Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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TRIP – Around the World: A Prática da Pesquisa nas Relações Internacionais*

Por Cinthia Campos**

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No artigo de abertura deste blog, abordei os desafios e os problemas inerentes da pesquisa na área de Relações Internacionais, estimando as dificuldades de definição conceitual, de mensuração e de modelagem. No entanto, para além desses dilemas, sempre é relevante perceber como essas questões afetam na prática o pesquisador na área. Um bom termômetro tem sido o TRIP Around the World: Teaching, Research, and Policy Views of International Relations Faculty in 20 Countries[1], realizado em 2012[2] e no qual inclui o Brasil em um dos seus casos, é possível identificar algumas nuances do ensino e da pesquisa das RIs no país.

De uma amostra de 270 profissionais selecionados no Brasil, 193 (71,5%) responderam às questões, que buscaram avaliar o perfil do docente de Relações Internacionais, tanto na sala de aula quanto no desenvolvimento da pesquisa. Dentre os respondentes, uma minoria afirma aplicar o paradigma da escolha racional em suas pesquisas (n=16), enquanto 41 pesquisadores não assumem a racionalidade como característica dos atores políticos[3]. Da mesma forma, as abordagens clássicas ocupam pouco espaço nas análises feitas pelos pesquisadores, em que dos 100 respondentes, apenas 36 utilizam uma das correntes clássicas, a saber, Realismo, Liberalismo ou Escola Inglesa, esta em menor número (n=9). No que tange ao posicionamento epistemológico, apenas 28 pesquisadores se consideram positivistas, enquanto 44 se consideram não positivistas e 29 deles pós-positivistas. Também é interessante perceber que a larga maioria (n=77 versus n=23) afirmam considerar fatores ideacionais (a exemplo de cultura, crenças, percepções, ideologia) em suas pesquisas.

No entanto, a questão que mais interessa a este artigo diz respeito às técnicas de pesquisa mais utilizadas pelos pesquisadores brasileiros. Quando perguntados qual a principal técnica que os pesquisadores aplicam em suas pesquisas, identifica-se que no Brasil há uma concentração de profissionais que recorrem ao método qualitativo e à análise política de conjuntura. Ao comparar com outras nações, a saber os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, o Brasil parece ter um perfil de pesquisador semelhante a esta última.

Gráfico 1. Pergunta 28: Em sua pesquisa, qual principal método você aplica[4]?

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Fonte: Gráfico elaborado pela autora a partir de dados do TRIP Around the World: TRIP Around the World:Teaching, Research, and Policy Views of International Relations Faculty in 20 Countries.

Ao serem questionados sobre quais métodos mais utilizam quando se trata da pesquisa qualitativa, podendo selecionar mais de uma opção, percebe-se que os internacionalistas brasileiros recorrem às ferramentas clássicas da pesquisa qualitativa, como análise política, análise de discurso, narrativas históricas, dentre outros. Por não ser uma pergunta espontânea, em que as opções já estão postas, não foi possível avaliar se os pesquisadores conhecem novas técnicas de pesquisa qualitativa, a exemplo das análises de fuzzy-set. No entanto, a técnica process-tracing foi citada apenas 27 vezes, de um total de 277 menções. Também causa estranheza que o survey  tenha considerado como método a abordagem da Teoria Crítica, que ao lado do Construtivismo pode ser considerada uma meta-teoria, mas não uma ferramenta de análise específica. Ver o gráfico abaixo:

Gráfico 2. Qual dos seguintes métodos qualitativos você mais usa? Marque todos que se aplicam.

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Fonte: Gráfico elaborado pela autora a partir de dados do TRIP Around the World: TRIP Around the World:Teaching, Research, and Policy Views of International Relations Faculty in 20 Countries.

É interessante notar a pouca diversidade de técnicas apontadas pelos pesquisadores brasileiros como as principais ferramentas de pesquisa. Quando a maioria dos acadêmicos afirmam aplicar predominantemente Análise de Conjuntura e Técnicas Qualitativas, ao passo que metodologias mais robustas como process-tracing, análise de conteúdo ou até mesmo QCA são pouco utilizadas ou até mesmo não citadas, pode indicar uma limitação metodológica importante.

Sprinz & Wolinsky-Nahmias reforçam que o progresso intelectual de qualquer disciplina passa por três estágios: identificar um conjunto de fenômenos e questionamentos correlatos a estes para investigação; construção teórica sobre as observações e o problema de pesquisa; e por fim, aplicar uma metodologia capaz de confrontar o arranjo teórico com os achados empíricos. Os autores concordam que as Relações Internacionais ainda são frágeis nesta última fase. Ao investigar diversos periódicos que contenham publicações na área de Relações Internacionais, em sua maioria norte-americanos[5], os autores identificaram um aumento no uso de técnicas quantitativas, ao passo que estudos descritivos perderam espaço nos principais journals.

Gráfico 3. Tendências na Metodologia em Relações Internacionais

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Fonte: Gráfico adaptado e traduzido pela autora, de Sprinz & Wolinsky-Nahmias.

Os autores alertam para a ausência de uma variedade maior de técnicas de pesquisa que estão a disposição dos internacionalistas, mas que estes não ousam o suficiente em suas publicações. No entanto, eles percebem como frutífero o crescimento de estudos que combinam diversas ferramentas metodológicas em único estudo, o multimétodo. Podemos concluir que essa baixa diversidade e interação entre técnicas de pesquisa é um problema não exclusivo dos acadêmicos brasileiros, mas é latente na área de RI, apesar da sua inerente pluralidade teórica.

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*  Este artigo faz parte de artigo publicado pela autora na Revista Política Hoje, vol. 24, nº2, 2015.

** Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco. Bolsista do Programa Nacional de Pós-doutorado/CAPES; membro do Núcleo de Política Comparada e Relações Internacionais/ UFPE; do Preator/UFPE e do Centro de Estudos Internacionais/UFS. Este texto faz parte de artigo a ser publicado na próxima edição da Política Hoje/UFPE.

[1] O Projeto realizado pelo o Institute for the Theory and Pratice of International Relations, do College of William and Mary, na Virginia, sob a coordenação dos pesquisadores Malianiak, D., Peterson, S., Tierney, M.J. Para acessar o estudo, ver: https://www.wm.edu/offices/itpir/_documents/trip/trip_around_the_world_2011.pdf

[2] Recentemente o projeto publicou um survey realizado em 2015, agora com 32 países no total. Para mais detalhes: https://trip.wm.edu/home/index.php/data/faculty-survey

[3] Outros 44 respondentes afirmam que aplicam o paradigma da escolha racional de forma tangencial. Para esta questão, o total inicial de respondentes (n=193) não preencheram esta questão, causando uma perda de 92 respondentes para esta questão. Essas divergências se mantêm para outras questões. O relatório não aponta as razões para as inconsistências entre o universo de respondentes e o número exato para cada questão.

[4] Em algumas das categorias, o survey computou como <1. Para fim objetivo de criar o gráfico, estes valores foram reduzidos a 0.

[5] Amostra coletada pelos autores nos seguintes periódicos: American Political Science Review, vols. 69–94; International Organization, vols. 29–54; International Security, vols. 1–25; International Studies Quarterly, vols. 19–44; Journal of Conflict Resolution, vols. 19–44; and World Politics, vols. 27–52.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores

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