Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Para Pensar as Cartografias de Poder Geopolíticas

Por Augusto Teixeira Jr.*

Apesar de ser difícil encontrar a disciplina Geopolítica no currículo de cursos de graduação em Relações Internacionais no Brasil, a triade geografia/ história/ poder permeia tanto a imaginação do internacionalista como também várias análises da história e conjuntura internacional. Contudo, o alardeado processo de Globalização e a aceleração no desenvolvimento e difusão de tecnologias, civis e militares, faz parecer que o fruto da inventividade humana, seus produtos e processos, tenham subvertido o primado do espaço como componente fundamental da compreensão da realidade e do poder.

Baseado nestes breves apontamentos, este ensaio enseja, de forma simples e clara, apresentar ao internacionalista a relevância de pensar Geopolítica, de incoporar à análise a dimensão espacial à compreensão e análise do poder nacional. Afinal, a forma como vemos o mundo afeta o que vemos dele. O que vemos dele nos possibilita imaginar o que é politicamente possível.

Pensar o espaço como variável do poder nacional demanda uma forma de representação didática das interações estruturantes entre a geografia, história e política. Enquanto que o economista utiliza gráficos cartesianos para postular relações entre variávies, o químico lança mão de formas geométricas para ilustrar as estruturas (sub)atômicas, o geopolítico faz o uso de mapas para melhor entender as interações estratégicas concertentes à disciplina.  Contudo, o mapa não é apenas uma representação estática da realidade fisiográfica, uma aproximação subótima do real; um mapa consiste numa cartografia de poder, a partir da qual o analista pode entender e estipular as interações estratégicas entre comunidades políticas. Talvez nenhum mapa tenha causado tanto impacto no desenvolvimento da Geopolítica como aquele no qual Halford Mackinder apresenta a sua Teoria do Heartland.

Figura 1: O mundo segundo Halford Mackinder

augusto1Fonte: http://www.eurasianet.org/node/63677

Em 1904, em plena capital do Império Britânico, Mackinder apresentou uma interpretação da realidade internacional perturbadora para a época. Segundo ele, não era a Inglaterra o centro do poder global, mas sim a potência que dominasse o Heartland. A partir de sua teoria, especialmente a sua representação cartográfica, a Eurásia, somada à África como um super-continente, era vista como uma Ilha Mundial. Esta interpretação estaria na base da sua filosofia da história, a qual orientava-se pelo secular antagonismo entre a Potência Marítima e a Potência Terrestre. Mackinder entendia que as forças tectônicas que moviam a história global se expressavam pelo antagonismo entre os representates do Poder Terrestre versus o Marítimo.

Entendendo que a expansão dos Estados, e concomitantemente do seu poder, era uma tendência inexorável, o confronto futuro estava posto na feição espacial da terra. Por mais que a sua tese tenha passado por revisões, o Heartland persistiu como ideia estratégica. O entendimento de uma ligação natural e histórica entre Europa e Ásia, cujo desenvolvimento histórico da primeira dar-se-ia subordinado à segunda, a noção do quantitativo de recursos que esse espaço do globo concentrava e a certeza das vantagens geoestratégicas desta parcela do mundo seriam fortemente aproveitadas pela União Soviética, fiel representante do Poder Terrestre. Por outro lado, a tese de Mackinder ajudaria a aconselhar os passos britânicos no continente, em particular a urgente necessidade de impedir, a todo custo, uma aliança entre a Alemanha e Rússia. Mais importante, a Teoria do Heartland é o ponto de partida para a Teoria do Rimland.

Representante da escola estadunidense de Geopolítica, Nicholas Spykman se insurgiu contra o paradigma isolacionista em voga naquele país. A tese, baseada na experiência política e concepção geoestratégica do Almirante Alfred T. Mahan, afirmava que pela posição geográfica dos Estados Unidos em relação aos grandes centros de conflito mundial (Europa) cabia àquele país tecer um perímetro de segurança no hemisfério americano. O mapa abaixo, usado por Spykman, ajuda a entender que a percepção de distância, pode ser relativa e enganadora.

Figura 2: Projeção Azimutal Centrada no Pólo Norte

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Fonte: MATTOS, Carlos de Meira. Geopolítica e Modernidade: geopolítica brasileira. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército editora. 2002

O mapa acima ajuda a falsear o argumento de que os mares seriam elementos separadores entre os continentes. Na prática, as massas de terra da América do Norte e Europa estariam mais próximas do que se imaginam. Esta conexão, vista da perspectiva do Pólo Norte, reforçava a necessidade de uma atuação ativa dos Estados Unidos nos destinos políticos da Europa para garantir a sua própria segurança.

Em diálogo intelectual com Halford Mackinder, Spykman desenvolve uma resposta à tese do Heartland, a teoria do Rimland.

Figura 3: O Mundo Segundo Nicholas J. Spykman

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Fonte: http://www.oldenburger.us/gary/docs/TheColdWar.htm

Segundo ele, além do antagonismo estrutural entre o Poder Marítimo e Terrestre não se sustentar, era o controle das fímbrias marítimas – e não a posse do Heartland – a chave para o controle da política de poder entre as grandes potências. Um Poder Marítimo bem estabelecido poderia construir meios de projeção de força em terra, somado a um sistema de alianças agindo de forma centrípeta para manter a potência terrestre detentora do “Coração da Terra” enclausurada na sua condição continental. Esse insight, proporcionado por Spykman antes do término da Segunda Guerra Mundial, seria aproveitado e desenvolvido na Estratégia de Contenção desenvolvida por geopolíticos e e geoestrategistas como Kennan e Brzezinski.

Com o término da Guerra Fria, a cartografia de poder ganhara novas feições, ameaças e fatores. Dentro os quais se destacou o advento das variáveis cultura, religião e crenças. O “Choque de Civilizações” daria o tom de uma nova forma de ver o mundo e a Geopolítica.

Figura 4: Samuel Huntington e o Mundo Dividido em “Civilizações”

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Fonte: http://homepage.smc.edu/buckley_alan/ps7/clash_civilizations.htm

A compreensão desses fatores, em particular sobre as tendências de conflito inter-civilizacionais incidiriam na compreensão de como geografia, história e política na era da globalização sofrem influências de fatores intersubjetivos e identitários. Essa contribuição favoreceu a produção de uma nova cartografia de poder, que com o advento dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 produziu o estímulo para uma nova leva de estudos e propostas na geopolítica e estratégia. Entre essas destacamos a contribuição de Thomas Barnett.

Figura 5: A Geopolítica da Guerra Contra o Terrorismo por Thomas Barnett

augusto5Fonte:http://static1.1.sqspcdn.com/static/f/577812/8159481/1282003901463/pnm.jpg?token=t4%2B29wlx8ANYlmMbcD1qrzhh7yg%3D

Apoiado na tese de Huntington sobre civilizações, Barnett constrói uma cartografia que separa o mundo entre um Functioning Core e uma Non-integrated gap. Em linhas gerais, o autor argumenta que a maior parte dos problemas de segurança e ameaças aos países integrantes do Centro, em especial os Estados Unidos, seriam originários da parte não-integrada do mundo. As zonas de fronteira entre as áreas seriam os principais focos de tensão internacional. A tese de Barnett incorpora a leitura de Huntington o peso “civilizacional” do processo de globalização. As linhas no mapa não são apenas uma representação do real, consistem numa compreensão da realidade internacional e contém, em si, um plano de ação político-militar. Ao lado da solução de força, a lógica política que a permeia aponta para a incorporação de mais partes da non-integrated gap ao functioning core. Em síntese, expandir, ampliar e aprofundar o processo de globalização e a sua dimensão “civilizacional”.

Como pudemos observar a partir deste breve retrospecto, apesar das polêmicas envolvendo o status científico e a baixa densidade de estudos de Geopolítica na academia brasileira, a disciplina tem se mantido viva e ativa na compreensão e planejamento do uso da força voltada à intenção estratégica nas relações entre comunidades políticas organizadas. Da Teoria do Poder Terrestre apresentada no mapa que descreve o mundo do Heartland de Mackinder à resposta de Spykman com a Teoria do Rimland, a cartografia de poder, acessória ao saber geopolítico, evoluiu para incorporar e lançar luz sobre dinâmicas atuais de poder, como a Guerra Global contra o Terrorismo e o palco atual daquilo que Kaplan chamou de a “vingança da geografia”.

Dada a relevância das cartografias de poder para a compreensão e o agir da Realpolitik, urge indagar, como o fez décadas atrás o professor Leonel Itaussu Almeida de Mello (in memoriam), afinal “quem tem medo de Geopolítica?”.

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* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente é professor Adjunto do Departamento de Relações Internacionais da UFPB. Líder do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Segurança Internacional (GEESI/UFPB /CNPq). Membro da Associação Brasileira de Estudos de Defesa.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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