Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Idealismo e Realismo nas Relações Internacionais Contemporâneas: uma proposta de análise (1)

Por Israel Roberto Barnabé*

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Dentre as várias possíveis análises sobre o cenário internacional atual, este texto busca provocar, em duas partes, uma discussão sobre as novas roupagens das correntes idealista e realista. Aquela buscando restaurar as premissas da democracia neoliberal que marcou o final do século XX e o início do XXI; esta pautada, fundamentalmente, na securitização do mundo a partir das chamadas novas ameaças.

Pensando na primeira proposição, tal como no período entreguerras analisado por Carr, há, nos discursos acadêmicos e políticos atuais, uma abordagem utópica/idealista presa aos preceitos neoliberais anunciados pelo chamado Consenso de Washington da década de 1980. Esta corrente parte do pressuposto de que a crise mundial iniciada em 2008 é algo passageiro, um contratempo ao progresso natural do capitalismo, tal qual fora pensada a Grande Guerra com relação ao liberalismo do século XIX.

A principal característica desta abordagem é o descolamento evidente nas análises entre o Estado e a Sociedade, ou seja, entre a esperança de que o Estado deve e irá tomar algumas medidas – hoje notadamente expressas em políticas de austeridade – e as condições estruturais da sociedade capitalista que apontam para uma crise muito mais grave e profunda.  O discurso é contraditório. De um lado, as correntes liberais, embora tenham vertentes diferentes, historicamente contestaram a presença do Estado na economia como sendo esta uma aberração, um desvio. A existência desta instituição não se adequaria ao avanço das sociedades; um ator que estaria, portanto, fadado ao desaparecimento. Por outro lado, o Estado tem sido chamado justamente para corrigir os defeitos do sistema e propiciar a contínua reprodução ampliada do capital. Esta presença do Estado é visível, por exemplo, na criação de créditos diversos para incrementar o consumo, no socorro a empresas privadas e bancos vitimados pela inadimplência que tem como causa, justamente, a falsa ideia de poder de consumo que o crédito possibilita, o consequentemente endividamento dos Estados e, por fim, as políticas de austeridade com forte reação social.

Como dito anteriormente, esta postura que chamamos aqui de utópica/idealista defende a ideia de que decisões políticas poderão solucionar a crise nos próximos anos e colocar o capitalismo novamente nos trilhos de sua expansão natural. Uma postura que mescla a crença no (neo) liberalismo com a ajuda política pontual do Estado. Do nosso ponto de vista, esta é uma análise superficial visto que desconsidera as questões estruturais que tem gerado a crise, cuja superação fatalmente levará a questionamentos muito mais profundos.

Esta postura superficial também é notada nas manifestações de repúdio das populações que sofrem com as medidas de austeridade. Mergulhadas em uma situação sem precedentes, não é possível notar nenhum movimento que proponha mudanças estruturais ou que pense em modelos alternativos ao capitalismo. Ao contrário, o que se busca e se espera é o retorno a um padrão de vida anterior, garantido em grande medida pelo Estado. Ou seja, esperam do Estado atitudes que façam com que as coisas voltem a ser com eram antes.  De modo geral, defende-se a ideia de que alguns ajustes políticos-financeiros bastariam para que o Admirável Mundo Novo, criado no Pós-Guerra Fria, seja restabelecido. Tal como preconizava W. Wilson, uma crença no postulado liberal com certa atuação do Estado e de Organizações Internacionais para que a paz democrática seja eternizada e junto com ela a justiça social.

Percebe-se, nesta corrente, um discurso reformista que envolve Estado, Mercado e Organizações Internacionais na reconstrução de uma “ordem perdida”, aparentemente pacífica e justa. Esta postura também é percebida nas análises acadêmicas e nos discursos políticos do Brasil ao defenderem reformas no cenário mundial e ao discutirem temas como a segurança alimentar, a composição e o formato da ONU, a multilateralidade como solução. O que notamos aqui é a falta de uma análise sistêmica e a desconsideração da natureza contraditória do capitalismo, agora globalizado e sem escapes externos. Conforme afirma Merle (1981, p. 333) “(…) o sistema internacional, pelo fato de seu caráter global e fechado, não pode mais exportar suas contradições. É obrigado a assumi-las ele próprio – o que submete cada uma das suas unidades constitutivas a uma pressão muito mais forte do que no passado”.

Resumindo esta abordagem que, no nosso entendimento, se assemelha à esperança melancólica dos utópicos do período entreguerras analisado por Carr, percebemos uma abordagem superficial e uma esperança ingênua de que tudo vai voltar a ser como antes e de que o antes era bom.

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* Doutor em Ciências Sociais pela (Unicamp), Graduado em Ciências Sociais e Mestre em Sociologia pela Unesp Atua nas seguintes linhas: Processos de Integração Regional na América do Sul, Teoria das Relações Internacionais, Sociologia das Relações Internacionais. É membro do Regional Integration Research Group (Institute of Latin American Studies, Stockholm University). Líder do grupo de pesquisa Política Internacional e Processos de Integração, é Professor Adjunto IV do Departamento de Relações Internacionais e pesquisador do CEI/UFS e do NEPI/UFPE.

Referências

MERLE, M. Sociologia das Relações Internacionais. Brasília: Editora da UnB, 1981.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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