Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Month: April 2016

A Mutilação Genital Feminina na Europa*

A Mutilação Genital Feminina na Europa*

Mariana Meneses, Rodrigo Barros de Albuquerque
Por Mariana Meneses** Rodrigo Albuquerque*** A Mutilação Genital Feminina (MGF), definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um procedimento que envolve a remoção total ou parcial da genitália externa feminina ou outra lesão aos seus órgãos genitais por razões outras que não médicas, é uma prática internacionalmente reconhecida como violação dos direitos humanos das mulheres e uma forma de abuso infantil (EUROPEAN COMMISSION, 2013). Devido aos processos migratórios, sobretudo nas últimas décadas, a MGF não se caracteriza mais somente como uma prática regional, mas é evidenciada ao redor do mundo (EUROPEAN COMMISSION, 2013; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2008). Os números do Fundo de População das Nações Unidas apontam que, globalmente, entre 100 milhões e 140 milhões de meninas e
E se o Impeachment fosse um Golpe?*

E se o Impeachment fosse um Golpe?*

Augusto W. M. Teixeira Júnior
Por Augusto Teixeira Jr.** O presente texto apresenta uma breve conjectura baseada num cenário onde um Golpe de Estado estaria em curso no Brasil contemporâneo. A ficção desenvolvida a seguir se apoia na compreensão de que um Golpe objetiva a mudança da ordem institucional por meios ilegais. Como poderemos atesar, a narrativa que segue esboça a possibilidade de um conjunto de dispositivos passíveis de utilização pelo Executivo Federal para pôr término a uma situação de agressão à democracia como a de um golpe. Sem buscar firmar posição no debate, o texto busca instigar o leitor a refletir acerca da natureza da conjuntura política não através dos fatos a que temos notícia pelos jornais ou meios institucionais, mas da sequência de eventos que não ocorreram. Baseados no cenário e nos poder
Extremismo 2.0*

Extremismo 2.0*

Antonio Henrique Lucena Silva
Por Antonio Henrique Lucena Silva** Imagine se o ex-chanceler Adolf Hitler, morto em 1945, reaparecesse no cenário atual. Como as pessoas reagiriam? É com essa ideia que o autor Timur Vermes escreve a obra satírica “Ele está de volta” (no original: Er ist wieder da), lançado em 2012. O livro rendeu um filme na Alemanha com o mesmo roteiro do texto. Na obra, Hitler ressurge atordoado em um terreno em Berlim, sem saber direito o que aconteceu com a queda do regime nazista. Apesar de ninguém acreditar que ele seja o verdadeiro Hitler, as pessoas o encaram como um ator de comédia que ganha o seu próprio programa e começa a fazer vídeos no Youtube. Logo os vídeos postados passam a ter milhões de visualizações na rede e ele começa a usar a sua popularidade para voltar à política. Atualmente,
Na busca de um neoiluminismo nas relações internacionais contemporâneas

Na busca de um neoiluminismo nas relações internacionais contemporâneas

Thales Castro
Por Thales Castro* O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar. Procuro despir-me do que aprendi,  procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram [...] Trago ao Universo um novo Universo porque trago ao Universo ele-próprio. Alberto Caeiro, O guardador de rebanho (1911-1912). A coisa mais perfeita que podemos experimentar é o misterioso. É a fonte de toda arte e de toda ciência verdadeira Albert Einstein As palavras de profundo alcance de Alberto Caeiro, um dos pseudônimos de Fernando Pessoa, e de Albert Einstein estão unidas de uma forma muito particular: o mistério do universo é que nos move; sua grandiosidade é que nos impulsiona. Inexoravelmente, o mistério fascinante das Relações Internacionais foi
EUROPOL, uma agência de policiamento que atua contra o Terrorismo de cunho religioso?

EUROPOL, uma agência de policiamento que atua contra o Terrorismo de cunho religioso?

Júlio César Cossio Rodriguez
Por Júlio César Cossio Rodriguez* Os últimos atentados de março de 2016 em Bruxelas somam-se aos diversos ataques em solo europeu realizados por grupos que se valem do terrorismo como manifestação de força. A autoria destes atentados foi assumida pelo Estado Islâmico. Grupo este que também assumiu a autoria dos atentados em novembro de 2015 em Paris. O que chama a atenção é o número de vítimas fatais destes atentados, que vão contra a tendência recente de atentados de motivação religiosa dentro da União Europeia. Mas qual o tipo de terrorismo é o mais frequente na Europa, qual tipo produz o maior número de atentados e qual o que apresenta o maior número de condenações? A resposta emotiva a basear-se no número de mortes seria o terrorismo de cunho religioso, do qual fazem parte estes últ
Pesquisa Qualitativa, Estudos de caso e Process-tracing na Análise de Política Externa Contemporânea

Pesquisa Qualitativa, Estudos de caso e Process-tracing na Análise de Política Externa Contemporânea

Elton Gomes dos Reis
Por Elton Gomes dos Reis* Estudos de Caso e Análise de Política Externa Desde os seus primórdios  ainda nos anos 1950 e 1960 , a Análise de Política Externa (APE)  tem reservado um espaço importante para a aplicação dos estudos de caso na compreensão dos fenômenos de poder  que se desenvolvem em função da busca das metas dos Estados na arena política internacional. Enquanto subcampo da Ciência Política e das Relações Internacionais, a  APE possui historicamente um foco particular  no exame da formação das preferências dos atores e nos processo decisório como uma forma de análise causal. O estudo de casos  tidos como “exemplares” encontrados no “baú de exemplos” da história das relações internacionais  figura de modo destacado em considerável parcela dos trabalhos sobre política extern
Hollowed out: What UNGASS 2016 will tell us about the Global drug regime

Hollowed out: What UNGASS 2016 will tell us about the Global drug regime

Jean Daudelin
Por Jean Daudelin* NPSIA Next week, the United Nations will hold a special general assembly on drug policy. Liberalizers hope that it will be an opportunity to put harm reduction first and to push aside the prohibitionist agenda: the beginning of the end for the disastrous "War on Drugs" of the last 40 years. Most drug use would at least be decriminalized, research on the health effects—positive and negative—of currently illegal drugs would be facilitated, and problematic use of cocaine, heroin, ecstasy, LSD or amphetamine would be seen, along with Fentanyl—as a health and social problem, instead of a crime. Overall it would be a great boon for public health and to some extent public safety too. But such a sharp change at the international level will not happen, no at UNGASS and not i
O Brasil e a Convenção de Bona

O Brasil e a Convenção de Bona

Andrea Steiner, Hugo Alves Mariz de Moraes
Por Hugo Alves Mariz de Moraes* Andrea Steiner** A proteção à fauna migratória representa um caso clássico de cooperação internacional destinada à conservação da natureza. Espécies migratórias são o conjunto da população ou qualquer parte geograficamente separada de animais silvestres, cuja proporção significativa ultrapassa, ciclicamente e de maneira previsível, um ou mais limites de jurisdição nacional. O acordo mais importante que abrange essa temática é a Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (ou simplesmente Convenção de Bona, mais conhecida internacionalmente pela sigla CMS – Convention of Migratory Species). A Convenção de Bona (Bona, Alemanha, 1979) é uma convenção-quadro que visa a proteção das espécies migratórias terrestres, aquáticas
A prática multilateral como gênese das organizações internacionais. (1)

A prática multilateral como gênese das organizações internacionais. (1)

Irene Rodrigues Gois, Rodrigo Barros de Albuquerque
Por Irene Rodrigues Gois* Rodrigo Barros de Albuquerque** O término da guerra fria estimulou o interesse por práticas multilaterais, sobretudo no seio das organizações internacionais. O aumento da relevância de atores internacionais que antes desempenhavam papeis coadjuvantes foi facilitado pela mudança de foco dos temas da agenda internacional, refletindo uma diversificação das agendas de política externa dos Estados. Frente aos desafios impostos pela globalização e à emergência da discussão sobre os bens públicos globais, esta diversificação favoreceu a ampliação das práticas multilaterais. É um equívoco, todavia, acreditar que práticas multilaterais seguem uma linha contínua e uniforme. Elas apresentam formas diferentes, em parte, devido às funções que lhes são designadas pelo dese
Idealismo e Realismo nas Relações Internacionais Contemporâneas: uma proposta de análise (1)

Idealismo e Realismo nas Relações Internacionais Contemporâneas: uma proposta de análise (1)

Israel Roberto Barnabé
Por Israel Roberto Barnabé* Dentre as várias possíveis análises sobre o cenário internacional atual, este texto busca provocar, em duas partes, uma discussão sobre as novas roupagens das correntes idealista e realista. Aquela buscando restaurar as premissas da democracia neoliberal que marcou o final do século XX e o início do XXI; esta pautada, fundamentalmente, na securitização do mundo a partir das chamadas novas ameaças. Pensando na primeira proposição, tal como no período entreguerras analisado por Carr, há, nos discursos acadêmicos e políticos atuais, uma abordagem utópica/idealista presa aos preceitos neoliberais anunciados pelo chamado Consenso de Washington da década de 1980. Esta corrente parte do pressuposto de que a crise mundial iniciada em 2008 é algo passageiro, um contr