Publicação mensal sobre Relações Internacionais

Página inicial do VOX MAGISTER

Entre o código de barras e a miséria humana: uma nova apologia*

Por Thales Castro**

mascaras

As placas tectônicas do terrorismo trazem abalos sísmicos profundos na superfície idealizada e fragmentada do ser humano pós-moderno. O universo político imaginado encontra-se hoje em uma antítese, em um paradoxo quixotesco que vem corroendo o lento processo de trajetória filosófica humana desde o iluminismo dos enciclopedistas franceses e das contribuições jusfilóficas kantianas. A corrosão é fatídica e infalível…

Este é tempo de antítese, de anticlímax figurado em volatilidade do sangue derramado do sorrateiro ato terrorista que ceifa a vida de “alvos não-combatentes” (sic). Com a alma fragmentada, o sujeito cognoscente é paquerado por perigosas soluções messiânicas, demagógicas e populistas para os males e insegurança de nosso tempo. Vivemos na era da escassez incerta em meio à plenitude incompleta.

É a falta angustiante de tempo que é o bem escasso de maior importância na conjuntura contemporânea que mistura o plano externo à nova espacialidade local-global. O medo frio, o pânico xenófobo, a dor na nuca, a sudorese e a angústia pela automação classificatória de tudo em velocidade crescente do byte são a marca da alvorada do nosso novo tempo (Será mesmo novo? Ou estamos, mais uma vez, experimentando um estado de espírito reciclado?) Oscilamos no hoje (já passado e antiquado) entre o estar (ter) e o estado (tido). Nós perdemos a oportunidade de apreciar o mimo vistoso do estando de um fluxo de continuidade calma.

O tempo urge e transfere para o futuro incerto o brado coletivo por mínima felicidade distribuída em fascículos. Mas, paradigmaticamente, nada disso existe em sua essência, a não ser na forma de um feixe codificado, impresso e digitalizado na própria dialética do global-regional-local.

Estamos diante de um amplo projeto inacabado e autofágico de destruição pós-orgânica da essencialidade do amor fraterno, da solidariedade mútua e da assistência gratuita coletiva.

Respondemos hoje assim: é a volatilidade, é a crise, é a reforma, é a guerra ao terror. Todos esses termos do todo complexo do estar podem ser comparados à ausência de respostas concretas aos problemas cíclicos que enfrentemos no cotidiano pós-moderno e pós-bipolar. É mais simples se furtar ao diálogo que, propriamente, interagir com o etéreo em conhecimentos estilhaçados pela lógica da instantaneidade da informação e da digitilização da cultura semiglobal. E o que resta então? O nada póstumo. O nada desorganizado. O tudo incompleto. O tudo sempre ausente. Um tudo incompleto não-lúcido repartido em imagens, ecos, sons, forma, texturas e, sobretudo, fome na alma. Entre o nada e a percepção do nada só restam as telenovelas, o conformismo e a miséria humana repartida também de forma desigual. Estamos na bissetriz de uma forma revisitada do mal do século.

Passamos de uma cultura ágrafa para uma cultura digital na rapidez de um download de arquivo anexo à mensagem eletrônica. O amor virtual não mata a sede nem tampouco elimina a essencialidade do afeto tocado de seres humanos em estado de inanição e desorientação moral. Os resquícios desse amplo processo falsamente reformista serão novas exclusões, descumprindo as elevadas promessas de participação dos “deficientes cívicos” (Milton Santos) no novo processo produtivo com progresso material legítimo. De forma frustrante, tais promessas de melhoria e de pacificação pela via democratizante, pelos valores liberais do mercado e pelos anseios por resgate humanista permanecem inertes. Imperativa é a necessidade não de maximização incessante de lucro, mas de maximização da justiça social distributiva.

É por isso que o imperativo ético e o idealismo têm se resumido a uma retórica oca e a uma estética ocidentalizante banal. A impessoalidade do deus mercado somente trouxe novas formas de opressão, com sutis máscaras de alienação ontológica, formando o fluxo contínuo do terceiro estado na alvorada do século XXI. Esse terceiro estado que também se articula em forma de redes moduladas, imbuídas de ondas cíclicas. Como nada se conclui, então estamos vendo, repetidamente, os caranguejos em cores matizadas e hologramas dos mangues recifenses que tanto inspiraram Josué de Castro e sublimaram o cancioneiro de Chico Science e a Nação Zumbi. É como se fôssemos atores coadjuvantes no teatro do absurdo em que Godot é que está a nossa espera. A flexibilização, a verticalização da cadeia produtiva e o pós-fordismo são ferramentas ingratas da exclusão causada pelo Leviatã exaurido. Nunca chegamos tão perto do fim – não da história ou do último homem de Fukuyama – mas sim, do mundo da esperança. Tão mais próximos estamos do necessário renascimento do que durante as trincheiras da primeira guerra, da desconstrução do humano em Auschwitz-Birkenau (“Arbeit macht frei”), ou de Hiroshima e Nagasaki, ou ainda da Crise dos Mísseis de Cuba de 1962 ou ainda os atentados em Paris naquela fatídica sexta-feira 13 de novembro ou em Bruxelas em março de 2016. E a flor deverá nascer em meio às rachaduras da rocha torturada pelo sol.

O economicismo, o historicismo, o politicismo – todos inegavelmente – só conseguem reformar, parcialmente, a reedição freudiana do “mal-estar na civilização”. A pulsão por morte do ser humano continua altiva em um intuito de obstruir o legado do iluminismo e a da racionalidade humana. Talvez hoje para servir de unguento tenhamos que nos bastar com a razoabilidade e não a racionalidade ou mesmo a razão iluminista dos revolucionários franceses que depuseram o ancien regime sob a égide tripla da igualdade-liberdade-fraternidade em 1789 ou ainda do idealismo kantiano da paz perpétua por meio da formação de uma “liga de nações tendo um legislador humano supremo sob a forma republicana”.

Será que a razoabilidade está substituindo a razão iluminista conquistada duramente pelos enciclopedistas, pelos girondinos, pelos visionários republicanos? Será que atingimos esse pináculo às avessas com as ruínas espalhadas, com as imagens em tempo real do metal corroído pelo fogo na ilha do 11 de setembro de 2001? A tese mofada do fim da história talvez também tenha sido uma das mortes daquela terça-feira fatídica. Desde então, tivemos a busca messiânica e cega, a catequese do mundo bi-dividido e pseudojustificado em um discurso salvacionista. Quase tão previsível como os movimentos contínuos do pêndulo de Foucault são o input e o output do mesmo sistema de feedback beligerante: Afeganistão (2001), Iraque (2003); e como reposta: Bali (2002), Marrocos (2003) e o sangue de Madrid (2004) e de Londres (2005)… Saímos do diálogo para o monólogo bruto e autocrático. Fugimos dos olhares fixos para a dúvida que paira em cada arbítrio humano contido pela busca por felicidade. É este o momento de desjejum forçado civilizacional pelo amanhã ilustrado que parecer não chegar. Pelo menos há um consolo neste horizonte nublado: façamos a catarse antes que o povo a faça (clara alusão de paráfrase histórica).

O essencial, portanto, é colonizar o mundo, só que desta vez, em pequenas empreitadas de integração regional e formação de zonas de livre comércio com os ditames de Balassa, Mundell e Barro. Colonização essa que pode ser dar pela engenharia política hemisférica de uma falsa-promessa integrativa. Não mais são necessários grandes empreendimentos de coragem para se lançar aos mares desconhecidos infestados de bestas e monstros ferozes do consciente coletivo da Escola de Sagres do século XV. Basta mostrar a todos a inexorável ausência de opções (e oportunidades disponíveis) e, assim, a colonização ocorrerá mais facilmente. E as opções, embora pareçam muitas, são apenas os dilemáticos caminhos das pessoas estarem hoje entre o código de barras e a miséria humana diante do reino do terror.

———-

*Este texto para nosso blog possui mais um teor de catarse sob à égide de licença poético-literária a mão livre. Não é, necessariamente, um texto acadêmico nos moldes formais. É simples e diretamente um manifesto in promptus do interlocutor internacionalista.

** Doutor em Ciência Política (UFPE); Mestre e Graduado em Relações Internacionais (Indiana University of Pennsylvania). Assessor Internacional e Professor da UNICAP, é Coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Damas, Cônsul de Malta em Recife e Presidente da Sociedade Consular de Pernambuco.

—————————————————————————————————————————————

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *