

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* Bacharel em Ciências Sociais (UFPE), Mestre e Doutor em Ciência Política (UFPE). Atualmente é professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: análise de política externa, política externa brasileira, integração regional e organizações políticas internacionais.

Referências Bibliográficas

ALLISON, Graham; ZELIKOW, Philip. Essence of decision: explaining the Cuban missile crisis. Boston: Little, Brown and Company, 1971.

BEACH, Derek. Analyzing foreign policy. Palgrave Macmillan, 2012.

BEACH, Derek; PEDERSEN, Rasmus Brun. Process-tracing methods: Foundations and guidelines. University of Michigan Press, 2013.

CHECKEL, Jeffrey T. et al. It’s the process stupid! Process tracing in the study of European and international politics. Arena, 2005.

GEORGE, Alexander L.; BENNETT, Andrew. Case studies and theory development in the social sciences. Cambridge: Mit Press, 2005.

HUDSON, Valerie M. Foreign Policy Analysis: Classic and Contemporary Theory. Maryland: Rowman & Littlefield publishers, 2006.

KHONG, Yuen Foong. Analogies at War: Korea, Munich, Dien Bien Phu, and the Vietnam Decisions of 1965. Princeton University Press, 1992.

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