Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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As Potências no Sistema Internacional: as potências médias!

Por Júlio César Cossio Rodriguez*

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O conceito de potência média foi muito utilizado por analistas de relações internacionais durante o século XX, em especial, durante a guerra fria. Referia-se àqueles atores internacionais que se adaptavam ao sistema bipolar articulando interesses de um dos grandes polos. O ponto fundamental para definir uma potência média seria a relação que teria com uma grande potência, pois valeriam mais pela aliança com as grandes potências do que pelo potencial dano que poderiam causar aos atores com maior poder. Martin Wight (2002, p.49) definiu bem esta relação entre as grandes e as médias:

uma potência média é uma potência com poderio militar, recursos e posição estratégica de tal ordem que em tempos de paz as grandes potências desejam ter seu apoio. Em tempos de guerra, contudo, mesmo não tendo chance de sair vitoriosa, ela pode esperar infligir a uma grande potência danos bem maiores do que esta última pode esperar causar caso ataque a potência média.

Nesta definição reside a posição mediana ou intermediária. O conceito de média diz respeito ao posicionamento na distribuição de poder no sistema internacional, já o de intermediária relaciona-se com o tipo de ação que realiza, isto é, intermediando as relações entre as grandes e as pequenas. Este critério é que promove a confusão comum nas relações internacionais entre as médias, intermediárias e regionais, pois este posicionamento entre as menores e as grandes como mediador de interesses é visto como fulcral na definição de uma potência regional.

Mas potências médias e regionais são semelhantes? Joordan (2003, p.165) afirma que não, pois para ele:

Middle powers are states that are neither great nor small in terms of international power, capacity and influence, and demonstrate a propensity to promote cohesion and stability in the world system. Despite problems of classification, a consensus has developed that states such as Australia, Canada, Norway and Sweden are middle powers. However, that consensus on middle-power identification is being undermined by the recent inclusion of such states as, among others, Argentina, Brazil, Nigeria, Malaysia, South Africa and Turkey in the middle-power category.

Esta definição é bastante pertinente para evidenciar a problemática definição de potência média em paralelo com a de potência regional. Como fica claro na posição de Joordan, Canadá assume uma posição de intermediação, logo de potência média, já não pode-se afirmar que assume uma posição de potência regional. O contrário pode ser evidenciado sobre o Brasil e África do Sul, que são potências regionais, que por vezes assumem posições de intermediação, mas outras vezes não. Assim, a confusão entre estes dois conceitos é frequente e permeia a produção de Relações Internacionais.

Outra demonstração deste problema conceitual é demonstrado por Susanne Gratius (2007, p.6), quando define que:

The concept of ‘regional power’ has been developed even less than that of ‘middle power’. Two examples may show that it is a confusing (or vague) category: first, a superpower like the US is also considered a regional power in the Americas. Second, China is a global power, while at the same time being Asia’s regional power. Hence, the concept has been used most often within the regional integration context, rather than with respect to the framework of the international hierarchy of states.

Como se demonstrou a partir destas três definições há uma relação entre estes conceitos e a solução pode ser a elencada por Detlef Nolte (2010, p.890), ao afirmar que:

While traditional middle powers are, first and foremost, defined by their role in international politics, the new middle powers are, first of all, regional powers (or regional leaders) and, in addition, middle powers (with regard to their power resources) on a global scale.

Esta última leva em conta a polêmica adicional entre tradicionais e novas potências médias, quando consideram-se as tradicionais aquelas que tiveram papel de destaque durante a guerra fria, como por exemplo, o Canadá, e as novas as que têm papel relevante na virada do século XX.

Como forma de sintetizar o debate promovido nesta e na postagem anterior, insere-se a seguinte tabela com a relação entre os conceitos, na qual figuram as possíveis coincidências entre os conceitos.

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Assim, pode-se concluir que o cuidado que deve ser tomado quando utilizam-se os conceitos de potências em Relações Internacionais refere-se ao uso específico que será feito dos conceitos e a coerência teórica que eles podem demandar. Os conceitos tradicionais, como os de Potências Grandes, Médias e Pequenas referem-se mais às tradições realistas, já os de potências regionais, intermediárias e emergentes a vertentes mais liberais. Enfim, ressalta-se que o contexto do uso destes conceitos deve ser levado em conta e os critérios devem tentar ser claros em termos empíricos, apesar da dificuldade de precisar tais diferenças, principalmente, entre médias, intermediárias, regionais e emergentes. O recurso empírico que pode ser utilizado para diferenciar tais atores são medidas objetivas de poder, como por exemplo, sobre capacidades materiais, que por sua vez podem ser extraídas de índices bastante conhecidos e utilizados na nossa área, como o CINC (Correlates of War). Desta forma, pode-se identificar que a diferença de poder entre os atores é critério fundamental a ser considerado, pois é ele que vai influenciar o papel que podem estes atores desempenhar no Sistema Internacional, para além de seu enquadramento num marco conceitual e teórico específico.

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* Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia/Ciências Sociais e de Política Internacional Contemporânea na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Doutor em Ciência Política (Universidade de Lisboa), Mestre em Ciência Política (UFRGS) e Bacharel em Relações Internacionais (UFRGS). Pesquisador Associado do Centro Internacional de Estudos sobre Governo (CEGOV/UFRGS).

Referências

Gratius, S. (2007). Brasil en las Américas: ¿Una potencia regional pacificadora?. Documentos de Trabajo FRIDE, (35), 1.

Jordaan, E. (2003). The concept of a middle power in international relations: distinguishing between emerging and traditional middle powers. Politikon, 30(1), 165-181.
 
Nolte, Detlef. (2010). How to compare regional powers: analytical concepts and research topics. Review of International Studies, 36(04), 881-901.
 
Wight, M. (2002). A política do poder. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
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